📖 Capítulo 17 – Feridas Antigas

1051 Palavras
📖 CapĂ­tulo 17 – Feridas Antigas Narrado por Kael A vida no morro tem seus silĂȘncios. SilĂȘncios que nĂŁo vĂȘm da paz, mas do peso do que a gente carrega no peito. E Ă s vezes, Ă© justamente nesses silĂȘncios que a verdade aparece — sem pedir licença, sem medir impacto. JĂĄ era noite quando voltei do giro com os caras. O vento frio cortava a pele, e o morro parecia mais quieto do que o normal, como se tivesse prendido a respiração junto comigo. O asfalto lĂĄ embaixo ainda gritava, mas aqui em cima sĂł se ouvia o som dos grilos, o latido de um cachorro perdido e, de vez em quando, o estalo distante de um tiro, lembrando que a gente nunca tĂĄ totalmente a salvo. Quando cheguei na casa da Olivia, parei no portĂŁo, tentando respirar fundo antes de entrar. Mas foi aĂ­ que ouvi a voz dela. NĂŁo era alta, mas firme. Vinha do quarto, carregada de emoção. Ela falava sozinha. Ou pelo menos parecia. SĂł que logo percebi que nĂŁo era com ela mesma. Era com a mĂŁe. Encostei na parede do corredor, parado, sem coragem de interromper. As palavras dela vinham como punhaladas e promessas ao mesmo tempo. — ...e eu queria que vocĂȘ visse, mĂŁe. Como Ă© aqui. Como eu tĂŽ aprendendo a sorrir de novo. E tem um homem... Ă©, tem um. NĂŁo Ă© como o pai. Ele me olha como se eu fosse o que falta nele, mas tambĂ©m me respeita. Meu peito apertou. — E eu tĂŽ com medo de amar, mas com mais medo ainda de nĂŁo viver isso. E sabe, mĂŁe? Eu ainda sou virgem. Ele foi o meu primeiro beijo. E, acredite, foi o meu primeiro amor. Minhas mĂŁos fecharam em punho. NĂŁo de raiva. De impacto. Como se cada palavra dela tivesse atravessado minha pele e grudado na alma. Aquela mulher tinha entrado na minha vida com a delicadeza de uma brisa, mas me bagunçado como um furacĂŁo. E agora, eu carregava o peso — e o privilĂ©gio — de ser o primeiro de muitas coisas dela. Talvez... o Ășltimo tambĂ©m. Respirei fundo, tentando segurar a enxurrada que subia dentro de mim. Caminhei atĂ© a cozinha, onde a luz fraca iluminava uma foto antiga deixada em cima da geladeira. Era a mĂŁe dela, Dona Helena, o olhar doce congelado em papel amarelado pelo tempo. Peguei a moldura nas mĂŁos, e por um instante, senti como se ela me observasse de volta. — Dona Helena — comecei, a voz rouca. — Eu nĂŁo sei se a senhora acredita nessas coisas, mas eu tĂŽ falando do fundo do peito: juro pela minha vida que vou cuidar da sua filha. Com tudo que eu sou, com tudo que me resta. Devolvi a foto ao lugar e fiquei ali, quieto, atĂ© que o silĂȘncio voltou a engolir a casa. Narrado por Olivia O dia seguinte começou com correria. Meu primeiro dia no salĂŁo de Dona Raimunda. Acordei cedo, nervosa e animada ao mesmo tempo, como se fosse dia de prova. O salĂŁo cheirava a laquĂȘ, progressiva e conversa fiada. As mulheres falavam de tudo: da novela, do preço do feijĂŁo, do vizinho que arrumou amante. E eu ali, tentando me encontrar no meio daquela energia toda. A primeira cliente que caiu na minha mĂŁo foi uma mulher de uns cinquenta anos, cabelos grossos e olhar vivido. Enquanto eu lavava a cabeça dela, ela me observava pelo espelho. — CĂȘ tem mĂŁo de quem passou por muita coisa. Mas ainda tem doçura. Fiquei sem reação, a ĂĄgua escorrendo entre os dedos. — Obrigada... eu acho. Ela sorriu. NĂŁo era um sorriso qualquer. Tinha peso, tinha reconhecimento. — A gente sente quando Ă© verdade. VocĂȘ vai se dar bem aqui, menina. As palavras dela ficaram na minha mente pelo resto do dia. Entre uma escova e outra, JĂșlia apareceu do meu lado, toda sorridente. — TĂĄ brilhando, Livi. Nunca vi a Raimunda elogiar alguĂ©m no primeiro dia assim. — TĂŽ me sentindo viva, JĂș. Pela primeira vez, tĂŽ fazendo algo que Ă© sĂł meu. Ela me abraçou de lado, orgulhosa, e continuamos a tarde entre risadas e cheiros de creme. No fim do expediente, jĂĄ cansada mas feliz, olhei o celular. Uma mensagem do Kael me esperava: "Se arruma. 19h. Lugar especial. Nada de perguntar." Meu coração acelerou. Me arrumei como pude — vestido simples, cabelo solto, um batom discreto — e quando ele chegou, jĂĄ estava pronta. Ele nĂŁo disse pra onde Ă­amos. Apenas me guiou pelas vielas, a mĂŁo firme na minha, atĂ© chegarmos ao alto da laje mais alta do morro. O Rio inteiro se abria diante de nĂłs. Luzes pulsando, barulho distante de ĂŽnibus, sirenes e vida. No chĂŁo, ele tinha improvisado: duas cadeiras, uma toalha estendida, duas marmitas e um vinho barato, mas gelado. — O que Ă© isso? — perguntei, rindo, surpresa. — Nosso jantar. Do jeito que dĂĄ, mas do jeito que conta. Sentamos. A comida era simples — arroz, frango, farofa — mas parecia banquete. A cada garfada, a cada gole de vinho, o peso do dia ia embora. Falamos de tudo e de nada: infĂąncia, sonhos, atĂ© de besteiras que nĂŁo importavam, mas nos faziam rir. No meio do silĂȘncio que caiu depois, ele respirou fundo e disse: — Eu ouvi ontem... vocĂȘ falando com sua mĂŁe. Meu corpo congelou. — Eu nĂŁo queria escutar, foi sem querer. Mas eu escutei. Meu coração disparou. — E...? Ele me encarou com uma seriedade que nunca tinha visto antes. — E vocĂȘ me deu o maior presente sem nem saber. Me deu verdade. Me deu sua histĂłria. E eu nĂŁo vou brincar com isso, Olivia. Nunca. As lĂĄgrimas vieram sem pedir. NinguĂ©m nunca tinha falado comigo daquele jeito, com tanta clareza, com tanto respeito. Me aproximei e encostei a testa na dele, deixando o silĂȘncio falar por mim. A gente nĂŁo se beijou naquela hora. NĂŁo precisava. O abraço que demos foi mais do que toque. Foi acordo. Foi pacto. Ali, no alto do morro, entre luzes de barracos acesos e o barulho distante de tiros, nasceu algo que nĂŁo se explica. Um tipo de amor que nĂŁo pede licença, que nĂŁo conhece manual. Um amor que a gente sente, que a gente vive. AtĂ© o fim.
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