Aquele que vigia

1501 Palavras
(POV Aurora) O sol já estava alto quando acordei novamente. O corpo parecia pesar mais do que o normal, como se cada músculo carregasse a madrugada inteira. O primeiro plantão tinha deixado marcas em mim. Não apenas o cansaço físico, mas também o peso de tudo o que vi. Eu sempre soube que trabalhar no hospital do complexo não seria fácil. Mas nunca imaginei que logo na primeira noite eu estaria diante de tiros, sangue e homens armados. Nunca imaginei que conheceria alguém como Dante. Sombra. Julia falava dele como se fosse impossível não saber quem era. Mas eu não sabia. Talvez porque minha mãe sempre me afastou desse tipo de conversa, talvez porque eu nunca quis olhar para esse lado da cidade. Agora, eu não tinha escolha. Desci até a cozinha. O cheiro de alho refogado me trouxe um certo conforto. Minha mãe estava mexendo nas panelas, como sempre fazia quando queria se distrair. — Dormiu bem? — perguntou, sem tirar os olhos da comida. — O suficiente. — respondi, servindo um copo d’água. Ela não insistiu. Mas eu sabia que queria perguntar mais. Sabia que estava preocupada. No hospital, o dia seguinte parecia mais calmo. Pacientes comuns, atendimentos rápidos, nada fora do normal. Mas, ainda assim, eu não conseguia evitar que minha mente voltasse para a cena da emergência. A porta escancarada, os homens armados, o silêncio que tomou conta do espaço quando ele entrou. E o olhar. Não era medo o que eu senti. Era algo diferente. Como se ele tivesse me examinado por inteiro, como se quisesse entender quem eu era. — Tá distraída. — disse Julia, me cutucando. — Só cansada. — respondi, tentando disfarçar. — Sei... — ela riu, desconfiada. — Aposto que ainda tá pensando no Sombra. Revirei os olhos. — Eu não tô pensando nele. — menti, e Julia arqueou a sobrancelha. — Claro que não. — disse, sarcástica. — Mas olha, amiga, cuidado. Esse homem não é qualquer um. Eu sabia disso. Mesmo sem conhecer sua história, dava pra sentir. Ele não era apenas presença. Era poder. O dia passou rápido, mas a sensação de estar sendo observada não me deixava. Cada vez que alguém entrava no hospital, eu olhava duas vezes. Cada vez que uma porta se abria, meu coração acelerava. No fim do expediente, caminhei até minha casa. O bairro parecia calmo, mas eu sabia que calma era apenas aparência. O som distante de motos ainda ecoava, e algumas luzes piscavam no alto do morro. Foi então que vi. Um carro preto parado na esquina da minha rua. Os vidros escuros não deixavam ver quem estava dentro. Mas eu senti. Não era coincidência. Fingi não perceber, continuei andando, mas meu coração acelerou. Cada passo parecia mais pesado. Cheguei em frente à minha casa, hesitei por alguns segundos e olhei discretamente para trás. O carro continuava lá, imóvel, como se estivesse esperando. Entrei, larguei a bolsa sobre a mesa e respirei fundo, tentando afastar aquela sensação estranha. Mas não consegui. O pensamento martelava: quem estaria ali? Minha mãe estava na sala, vendo televisão. O som baixo, quase como pano de fundo. — Você tá pálida. — disse, olhando para mim. — Aconteceu alguma coisa? — Não... só cansaço. — respondi rápido, sem querer preocupar. Mas a imagem do carro não saía da minha cabeça. Fui até o quarto, troquei de roupa e tentei me distrair. Mas não adiantava. A sensação de estar sendo vigiada era mais forte. Pouco depois, decidi sair novamente. Minha mãe tinha comentado que faltava pão e algumas coisas para o café da manhã, então peguei a carteira e fui até o mercado da esquina. Ao abrir a porta, o carro ainda estava lá. O mesmo silêncio, a mesma presença. Caminhei rápido, fingindo naturalidade, mas cada passo parecia ecoar mais alto do que deveria. O mercado era pequeno, iluminado por lâmpadas fluorescentes que piscavam de vez em quando. Peguei o pão, algumas frutas e uma garrafa de leite. O atendente me cumprimentou com um sorriso cansado, como quem já viu de tudo. — Plantão pesado ontem, né? — comentou. — É... — respondi, sem querer prolongar a conversa. Paguei rápido e saí. O carro ainda estava lá. Dessa vez, senti um arrepio percorrer minha espinha. Não era apenas vigilância. Era como se alguém quisesse deixar claro que eu estava sendo observada. Segurei firme a sacola, caminhei até minha casa e entrei sem olhar para trás. Fechei a porta, encostei as costas nela e respirei fundo. Eu não sabia quem estava naquele carro. Mas sabia que, de alguma forma, aquilo tinha a ver com o que aconteceu no hospital. E, no fundo, eu sabia: aquele encontro não tinha terminado. Deitei na cama, mas não consegui dormir. O som dos carros passando na rua parecia mais alto do que nunca. Cada moto que acelerava me fazia levantar a cabeça. Cada sombra que se movia me fazia prender a respiração. O carro preto não era apenas um carro. Era um aviso. Tentei fechar os olhos, mas a escuridão parecia tornar tudo pior. É estranho como o silêncio, quando você está com medo, nunca é realmente silêncio. Ele amplifica tudo — o som distante de um cachorro latindo, o estalo do portão do vizinho, até o vento batendo na janela. Cada pequeno ruído me fazia abrir os olhos novamente. Virei para o lado, apertei o travesseiro contra o peito e respirei fundo. Eu precisava manter a calma. Queria acreditar que era apenas coincidência. Apenas paranoia depois de uma noite difícil. Mas não era. Era claro como o próprio som do meu coração acelerado: alguém estava me vigiando. O carro preto não era um acaso, não naquela rua onde nada acontece por acaso. Ele estava ali por um motivo — e esse motivo tinha o rosto de um homem que eu m*l conhecia, mas cujo olhar parecia capaz de atravessar minha pele. Dante Montenegro. O Sombra. Eu apertei os olhos, tentando afastar o pensamento. Tentando racionalizar. Ele não tinha motivo para me seguir. Eu era apenas uma enfermeira. Uma desconhecida. A pessoa que segurou a gaze enquanto ele e os homens dele transformavam o hospital num campo minado de tensão. Mas, no fundo, uma parte de mim — a parte que eu não queria admitir — sabia que havia algo diferente na forma como ele me olhou. E agora, provavelmente havia alguém olhando por ele. Virei na cama, inquieta. O relógio marcava 02:14 da manhã. Ainda tão longe do amanhecer… Eu levantei, incapaz de continuar deitada. Caminhei até a janela com passos lentos, quase sem respirar, e afastando a cortina apenas o suficiente para enxergar a rua. O poste iluminava só metade do asfalto. A outra metade estava mergulhada em sombra. E ali, naquela sombra, um farol apagado. O contorno de um carro imóvel. O mesmo carro. Meu corpo inteiro gelou. A mão tremeu ao soltar a cortina. Por instinto, dei um passo para trás. Eu deveria chamar a polícia? Não. Aqui, isso não funcionava assim. Minha mãe sempre dizia: "No morro, quem manda não veste farda." E agora, mais do que nunca, eu entendia exatamente o que ela queria dizer. Respirei fundo, tentando pensar com clareza. Talvez se eu ignorasse, se fingisse que não percebi, eventualmente iriam embora. Talvez fosse só uma forma de… o quê? Me intimidar? Testar minha reação? Ou pior: uma forma de dizer que agora eu estava no radar deles. Isso me dava medo — um medo real, profundo, instintivo. Mas também me dava raiva. Eu não escolhi aquilo. Não pedi para estar no meio de guerra de ninguém. Eu trabalho para salvar vidas, não para fazer parte do jogo deles. A raiva subiu quente pela minha garganta. Voltei para a cama, mas dessa vez sentei na beirada, firme, a respiração mais pesada. Eu nunca fui de abaixar a cabeça. Nem quando tudo parecia desmoronar. Minha mãe sempre dizia que eu tinha uma coragem meio inconsequente. Talvez ela estivesse certa. Talvez, por isso, eu tivesse encarado Dante daquele jeito — sem medo. Mas agora, o preço dessa coragem parecia maior do que eu imaginava. Fechei os olhos por um momento e massageei as têmporas. Tudo o que eu queria era dormir. Só isso. Mas o pensamento voltou, insistente, quase sussurrado dentro da minha mente: Se aquele carro está ali por causa dele… então Dante sabe onde eu moro. O ar pareceu faltar por um instante. E não era essa a pior parte. A pior parte é que, mesmo assustada, eu não conseguia decidir se aquilo me dava mais medo… ou mais curiosidade. E foi nesse conflito — perigoso, confuso e completamente novo — que percebi que aquela noite não terminaria tão cedo. Porque algo dentro de mim sabia: Aquela presença escura na esquina não era apenas vigilância. Era o prelúdio de algo maior. Algo que estava vindo na minha direção, quer eu quisesse ou não. E eu não tinha certeza se estava pronta. Mas algo me dizia que ele já estava muito mais perto do que eu imaginava.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR