Assim que passou da cozinha e foi para a área de fora, Tim entendeu o porquê de Góis ter mencionado a tal fossa. Era realmente uma fossa que foi desativada para refazerem o sistema de esgoto da casa, mas que Góis transformou numa espécie de porão, onde montou um escritório com uma biblioteca. Tim desceu alguns degraus e assim que chegou, o espaço lembrava muito bem uma daquelas bibliotecas antigas, pois os livros não eram novos. Góis se sentou numa cadeira por trás de uma pequena mesa e convidou Tim a se sentar em outra cadeira que ficava numa parte onde não tinha livros.
— Sim... Me fale sobre o que quer saber? — Góis pergunta para Tim — O mundo transcendental, metafísico e sobrenatural é bem vasto.
Ansioso para obter respostas, Tim começa seu relato:
— Bem, Góis... Um amigo meu da escola, escreveu um monte de histórias nesse caderno, antes de se matar.
Antes que Tim continuasse, Góis o interrompe:
— Você é amigo do Samuel?
— Sim, como sabe?
— Você não vê televisão? O suicídio dele foi notícia no canal dois, no canal quatro e no canal oito.
— Eu não sabia.
— Pelo menos eu já sei que você é mais inteligente do que a maioria, pois não perde tempo com TV aberta. Continue.
Tim pega o caderno de Sam e coloca em cima da mesa do escritório subterrâneo de Góis.
— Como eu estava dizendo, meu amigo Sam, antes de cometer suicídio, passou quase uma semana sem aparecer na escola, pois estava escrevendo um monte de histórias nesse caderno, que envolvem gente conhecida na sociedade sergipana e gente que eu e ele conhecemos.
Góis, com uma mistura de curiosidade e apreensão, estende a mão para o caderno de Sam, entregue por Tim com um ar de urgência. Com cuidado, desliza os dedos pela capa gasta antes de abri-lo, encontrando-se imerso em um mundo de palavras cuidadosamente escritas. Seus olhos percorrem as páginas, absorvendo cada detalhe enquanto sua mente luta para assimilar o que está diante dele. À medida que mergulha nas anotações, uma sensação de surpresa o invade, uma mistura de incredulidade e fascínio. O conteúdo transcende suas expectativas, revelando uma narrativa intricada e complexa sobre a vida de Sam. Góis se vê envolvido em uma teia de revelações e confissões, cada palavra adicionando uma nova camada à compreensão do homem que pensava conhecer.
Cada página é uma janela para a mente de Sam, uma exploração de seus pensamentos mais profundos e de suas experiências mais íntimas. Góes se sente como um espectador em um drama pessoal, testemunhando os altos e baixos da vida de seu colega de uma maneira que nunca imaginou ser possível. Enquanto folheia o caderno, Góis se depara com descrições minuciosas da vida empresarial de Odin de Mônaco, cada detalhe meticulosamente registrado por Sam. Os insights revelados nas páginas amareladas oferecem uma nova perspectiva sobre o mundo dos negócios, pintando um retrato vívido da complexidade e das intrigas que permeiam esse universo.
Além disso, Góis é cativado pelas passagens que descrevem o nascimento de Luz e Yan, inspirações de Sam. As palavras saltam das páginas, transportando-o para o momento mágico em que duas vidas vieram ao mundo, inundando-o com uma mistura de emoções enquanto compartilha a alegria e o maravilhamento de Sam diante da escrita. Apesar de inicialmente se sentir perplexo com a profundidade das reflexões de Tim sobre Sam, Góis não pode negar a precisão das observações ou a sinceridade por trás delas. Cada palavra é uma revelação, desafiando suas percepções e deixando-o ansioso para descobrir mais sobre o homem por trás das palavras. Mas o mesmo permanecia cético com relação ao caderno:
— Você tem certeza de que seu amigo escreveu isso aqui?
— Sim. Totalmente! — Tim afirmou — Eu mesmo me senti totalmente estranho assim que comecei a ler cada uma dessas palavras. Tem algo sobrenatural ou demoníaco nisso aí, que eu quero investigar, saber... Qualquer coisa que me ajude a entender o porquê de Sam ter escrito isso.
Góis continua a olhar cético para Tim, pois ele fala de um jeito que fica impossível de se acreditar em suas palavras. Mas ao mesmo tempo em que ele não acredita, o mesmo sente convicção em suas palavras. Ele entrega o caderno para o jovem, e começa então a tentar falar algo que o ajude a compreender tudo o que ele está passando naquele momento.
— Bom Timothy... De acordo com a física quântica e a Teoria do Caos, todas as nossas possibilidades estão acontecendo simultaneamente, porém quando focamos a nossa atenção para a realidade que aceitamos, apenas uma possibilidade é concebida como real, para que possamos experimentá-la como uma experiência de vida.
— Sim... E o que isso tem a ver com o que Sam escreveu?
— O problema, meu jovem é que, devido às nossas dependências emocionais, traumas ou até mesmo o estresse emocional, nós acabamos repetindo padrões indesejados ou vendo coisas onde não existem, achando que, apesar das infinitas possibilidades de escolhas que temos, não possuímos a capacidade de mergulhar no mundo “diferente”. E como consequência desse medo passamos a nos repetir indefinidamente.
