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2687 Palavras
CHRISTOPHER Uckermann pov's Precisei ficar no lugar do meu pai na segunda. Ele estava viajando a negócios e voltaria no dia seguinte. Ter a obrigação de trabalhar o dia inteiro foi uma excelente desculpa para não atender ninguém. O plano era ignorar a Dulce por enquanto, mas fiquei surpreso ao não receber nenhuma mensagem ou ligação da parte dela. Talvez ela estivesse esperando que eu o fizesse, mas ela era a mais interessada em me ter por perto, já que era ela quem precisava de um favor pessoal meu.  Depois de chegar em casa, peguei meu celular para pedir comida quando uma notificação chamou a minha atenção. "dulcemaria te marcou em uma publicação". Que diabos ela estava fazendo? Tornando as coisas públicas? Só podia ser brincadeira!  Cliquei na notificação que abriu direto na foto, ou melhor, nas fotos. Eram as fotos que tirei dela no evento, com a última sendo a que tiramos quando ela pulou em minhas costas depois de ficar animada demais pelo álcool. Esfreguei a minha testa nervoso e respirei fundo antes de rolar para baixo e lamentar por alguma legenda melodramática onde com certeza ela estaria apresentando ao mundo o seu namorado. Eu sabia que tínhamos que ser convincentes para a família dela, mas isso não precisava ir para as redes sociais. Dulce só podia estar louca!  "Uma vez alguém me perguntou quais eram os maiores arrependimentos da minha vida. Um deles com toda certeza é não ter me dado a chance de experimentar coisas novas fora da minha zona de conforto. Mas nunca é tarde para tentar, certo? Um show de rock em um evento de motoqueiros é uma coisa nova, sorrir para fotos é uma coisa nova e um @christophervuckermann divertido é a coisa mais estranhamente nova dentre as três.  Ps: o couro realmente me cai bem :)"  Ao invés de ficar puto, no fim do texto eu estava sorrindo. Dulce não criou nenhuma brecha para que as pessoas pensem que estamos em um relacionamento, mas também não deixou claro que tipo de relação nós tínhamos. Foi um texto bonito e inteligente. E independente dos interesses dela em postar aquilo, eu me senti bem por ela me incluir entre as coisas novas e boas em sua vida. Ela também era uma coisa nova e boa para mim, mas ela ainda não precisava saber disso. Comentei com um emoji de coração na publicação e depois voltei para a tarefa de pedir o meu jantar.  Enquanto esperava, fiquei largado no sofá atualizando minhas séries. A pior coisa das segundas feiras era que a maioria dos amigos estava cansado demais para fazer alguma coisa. Confesso que eu também estava, mas passar uma noite sozinho não era muito comum para mim. A única pessoa que me faria companhia sem pensar seria a Dulce, mas eu ainda não queria ceder a ela. Alguma coisa estava me bloqueando, mas eu sabia que seria passageiro.  O interfone tocou e eu levantei para liberar a entrada do motoboy. Talvez eu aumentasse a gorjeta pela rapidez em que o pedido foi enviado.  — Sim? — falei ao atender.  — Boa noite, senhor Uckermann. Dulce está aqui para vê-lo.  Dulce? Como ela sabia onde eu morava?  — Pode deixar subir. — falei antes de colocar o interfone no gancho novamente.  Ela não me liga, não me manda uma mensagem, depois faz uma publicação comigo e de algum jeito, descobre onde eu moro e considera plausível fazer uma visita sem aviso prévio. Se existisse um medidor de limites, o de Dulce estaria quase no máximo. Poucos minutos depois, a campainha tocou. Fui até lá, segurei a maçaneta por alguns instantes, depois soltei um longo suspiro e abri a porta.  — Oi. — ela disse.  — Oi. — respondi.  — Eu sei o que está pensando. O que diabos eu estou fazendo aqui? Então, a gente ainda precisa seguir com o plano de nos conhecermos melhor. Sexta já está chegando.  — Você podia ter ligado e eu iria até a sua casa.  — Desculpe, eu queria muito sair de casa hoje, mas não queria ir a um lugar público. Eu pedi o seu endereço para a Anahi, espero que esteja tudo bem com isso.  — Não, não está tudo bem. Não pode vir até a minha casa sem avisar.  — Ok, da próxima vez eu aviso. — deu de ombros.  — Próxima vez? — eu ri. — Nenhuma mulher vem até a minha casa duas vezes.  — A Anahi veio. — foi irônica.  — Eu não transo com a Anahi!  — Ah, então eu e você ainda estamos transando? — usou um tom de deboche.  — Por que não estaríamos?  — Porque, senhor babaca, você agiu muito estranho depois que eu te levei à Sunflower. Achei que tinha se assustado com a possibilidade de eu estar passando dos limites e que alguma coisa nessa sua cabeça complicada decidiu que era melhor chutar a minha b***a. — foi franca.  — Eu não... — ela não deixou que eu concluísse e continuou a falar.  — Vou deixar uma coisa bem clara pra você, Christopher Uckermann. — ficou séria. — Você pode simpatizar com uma pessoa do sexo oposto sem estar apaixonado por ela. Eu fui legal com você porque você foi legal comigo. Eu te disse desde o início que entendia e concordava com o nosso acordo e as regras dele. Depois que o teatrinho de namorado e namorada acabar, as regras vão ser priorizadas acima de qualquer coisa.  — E você deduziu tudo isso hoje?  — Por que acha que eu não te liguei? — ela passou por mim e foi entrando, esbarrando em mim com o ombro. — Agora que a sua crise existencial e o seu medo de comprometimento já foi acalmado, nós podemos seguir com o nosso plano.  Nada do que ela disse estava certo. Eu não estava temendo que ela estivesse se apaixonando por mim, na verdade isso nem passou pela minha cabeça. Mas o contrário... Ah, o contrário sim me deixava em pânico. Ao invés de corrigi-la, eu deixei que ela acreditasse no que deduziu, afinal, parecer vulnerável na frente de Dulce não era um objetivo meu nem de longe.  — Vou deixar que você escolha o tópico da conversa. — ela disse ao sentar-se no sofá.  — Você pede licença antes de entrar na casa das pessoas? — perguntei fechando a porta. — Tão inteligente e tão m*l educada. — alfinetei.  — Para um brutamontes solteiro até que você mantém o lugar arrumado e limpo. — comentou olhando em volta, ignorando totalmente a minha tentativa de ofendê-la. — Como você achou que era o meu apartamento? — franzi a testa.  — Sei lá. Empoeirado e com roupas para todos os lados? E talvez algumas camisinhas usadas na pia. — riu.  — Eu não trago muitas mulheres aqui.  — Só as sem teto? — brincou.  — Geralmente as que moram com os pais ou têm colegas de quarto chatas.  — Na primeira vez em que a gente transou, você sugeriu que viéssemos para a sua casa. — olhou-me de relance.  — As mulheres nunca escolhem a casa dos caras por uma questão de proteção. Só perguntei pra parecer um cara aberto a muitas opções.  — Esperto e babaca.  — Um babaca estranhamente divertido. — dei uma piscadela, me referindo à legenda usada por ela em seu perfil.  — Não se gabe por isso. — sorriu de canto.  O interfone tocou e dessa vez era mesmo o motoboy. Esperamos que ele subisse e depois de pagar, fechei a porta e arrumei as caixinhas de comida chinesa sobre a mesa, oferencendo para Dulce, que aceitou na hora.  — O tópico da nossa conversa vai ser aleatório. Eu digo alguma curiosidade sobre mim e depois você faz o mesmo. — falei e ela assentiu. — Eu tenho um hábito estranho de organizar a minha alimentação com base no dia da semana. Hoje foi dia de comida chinesa, amanhã será italiana.  — Você não cozinha?  — Só café da manhã. Durante o dia eu nunca fico em casa, então almoço na rua. E à noite eu fico com muita preguiça.  — Eu gosto de cozinhar, é relaxante. Tento fazer todas as minhas refeições, mas às vezes só consigo fazer o jantar.  — Minha comida preferida é frango frito.  — Eu gosto de pizza.  — Todo mundo gosta de pizza. — ri.  — Pizza de atum. — completou.  — Nojenta. — fiz careta. — Eu já quebrei três ossos durante a minha vida.  — Eu sempre quis quebrar o braço quando era criança.  — Que? — a olhei com estranheza.  — Meio esquisito, eu sei, mas eu posso explicar. Quando algum colega de turma quebrava o braço, ele recebia muita atenção. Todo mundo queria assinar no gesso e todo mundo queria ser prestativo e estar perto, perguntando sobre a dor e como foi no hospital.  — Você queria quebrar o braço por atenção? — franzi o cenho. — Ah, meu Deus!  — A única coisa grave que eu consegui foi uma concussão aos dez anos quando tentei escalar uma árvore no parque. Tive que ficar em casa até ficar bem, então não recebi nenhuma atenção que não fosse da família. — riu sem jeito.  — Já parou pra pensar que você é uma psiquiatra que precisa de terapia?  — Eu fiz terapia a minha vida inteira. — revirou os olhos. — E não, terapia não é só para quem está com problemas. Todo mundo precisa se reorganizar de vez em quando.  — Eu me sinto muito bem organizado.  Dulce olhou para mim de maneira desdenhosa e depois soltou uma risada abafada.  — Pare de rir de mim. — reclamei.  — Não estou rindo de você, estou só rindo de como isso é típico. Você tem um trauma, ou talvez vários, mas mesmo assim é o cara contra terapias. Pessoas que rejeitam a ideia de ir ao psicólogo geralmente são as que mais precisam ir.  — É só uma pessoa que te ouve por uma hora e não diz nada.  — Quando você não escuta detalhadamente os problemas do outro, você acaba dando conselhos incompletos ou errados. A mente humana tem várias facetas, várias definições e vários caminhos misteriosos que podem levar a um milhão de lugares. Por isso os detalhes são importantes. Ouvir é mais importante do que falar.  Enquanto ela explicava aquilo, eu parei de comer e fiquei apenas olhando para ela. Por que tudo o que ela dizia tinha que ser tão fascinante? Ela sorriu para mim e depois ergueu as sobrancelhas como se pedisse que eu dissesse alguma coisa, só então eu notei que ainda estava estático a encarando como um i****a.  — Certo, eu, hãm... — pigarreei. — Gosto de rock antigo. Anos oitenta, noventa... — voltei a comer, olhando para baixo e não para ela.  — Eu gosto de indie.  Continuamos a conversar. Descobrimos coisas como sabores favoritos de sorvete, marcas de cerveja, drinks favoritos, lugares que sonhávamos em visitar e as viagens que mais gostamos de fazer. Dulce me contou sobre momentos engraçados de sua vida, os momentos mais marcantes e demais trivialidades. Eu fiz o mesmo e ambos nos divertimos e nos interessamos pelas histórias um do outro. Eu notei que à essa altura, ela era a pessoa que mais me conhecia depois do meu pai. E eu conhecia ela mais do que conhecia qualquer um dos meus amigos.  — Eu acho que estamos praticamente prontos, certo? — ela disse. — Não há mais o quê saber.  Estávamos sentados no tapete, encostados contra o sofá. Dulce estava com a cabeça deitada em meu ombro, totalmente relaxada, deixando seus sapatos largados em um canto e enlaçando seus pés descalços aos meus.  — Tem mais uma coisa. — eu disse um pouco incerto sobre aquilo.  — O que?  — Vou te mostrar. — a afastei e fiquei de pé. — Eu volto já.  Fui até o meu quarto e peguei o meu tabuleiro de xadrez que usava para jogar com o meu pai. Nunca admiti para ninguém o meu apresso pelo jogo que existia desde que eu era criança. Antes de sair do quarto, pensei um pouco com o tabuleiro em mãos. Eu sempre peguei no pé dela por fazer parte do clube de xadrez no colégio enquanto fazia aquilo regularmente em casa. Seria difícil revelar a minha hipocrisia.  Saí do quarto e ao chegar na sala, posicionei a caixa sobre o centro e logo Dulce reconheceu. Retirei o tabuleiro e as peças, posicionando corretamente. Dulce se manteve séria, mas com uma leve expressão de surpresa querendo surgir.  Ela olhou do tabuleiro para mim algumas vezes antes de dizer: — Por tudo o que é mais sagrado, Christopher, vai se f***r!  — Por que? — caí na risada.  — Ainda pergunta? Você fazia bullying comigo, seu hipócrita filho da mãe!  — Eu sei, foi horrível da minha parte. No fundo, eu só queria te desafiar para uma partida.  — Como se você pudesse me vencer. — foi a vez dela de rir.  — Vamos tornar as coisas interessantes. — girei o tabuleiro, deixando as peças brancas de frente para ela. — Melhor de três. Quem vencer, será o dominador hoje.  — Seus cintos são de couro verdadeiro? — sorriu perversa.  — Você vai descobrir quando eu usar um deles pra bater na sua b***a nua, doutora.  — Vai sonhando, babaca. — cruzou as pernas e apoiou os pulsos na lateral da mesa de centro, mostrando estar pronta para jogar.  Eu nunca vi ela jogar antes, mas sabia que era boa, já que sempre viajava com o time principal do clube de xadrez no colégio. Meu passa tempo favorito era reunir o meu grupinho e ficar na entrada do colégio zombado deles enquanto entravam no ônibus que os levaria até o campeonato em fila indiana. Dulce sempre era a última da fila e eu aproveitava disso para colocar o pé em seu caminho. Uma vez, ela fez todos da frente caírem em um efeito dominó. Na época eu ri até ficar sem fôlego, mas agora lembrar disso me fez sentir envergonhado.  Começamos o jogo e eu tive que admitir a genialidade de Dulce. Ela conseguia prever os meus movimentos antes mesmo de eu pensar neles e sempre parecia estar um passo à frente com facilidade. Isso a fez vencer a primeira partida, esfregando sua vitória na minha cara de maneira bem irritante. Na segunda partida, eu fiquei mais atento e tornei as coisas mais difíceis para ela, que por alguns deslizes perdeu para mim.  — Ultimato. — cantarolei, reorganizando as peças.  — Você vai chorar hoje, Uckermann.  — Espero que sim. — maliciei. A terceira partida foi mais demorada. Ambos estávamos concentrados e ansiando pela vitória. Perdemos o mesmo número de peças e no auge do nosso empate, eu acabei deslizando e deixei o meu rei exposto, praticamente entregando o jogo para Dulce.  — Xeque-mate. — sorriu.  — p***a! — bati na mesa.  — Isso! Eu disse que ia vencer! Eu disse! — ficou de pé, dando pulinhos.  — Olha, a gente tem que estabelecer alguns limites.  — Claro, claro... — ela veio até mim, passou uma das pernas sobre o meu corpo e sentou em meu colo. — Escolhe uma palavra de segurança. Se disser a palavra, eu paro.  — A gente vai mesmo fazer isso? — ri.  Dulce me empurrou e eu deitei sobre o tapete, cara a cara com ela.  — Você vai adorar. — sussurrou sobre os meus lábios, me fazendo estremecer no mesmo instante.  — Dulce... — sussurrei também. — Minha palavra segura vai ser Dulce.  Ela sorriu para mim antes de me beijar. Eu nunca a chamava pelo nome no sexo ou na maior parte do tempo, então chamá-la de Dulce mostraria que eu estava mesmo falando sério e que toda aquela coisa de dominatrix deveria parar.  Mesmo não gostando da ideia, eu cedi aos desejos de Dulce, que mesmo antes de começarmos de fato, já dava indícios da sua ansiedade, segurando os meus pulsos, mantendo minhas mãos sobre a minha cabeça, incapazes de toca-la enquanto nossas línguas sentiam o sabor uma da outra.
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