A noite das máscaras

848 Palavras
O clube estava diferente naquela noite. Mais escuro. Mais elegante. Mais perigoso. Luzes vermelhas e douradas cortavam o ambiente, refletindo nos copos de cristal e nos olhos atentos de homens poderosos que ocupavam cada canto do salão. Era uma noite temática. Uma noite de máscaras. E naquele lugar… máscaras não serviam apenas para esconder rostos. Serviam para esconder intenções. Nos fundos, Sofia ajustava a sua. Uma máscara preta de renda delicada, cobrindo parte do rosto, destacando ainda mais seus olhos marcantes. Os cabelos estavam soltos, caindo em ondas pelos ombros. O uniforme daquela noite era diferente. Mais chamativo. Mais provocante. Uma sainha preta curta, uma camisa branca social ajustada ao corpo… e um pequeno avental de renda preta amarrado na cintura. Ela se olhou no espelho por um segundo. Quase não se reconhecia. — Você tá linda disse uma colega, sorrindo. — Hoje os clientes vão enlouquecer. Sofia soltou um meio sorriso. — Eu só quero terminar o turno e ir pra casa. — Ah, para… aproveita um pouco. Sofia não respondeu. Ela sabia que aquele não era um lugar para “aproveitar”. Era um lugar para sobreviver. O salão já estava cheio quando ela entrou. Homens de terno. Vozes baixas. Risadas contidas. E olhares. Sempre os olhares. Alguns curiosos. Outros perigosos. Sofia caminhava com a bandeja firme nas mãos, mantendo a postura profissional, ignorando qualquer tentativa de aproximação mais ousada. Até que… — Você. A voz foi baixa. Mas firme. Ela virou o rosto lentamente. Um dos seguranças a encarava. — Sala VIP. Agora. O coração dela acelerou. — Eu… mas — Agora ,repetiu ele, sem dar espaço para questionamento. Sofia engoliu seco. Sala VIP significava clientes importantes. E clientes importantes… significavam problemas. O corredor até a sala parecia mais longo do que o normal. Mais silencioso. Mais pesado. Ela parou em frente à porta escura, respirou fundo… e bateu levemente antes de entrar. O que encontrou lá dentro… não era o que esperava. O homem estava sentado no sofá. Inclinado para o lado. A gravata frouxa. O paletó aberto. Respiração pesada. Olhos semicerrados. Algo estava errado. Muito errado. Sofia fechou a porta atrás de si, hesitante. — Senhor…? Nenhuma resposta clara. Ela se aproximou devagar. — O senhor está bem? Quando chegou mais perto, percebeu. Suor na testa. Olhar perdido. Movimentos lentos… descontrolados. Droga. Alguém tinha feito algo com ele. — Ei… — ela falou mais firme, se abaixando na frente dele. — Você precisa de ajuda. Os olhos dele focaram nela pela primeira vez. Escuros. Intensos. Mesmo naquele estado… perigosos. — Você… — a voz dele saiu rouca, quase irreconhecível. Sofia hesitou por um segundo. Ela deveria chamar alguém. Deveria sair dali. Mas algo a fez ficar. Talvez… humanidade. Talvez… instinto. — Calma — disse, segurando levemente o rosto dele para que ele a encarasse. — Você não está bem. O toque… foi um erro. Ou talvez… o início de tudo. O olhar dele mudou. Ficou mais focado nela. Mais preso. Como se, no meio do caos em que sua mente estava, ela fosse a única coisa clara. — Não vai embora… — ele murmurou. Sofia sentiu o coração bater mais forte. — Eu só vou te ajudar, tá? Mas quando tentou se afastar… ele segurou seu pulso. Forte. Mesmo debilitado. — Fica. Aquele pedido… não parecia apenas efeito da droga. Parecia… necessidade. O tempo dentro daquela sala… se perdeu. Confundiu. Misturou sensações. O mundo lá fora deixou de existir. E Sofia, que sempre foi tão racional… se deixou levar por um momento que não sabia explicar. Talvez pela intensidade dele. Talvez pela forma como ele a olhava… como se já a conhecesse. Ou talvez… porque, pela primeira vez, alguém a fazia sentir algo além de sobrevivência. Horas depois… o silêncio dominava o quarto. A respiração dele estava mais calma. O efeito da droga parecia ter diminuído. Mas Sofia… já não estava mais lá. Ela se vestia às pressas, o coração acelerado. O que tinha acontecido… não deveria ter acontecido. Ela não sabia quem ele era. Mas sabia o tipo de homem que frequentava aquele lugar. Perigo. Poder. Problema. E ela não podia se envolver com isso. Não podia. Antes de sair, seus olhos passaram pelo corpo dele uma última vez. Ele dormia profundamente. Vulnerável. Diferente do homem intenso de antes. Sofia hesitou. Por um segundo. Quase voltou. Quase ficou. Mas não. Ela virou… e foi embora. Na pressa… não percebeu. O sutiã esquecido no chão. Um pequeno detalhe. Que carregaria uma história inteira. Na manhã seguinte… o homem acordou. A cabeça latejando. O corpo pesado. E uma sensação estranha… como se algo importante tivesse acontecido. Ele se sentou lentamente, passando a mão pelo rosto. Memórias fragmentadas. Toque. Olhos. Uma mulher. Ele olhou ao redor. O quarto vazio. Mas não completamente. No chão… um pedaço de renda preta. E sob a cama… um fio longo de cabelo. Ele pegou o fio entre os dedos. Observando. Pensando. Sentindo algo crescer dentro do peito. — Quem… foi você…? Do lado de fora da sala… o mundo seguia normalmente. Mas, para ele… nada mais seria igual.
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