A LEI DO CÃO - final

1457 Palavras
O cheiro que emanava das profundezas era nauseante, uma mistura repulsiva de mofo, umidade e algo mais... algo pútrido e inominável. Lá dentro, sob a luz vacilante das lanternas, encontraram um cenário dantesco. Pilhas de dinheiro empacotado em plástico bolha, um arsenal de armas enferrujadas, sacos contendo drogas de aparência duvidosa... e um saco plástico lacrado, contendo um crânio esbranquiçado e ossos fragmentados. A arcada dentária, examinada por um perito apressado, era inconfundível: pertencia a Jezebel, a esposa de Jarbas, desaparecida misteriosamente havia três meses. — Ele não apenas matou... Ele estava escondendo seus crimes em plena vista, sob o verniz da normalidade... — disse Emílio, a voz rouca, cobrindo o rosto com a mão enluvada, tentando conter a náusea. Confrontado com as evidências irrefutáveis, Sr. Coelho desabou, caindo de joelhos no chão empoeirado do porão. — Vocês não entendem... Eu fazia o que precisava ser feito. Por nós dois. Eu preparava o ambiente... ele cuidava do resto. — Ele quem, Coelho? Quem te ajudava nessa carnificina? Jarbas levantou o rosto lívido, um sorriso perturbador e vago se espalhando por seus lábios finos. — O garoto. O da banda. O anjo da morte. — Timothy?! — exclamou Rômulo, a incredulidade estampada em seu rosto jovem. Jarbas apenas assentiu lentamente, os olhos fixos em um ponto invisível no vazio. — Ele aparecia... mascarado... nas noites de lua cheia. Eu escolhia as vítimas, criava as oportunidades... ele executava. Era como uma dança macabra. Ele se aproximava... silencioso como um espectro... e então, bang! Nada restava além do silêncio e do sangue. Timothy foi localizado pela polícia no porão da casa de Joel, seu pai, um espaço abafado e escuro, cercado por instrumentos musicais empoeirados e máscaras de teatro com expressões grotescas. Não ofereceu resistência. Seu olhar vago não demonstrava remorso ou medo. Apenas disse, com sua voz calma e monocórdica: — Eles mereciam. Todos eles. E o Sr. Coelho... ele me libertou. Ele me mostrou o caminho. Três meses se arrastaram lentamente, como feridas que se recusam a cicatrizar. A cidade tentava, hesitante, retomar uma aparência de normalidade, mas as cicatrizes invisíveis daquele período sombrio eram profundas. O noticiário local já não estampava manchetes sangrentas, e os moradores de Santo Antônio se aventuravam a caminhar pelas ruas estreitas com um pouco mais de desenvoltura durante o dia. Ainda assim, o toque do sino da igreja Espírito Santo, às dezenove horas, continuava a evocar um arrepio de apreensão. Aquela badalada, antes um símbolo de fé e encontro, permanecia como um lembrete sinistro da hora do recolhimento, do medo ancestral da noite. Timothy voltou a sair de casa. Andava devagar pelas calçadas rachadas, os fones de ouvido sempre colados às orelhas, a mochila surrada pendurada nas costas. Seu olhar permanecia o mesmo: perdido, enigmático, como se estivesse contemplando um mundo que apenas ele podia ver. Os vizinhos evitavam o contato visual, desviando o olhar com um misto de curiosidade e repulsa. Mesmo depois de ser considerado inimputável e liberado sob os cuidados do pai, as línguas afiadas da vizinhança ainda o apontavam como alguém... diferente. Estranho. Perigoso. Numa tarde abafada de sexta-feira, o calor opressor pairava sobre a cidade como um sudário. Dona Maria viu Timothy sentado sozinho na calçada em frente à antiga casa do Sr. George. Ele encarava a rua deserta com uma expressão ausente, como se procurasse por algo que havia se perdido no tempo. Ela se aproximou hesitante, a curiosidade vencendo o medo. — Boa tarde, Timothy. Como você tem se sentido? Ele retirou um dos fones, o som abafado de uma melodia dissonante escapando brevemente. — Tô bem, Dona Maria. Só... pensando. — Pensando no quê, meu filho? Ele hesitou por um instante, os olhos fixos em um ponto imaginário na poeira da rua. Depois, respondeu com um sussurro quase inaudível: — Às vezes eu sonho que o Sr. George me chama da margem do rio. Ele tá molhado, com a garganta cortada... E me pede ajuda. Dona Maria arregalou os olhos, um calafrio percorrendo sua espinha. As palavras do jovem ecoaram em sua mente como um presságio sombrio. Ela não disse nada, apenas recuou lentamente, fazendo o sinal da cruz discretamente antes de se refugiar no interior de sua casa. Na delegacia, o delegado Emílio estava mergulhado em pilhas de papéis e relatórios, a luz fraca da luminária lançando sombras dançantes em seu rosto cansado. Apesar da prisão de Jarbas Coelho, uma sensação incômoda persistia, como se algo crucial ainda lhe escapasse por entre os dedos. Os assassinatos haviam cessado, mas um novo mistério pairava no ar: dois corpos desapareceram do Instituto Médico Legal sem qualquer explicação plausível — entre eles, o de Jezebel. — Como assim sumiu?! — gritou ele ao telefone, a voz carregada de frustração e raiva, para a diretora do IML. — É isso que estou tentando entender, delegado... O armário refrigerado foi arrombado durante a madrugada. Nenhum dos seguranças viu ou ouviu nada. Não há imagens das câmeras de segurança daquela ala. É como se alguém soubesse exatamente como entrar e sair sem ser visto, sem deixar rastros. Naquela mesma noite, um novo bilhete foi deixado anonimamente na porta da delegacia. Papel amarelado pelo tempo, a escrita à mão trêmula, com tinta de um vermelho escuro e ominoso: "Nem todo o m*l se tranca atrás das grades. Às vezes, ele se deita ao nosso lado e sorri." Emílio leu o bilhete em silêncio, o sangue gelando em suas veias. Um calafrio percorreu sua espinha, a certeza sombria de que aquilo não havia terminado. Jarbas estava preso, mas havia mais alguém envolvido, uma sombra espreitando nos bastidores. Alguém que conhecia os caminhos da cidade tão bem quanto ele. Talvez melhor. Alguém que se movia nas sombras com uma familiaridade perturbadora. Dias depois, um gato preto de olhos amarelos penetrantes começou a aparecer todas as noites, sentado estoicamente na escadaria da igreja do Espírito Santo. Os moradores mais supersticiosos sussurravam que ele miava como se estivesse chorando, um lamento longo, triste, arrastado que ecoava pelas ruas desertas. Alguns diziam que era o espírito inquieto de Jezebel, vagando em busca de justiça. Outros, que era um arauto, um aviso silencioso de que um novo m*l se aproximava, rastejando nas sombras da noite. E Timothy? Bem... ele continuava a ser a silhueta errante que desafiava o toque de recolher implícito da cidade. Caminhava sozinho pelas ruas desertas após o anoitecer, um espectro pálido sob a luz argêntea das noites de lua cheia, quando as sombras parecem ganhar volume e peso. A banda "Marimbondos de Fogo" nunca mais se reuniu; o hiato não foi anunciado, foi apenas uma rendição ao silêncio que engoliu sua música dissonante, como se o caos que eles tentavam traduzir em som tivesse finalmente se tornado real demais para ser tocado. Mas, no isolamento de seu quarto, Timothy não conhecia o repouso. Ele ainda ensaiava. Os vizinhos, em vigílias de insônia e terror, juravam ouvir sons que desafiavam a lógica da acústica. Não eram notas, mas frequências que faziam os vidros vibrar e o estômago revirar. Eram sussurros guturais que pareciam vir de gargantas que não eram humanas e arranhões inexplicáveis nas paredes, como se algo, vindo das profundezas da noite, tentasse desesperadamente entrar — ou sair — de dentro dele. Na calçada da Rua São Francisco, exatamente em frente ao portão enferrujado da antiga casa do Sr. George — um lugar que as crianças agora evitavam até sob o sol do meio-dia — o abismo deixou sua marca. Numa madrugada de breu absoluto, onde nem as estrelas ousaram aparecer, mãos invisíveis picharam uma frase que gelou o sangue dos primeiros passantes: “A morte tem olhos de criança e veste máscara de homem.” A tinta preta parecia ainda fresca e úmida, exalando um cheiro metálico de sangue e ozônio. O medo não havia partido; estava apenas adormecido, espreitando sob a fina e quebradiça camada de normalidade que a cidade tentava, com um desespero patético, reconstruir. O bairro Santo Antônio, com suas ladeiras que parecem levar ao esquecimento, sabia da verdade. Os moradores sentiam a presença fria e invisível pairando nas esquinas, uma promessa tácita de que o terror, como uma sombra persistente grudada aos calcanhares, jamais desapareceria por completo. O sino da igreja, pontual e implacável, continuava a soar às dezenove horas. Mas o som não era mais um convite à oração; era um aviso. O silêncio que se seguia a cada badalada era mais denso, mais carregado de uma angústia asfixiante. A noite de Aracaju não era mais apenas a ausência de luz, mas um repositório de segredos sombrios que pulsavam sob o asfalto. E o despertar... ah, o despertar era uma incerteza que cada cidadão carregava no peito, temendo que a próxima alvorada simplesmente decidisse não vir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR