A marca da sombra

935 Palavras
(POV Aurora) O despertador nem tinha tocado quando abri os olhos. A primeira coisa que senti foi um peso no peito, como se a madrugada estivesse deitada sobre mim. Era como acordar depois de um sonho r**m, mas sabendo que o pior dele não era invenção — era memória. Eu puxei o ar devagar, tentando ignorar a sensação incômoda que ainda se espalhava pelo quarto. Não funcionou. Levantei sem acender a luz. Meus pés encontraram o chão frio, e cada passo parecia mais consciente do que deveria ser. Fui até a janela como quem segue uma obrigação silenciosa. Parte de mim queria acreditar que estava exagerando, que tudo não passava de paranoia. Puxei a cortina devagar. A rua estava vazia. O carro escuro tinha ido embora. Mas a falta dele não trouxe paz. Trouxe a certeza de que o problema não tinha sido só o carro. Tinha sido ele. O olhar dele na escuridão. O modo como o silêncio mudou quando percebi que não era silêncio — era vigilância. Fechei a cortina rápido, como se esconder a rua apagasse o sentimento dentro de mim. Não apagou. No banheiro, enquanto escovava os dentes, eu me peguei encarando meu próprio reflexo. Os olhos fundos, as olheiras marcadas. Parecia que eu tinha envelhecido uns cinco anos numa única noite. “Isso é só cansaço”, tentei dizer mentalmente. Mas meu corpo sabia a verdade. Eu estava exausta, sim. Mas não era físico. Era ele. Era a sensação que ele deixava mesmo ausente. Desci para a cozinha. O cheiro de café fresco me envolveu e, pela primeira vez desde que acordei, senti algo confortável. Minha mãe já estava ali, mexendo nas panelas. — Você dormiu? — ela perguntou, sem rodeios. — Tô bem. — menti rápido demais. Ela me olhou de lado, aquele olhar de mãe que vê tudo e finge ver nada ao mesmo tempo. Mas não tocou no assunto. Apenas empurrou uma xícara de café na minha direção. — Come alguma coisa antes de sair. Assenti, mas só mexi o café com a colher, sem realmente beber. Meu estômago estava embrulhado. O caminho até o hospital não tinha nada de especial. Gente indo trabalhar, crianças indo pra escola, o barulho familiar do bairro acordando. Mas eu caminhava como se estivesse pisando em terreno instável. Cada carro que passava devagar me fazia olhar duas vezes. Cada moto acelerando ao longe me deixava em alerta. Cada sombra… parecia mais escura do que antes. Eu odiava sentir aquilo. Odiava a fragilidade que vinha com o medo. E odiava ainda mais o fato de que um estranho — um homem que vive num mundo totalmente diferente do meu — tinha poder de mexer tanto comigo. Cheguei ao hospital com os ombros tensos e a mente longe dali. Julia me encontrou no corredor com aquele sorriso típico dela, sempre pronta pra fazer qualquer situação virar um comentário irônico. — Credo, Aurora, você tá péssima. — disse, teatral. — Plantão te deu uma surra? — Só tô cansada. — respondi, colocando meus pertences no armário. — Ou pensando no dono do morro… — ela murmurou, divertida. Eu fechei o armário com mais força do que deveria. — Julia, por favor, não começa. Ela ergueu as mãos, rendida. — Tá bom, tá bom. Mas ó… — se aproximou um pouco — se alguém como ele te olha daquele jeito, não é qualquer coisa. E não é bom. Eu não precisava que ela dissesse. Eu sabia. O turno passou arrastado. Minha pele parecia sensível demais. Meus ouvidos atentos demais. Meu corpo inteiro reagia a qualquer som mais alto — como se esperasse alguém entrar de repente, como no plantão anterior. Em alguns momentos, me peguei olhando para o relógio, como se contar as horas me desse algum tipo de controle. Não dava. E essa sensação de perder o controle sobre minha própria rotina me irritava profundamente. Quando meu turno terminou, respirei fundo e saí do hospital. O sol ainda iluminava a rua, deixando tudo mais claro do que eu me sentia por dentro. Apertei a alça da bolsa e comecei a caminhar em direção ao ponto de ônibus. O movimento estava normal. Carros passando, gente conversando, vendedores ambulantes chamando clientes. Por alguns segundos, até achei que poderia respirar aliviada. Mas então… eu senti. Não ouvi. Não vi. Senti. Olhei discretamente para o outro lado da rua. E lá estava ele. Não Dante. Mas um dos homens dele. Encostado num poste, braços cruzados, roupas escuras, expressão impassível. Observando. Observando a mim. Meu coração disparou num misto de medo e indignação. Ele não estava disfarçando. Não estava escondido. Não estava tentando parecer outra pessoa. Ele estava ali pra me mandar um recado. E eu entendi. Ele queria que eu soubesse que não estava sozinha. Queria que eu sentisse a presença dele mesmo na ausência. Queria que eu soubesse que, desde ontem, meu mundo tinha sido puxado pra perto demais do dele. Segurei firme a bolsa contra o corpo e continuei andando, sem alterar meu passo. Mas por dentro, eu queimava. Que direito ele tinha? Eu não fiz nada. Eu só estava trabalhando. Eu só tentei salvar um paciente. Por que isso tinha que virar uma sentença? Respirei fundo, tentando manter a compostura. Ele não atravessou a rua. Não se aproximou. Não falou comigo. Mas o olhar dele me seguiu até eu virar a esquina. E, naquele momento, percebi algo c***l e verdadeiro: Não importava o quanto eu quisesse… eu não tinha mais como voltar à vida que eu tinha antes. A sombra dele tinha me alcançado. E a minha respiração nunca mais seria a mesma.
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