Meu nome é Alexis Schimidt. Eu sou o CEO da mais importante empresa de jóias no Brasil, mas tem quase 20 anos que eu não me apresento assim. Esse nome, esse título, essa vida… ficaram para trás como uma pele que eu precisei abandonar para sobreviver. Hoje, quando alguém fala comigo dentro da quebrada, ninguém imagina que eu já estive do outro lado, sentado em salas com ar-condicionado gelado demais, discutindo cifras que dariam para mudar a vida de milhares de pessoas. Aqui, isso não importa. Aqui, eu sou outra coisa.
O mais comum é FD, o gerente da boca na Baixada. Um nome curto, direto, que carrega respeito e medo na medida certa. Um nome que não abre portas em prédio de luxo, mas que faz portão de ferro se abrir no meio da madrugada sem ninguém perguntar nada. Um nome que não vem com sobrenome, mas que vale mais do que muitos deles por aqui.
Porque?
Porque quando eu tinha 16 anos, vi meu irmão ser assassinado em minha frente pelo dono da boca, Deco, e seu irmão, com o fofo apelido de Baixinho. Eu ainda consigo lembrar do som, da sensação do ar ficando pesado, do jeito que o tempo pareceu parar por alguns segundos antes de tudo desabar. Não foi só a morte dele. Foi o fim de tudo que eu conhecia até então.
Mas não se enganem, os três irmãos pesadelo são exatamente como é o apelido do caçula deles, El Diablo. O nome não é exagero, não é invenção da quebrada pra dar moral. É descrição. Quem olha nos olhos dele entende na hora que tem alguma coisa ali que não é normal, não é humana como deveria ser. Um tipo de frieza que não se aprende, que nasce junto.
Os três juntos tocam o terror na comunidade, desde que El Diablo, um molecote ainda, se tornou sub do antigo dono. Ele não chegou chegando, não chegou impondo. Chegou quieto, observando, aprendendo, se fazendo útil. Ganhou a confiança dele com o tempo, sendo eficiente, sendo leal — ou pelo menos fingindo ser — até que, quando ninguém esperava, matou o próprio chefe e tomou a quebrada pra si. Não teve cerimônia, não teve disputa longa. Foi rápido, certeiro, definitivo.
Depois disso, trouxe os irmãos pra perto e os três passaram a comandar juntos. Deco, o mais velho, sempre foi o cérebro. Ele pensa antes, durante e depois. Tem ideias cabulosas, estratégias que parecem impossíveis até acontecerem. Baixinho é o braço, o que executa, o que resolve no contato direto. E El Diablo… El Diablo é o caos que mantém todo mundo com medo suficiente pra não desafiar.
E quando descobriram que Aleksander, meu irmão mais velho, era herdeiro da Tiphany brasileira, tentaram cobrar proteção dele. Foi aí que nossos mundos se chocaram de verdade.
Aleksander não era só herdeiro, ele era mais do que isso. Ele era o mentor intelectual do crescimento exponencial da empresa da família. Enquanto muita gente achava que ele só herdaria tudo pronto, ele estava lá dentro, pensando estratégia, expandindo, inovando. Ele transformou o que já era grande em algo gigantesco.
Então meus pais, como eram muito justos, deram a ele em vida a parte que achavam que lhe cabia, e meu irmão passou a ser dono de 50% da empresa. Foi um reconhecimento, um prêmio pelo que ele construiu. Mas também, sem que eles percebessem, virou um alvo.
Quando ele começou a se sentir ameaçado, sem contar para ninguém, transferiu tudo para o meu nome. Eu não sabia. Ninguém sabia. Ele fez isso em silêncio, como quem já estava se preparando para o pior, como quem sabia que talvez não tivesse outra chance de proteger o que era nosso.
Deco armou uma emboscada para ele, e o caçula dos irmãos pesadelo, El Diablo, entrou na frente do carro dele. Aquilo não foi improviso, não foi acaso. Foi planejado. Aleksander não parou, porque sabia que estava sob ameaça. Ele conhecia o tipo de gente com quem estava lidando. Parar seria assinar a própria sentença. Então ele acelerou, atropelou o demônio e fugiu.
Mas essas coisas não acontecem em comunidade como acontecem no resto do mundo. Aqui, tudo é resposta imediata. Em menos de meia hora, vieram buscar ele em nossa casa. Não teve negociação, não teve conversa. Vieram certos do que iam fazer.
E o mataram no corredor, com minha mãe me segurando para eu não sair e me matarem também. Eu me debatia, tentava soltar, queria ir até ele, queria fazer alguma coisa, qualquer coisa. Mas minha mãe me segurava com uma força que eu nunca imaginei que ela tivesse. Não era só força física, era desespero, era instinto. Ela sabia que, se eu saísse, morreria também.
Depois disso, podíamos ter voltado para o nordeste. Era o caminho mais lógico, mais seguro. Recomeçar longe dali, tentar esquecer, reconstruir o que desse. Mas não era o que eu queria.
Primeiro, eu ia vingar meu irmão. Aquilo não era negociável dentro de mim. Passasse o tempo que fosse necessário, eu ia matar aqueles três infelizes. Nem que levasse anos, nem que eu tivesse que me transformar em algo que eu nunca imaginei ser. Aquilo virou meu propósito.
E depois… tinha Samira.
Minha mãe dizia que era fogo de palha, paixonite de criança, coisa que o tempo resolve. Eu também achava que era, no começo. Fazia sentido. Eu era novo, ela era bonita, parecia coisa passageira.
Mas não passou.
Eu a conheci no colégio. Ela não era da favela. Nem eu. Samira morava do lado de cima da avenida, e eu morava na parte nobre do triângulo. A gente não vivia a mesma realidade, mas nossos caminhos se cruzavam.
Eu a achava linda. Não era uma beleza comum, daquelas que você esquece rápido. Era marcante. Uma branca falsa magra, com longos cabelos negros encaracolados que chamavam atenção de longe, e um traseiro de fazer inveja em qualquer lugar que ela passasse. Mas não era só o corpo. Era o jeito, a forma como ela se movia, como falava, como parecia sempre um pouco distante de tudo ao redor.
Ela nunca nem me notou. Trocamos duas ou três palavras, no máximo. Era sempre educada, nunca foi grossa, mas também nunca me enxergou de verdade. Eu era só mais um no cenário dela.
Cheguei a cogitar contar pra ela que eu era rico e importante, usar isso pra chamar atenção, pra ver se ela finalmente me enxergava. Era tentador. Muito. Mas antes de morrer, Aleks conversou comigo. Disse que a gente vivia com humildade justamente pra evitar atrair interesseiras, pra garantir que quem se aproximasse fosse por quem a gente era, não pelo que tinha.
Eu guardei aquilo.
E por isso nunca falei nada.
Ela começou a namorar um nerd, irmão do melhor amigo dela, e aí que nunca mais eu tive chances. Foi simples assim. A vida seguiu pra ela, enquanto eu fiquei olhando de fora, sem espaço, sem a******a.
Depois Aleksander morreu, ela se casou com o nerd e saiu da quebrada. Foi viver a vida dela longe dali, construir o que acreditava ser certo. E eu… eu estava com sangue nos olhos, me preparando pra fazer o mesmo que El Diablo fez anos antes: ganhar a confiança do Deco para matá-lo.
E vi minha morena com r**o de sereia enfrentando todas as dificuldades da vida. Mesmo de longe, eu via. Sabia quando ela voltava, quando aparecia, quando alguma coisa não estava bem. Não era mais aquela garota intocável do colégio. A vida tinha pesado nela. Mas, ainda assim, tinha alguma coisa ali que continuava intacta.
Até o dia que o mar estava pra peixe, e a sereia caiu na minha cama…