— Ainda não estou entendendo nada Góes. — Tim olhava Góes filosofando e o jovem mantinha a cara de paisagem — Fale de um jeito mais simples.
— Bom, meu jovem. Você ainda está tentando assimilar a perda do seu amigo. Sugiro que encontre um espaço dentro de si mesmo e questione sobre a sua vida. Observe atentamente o que deseja mudar e faça um movimento de evolução. E se possível se inspire nesse caderno.
— Como assim?
— O que você quer da sua vida no momento?
— Bom... Eu queria ser independente. Queria ter a minha casa, as minhas regras, o meu mundo... Mundo esse onde eu não precisaria sorrir pra cada parente que aparecesse aqui em minha casa, onde eu não precisaria aceitar tudo que é imposto pelo sistema, esse monstro tão maldito quanto quem o criou. Malditas as pessoas que criaram o sistema!
Góis observava Tim, observava o caderno de Sam. Juntava as palavras do jovem com tudo o que ele falava sobre o caderno de seu amigo e questiona:
— É normal pra você, se sentir como se nada fizesse sentido em sua vida? Claro que não, porque todos nós temos um objetivo, não é mesmo?
Tim para um pouco pra pensar no que Góes tinha acabado de perguntar, reflete sobre e rebate:
— Não. Eu não tenho um objetivo de vida. Eu não sei o que poderia me fazer feliz, porque a felicidade se é passageira, então porque existe?
Góis é categórico:
— Ora... A felicidade existe para que as pessoas não sofram tanto, ou não demonstrem realmente que estão sofrendo. Sêneca dizia que se a pessoa não sabe para onde vai, em qualquer lugar que chegar, não será bom.
— Fala na minha língua, pô!
— Vou dizer devagar pra você entender — Disse Góis pegando o caderno de Sam — Não adianta se esconder, porque um dia você vai ter que sair e encarar a realidade de que Sam não está mais entre nós. Não importa o mais difícil que seja, você um dia terá que aprender que o mundo não é como você queria que ele fosse, que não existem vilões, mas existem pessoas que vão fazer de tudo pra fazer você se enfraquecer; que não existem príncipes, mas existem homens que são capazes de amar; que não existem princesas, mas existem mulheres que lutam para conseguir tudo que querem, você terá que aprender tantas coisas que a vida não lhe mostrou.
— Cara... Quanto mais você fala, menos eu entendo.
Góis entregou o caderno de Sam para Tim, e apenas sorriu:
— Eu pergunto agora, Tim: Aonde você quer chegar com essas dúvidas? O destino e o sucesso estão em suas mãos. Portanto, estude cada história que seu amigo escreveu, vá atrás de cada detalhe e seja dono de suas próprias escolhas!
Tim pegou cuidadosamente o caderno de Sam, sentindo a textura das páginas sob seus dedos enquanto admirava a capa desgastada pelo uso constante. Ele olhou uma última vez para Góis, o amigo de longa data de Sam, e para a mãe do amigo, cujo olhar preocupado parecia transmitir uma mensagem silenciosa de apoio. Sair daquele lugar deixou Tim com uma torrente de pensamentos tumultuados, sua mente uma confusão de perguntas sem resposta. No entanto, havia uma determinação silenciosa em seu coração, uma chama ardente de curiosidade que o impelia a desvendar os segredos contidos nas páginas daquele caderno.
Ao sair da casa de Góis, Tim encontrou o céu tingido de tons rubros pelo pôr do sol, uma paisagem que parecia ecoar os turbilhões de emoções dentro dele. Cada passo em direção a sua casa era como um passo mais profundo no labirinto de mistérios que agora o cercava. Ele podia sentir o peso do caderno em sua mochila, uma responsabilidade que ele aceitava com seriedade, ciente do que aquelas anotações poderiam desencadear.
Chegando em casa, Tim foi recebido pelo calor reconfortante do ambiente familiar. Seus pais, já em casa depois de um longo dia de trabalho, acenaram para ele com sorrisos afetuosos, alheios às turbulências interiores do filho. Sentaram-se à mesa para a refeição, o aroma reconfortante da comida caseira preenchendo o ar enquanto compartilhavam pequenas conversas sobre seus dias.
Mas, mesmo em meio à familiaridade reconfortante de sua casa, Tim não conseguia afastar sua mente do caderno de Sam. Cada garfada de comida era acompanhada por uma pontada de ansiedade, uma urgência crescente para mergulhar nas páginas daquele caderno e decifrar os enigmas ali contidos. Depois de jantar, ele m*l pôde esperar para se refugiar em seu quarto, onde a quietude da noite o envolveu como um abraço familiar.
Deitado em sua cama, Tim abriu o caderno com reverência, como se estivesse prestes a desvendar os segredos de um mundo desconhecido. A luz suave do abajur banhava as páginas amareladas, revelando as palavras cuidadosamente escritas por Sam. Ele mergulhou na leitura, absorvendo cada detalhe, cada pista que pudesse levar a novas descobertas. Enquanto virava as páginas, o tempo parecia desacelerar, e Tim sabia que estava prestes a embarcar em uma jornada que mudaria sua vida para sempre. E ele então começa a ler mais uma vez em voz alta: