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2504 Palavras
DULCE Saviñon pov's Era uma noite de domingo e o passatempo mais correto parecia ser me encontrar com minhas duas melhores amigas no meu apartamento. Nós abrimos uma garrafa de vinho e preparamos fondue de queijo. Elas começaram a falar sobre seus relacionamentos e eu fiquei apenas ouvindo por um tempo, querendo distrair a minha mente.  — Eu conversei bastante com o Alfonso essa semana. — Anahi disse.  — Pelo amor de Deus, Annie. — May rolou os olhos. — Já tivemos essa conversa e já sabe a minha opinião.  — Você é tão do contra! — Anahi reclamou. — É só sexo. Quando a Dulce resolveu ter encontros casuais com o Christopher você a apoiou.  — Porque a Dulce não estava se envolvendo com mais ninguém.  — O que? O Charles? — a loira riu. — Não é sério para mim e nem para ele.  — Mas ele gosta de você.  — Isso é um problema dele. Eu não prometi nada.  — Anahi, esse seu jeitinho doido costumava ser fofo, mas agora eu só quero bater em você.  — É só uma noite com o Alfonso, eu não vou querer casar com ele. Dulce, fala pra May que não tem nada demais.  As duas olharam para mim ao mesmo tempo. Eu estava com a taça de vinho nos lábios, ainda terminando o gole. Coloquei a taça sobre o balcão, pigarreei ao limpar a garganta e intercalei o olhar entre elas. Ambas estavam esperando que eu as agradasse com minhas palavras, pois me viam como alguém que tinha a cabeça no lugar. Ah, se elas soubessem... — Eu acho que não tem problema você querer passar uma noite com o Alfonso. — falei, arrancando um sorriso satisfeito de Anahi e uma cara carrancuda de Maite. — Mas precisa dispensar o Charles antes.  — É, isso é menos pior do que uma traição indireta. — May comentou.  — Mas o Charles é tipo... Tipo... — Annie olhou para cima como quem procurava a palavra certa.  — Um fixo? — May arqueou a sobrancelha.  — Eu não gosto dessa palavra.  — Mas é isso. Caramba, você e o Alfonso têm muito o que conversar. — a morena riu com desdém. — Não acha, Dulce?  — Uh? — franzi o cenho. Sem perceber, eu havia parado de prestar atenção nelas.  — Está tudo bem? — Anahi perguntou. — Você está bem mais calada que o comum.  — É que... — suspirei. — Certo. — passei minha língua entre os lábios, os umedecendo. — Eu estou em uma situação que não deveria estar.  — E a gente pode ajudar você? — Maite sugeriu.  — Talvez. Bom, as coisas estão diferentes em relação ao Christopher.  — Ah, céus, você finalmente admitiu que está apaixonada? — Anahi arregalou os olhos.  — Apaixonada!? — Maite se alarmou. — Diga que Anahi está ficando louca!  — A Annie não está louca. — baixei o tom de voz, olhando para a taça em minha mão ao invés de ter coragem de encarar os olhos da minha prima.  — p**a merda... — ela resmungou.  — Ok, sem pânico. — Anahi pousou sua mão em meu ombro. — Eu já sei a resposta dessa pergunta, mas mesmo assim vou fazê-la. Você acha que ele também está apaixonado por você?  — Eu sou boa em analisar as pessoas, mas quando se trata de paixão é muito diferente. Eu analiso traumas, não amores. E com o Christopher fica muito claro como eu sou péssima em decifrar as boas emoções. Ele é sempre muito intenso quando está bravo ou nervoso, mas se retrai perfeitamente bem quando está emocionado. Aquele cara não dá o braço a torcer.  — Prima, você quer que a gente fale a verdade?  — Por favor. — concordei.  — Por tudo o que ouvimos do Christopher durante esses anos, ele é muito bom em iludir. Talvez seja só isso. E eu sinto muito que sua primeira paixão seja ele.  — Independente de ele estar apaixonado ou não, isso não importa pra mim. Eu vou ficar na minha zona de conforto e não vou falar nada. Se eu falar alguma coisa, ele vai fugir de mim, vai acabar com tudo o que temos e eu não quero que isso acabe. — desabafei.  — Dulce, não acha que é r**m pra você continuar saindo com ele? — Anahi perguntou. — Vai se apegar ainda mais.  — Essa não é a questão aqui. — soltei um longo suspiro. — Eu só não quero que acabe e isso não está em discussão. As duas ficaram em silêncio, mas rapidamente mudaram de assunto. Eu sabia que elas não estavam de acordo em eu manter aquilo, mas elas sabiam que eu não mudava de ideia tão fácil. Se o Christopher era bom em esconder sentimentos, eu era melhor ainda.  [•••] A segunda chegou junto com o trabalho árduo da clínica. Encaminhei alguns dos meus pacientes para outros psiquiatras, já que eu passaria um bom tempo tendo que me dedicar com a administração do lugar. Dos poucos que se mantiveram comigo, Jason era um deles. Tivemos uma consulta pela manhã e ele se saiu muito bem, eu podia notar o seu avanço.  Ocupar a minha mente trabalhando era o que eu precisava para não pensar em Christopher e no fato de ele não ter nem ao menos me mandado uma mensagem ao longo do dia. Eu não queria me importar, não estava nos meus planos que algo assim me afetasse, mas infelizmente estava acontecendo.  Também trabalhei pela noite em casa. Depois de jantar, servi uma taça de vinho para mim e fiquei no sofá analisando alguns documentos importantes. O meu interfone começou a tocar e eu corri para atender. Estranhei quando o porteiro disse que Alexa estava no prédio. Só por curiosidade, eu permiti que ela entrasse.  Alguns minutos depois, Alexa estava comigo no sofá. Ela parecia um pouco chateada e eu já imaginava qual seria o assunto abordado.  — Ele não atendeu as minhas ligações. — falou.  — Eu imaginei. Ele não quer falar com você no momento. Christopher precisa de tempo pra processar o seu retorno.  — Você tentou conversar com ele sobre isso? Ele é seu namorado, com certeza te ouviria. — olhou-me esperançosa.  — Não é assim que funciona. — desviei o olhar. — Não posso interferir na vida dele dessa forma.  — Mas você pode me dar o endereço dele.  — Não. Não posso. — fui direta.  — Dulce, eu vou te mostrar uma coisa e eu espero que isso a convença. — ela abriu sua bolsa e tirou de lá um envelope de carta. — Quando eu fui embora, tentei negociar a guarda do Christopher com o Victor diversas vezes e foi uma batalha muito difícil. O Victor queria que eu ficasse longe do Christopher, então aproveitou que a guarda continuava sendo só dele e me fez uma ameaça. — ofereceu-me a carta em sua mão.  Peguei a carta e comecei a ler o conteúdo.  Alexandra,  Eu estou impaciente com a sua insistência. Desistiu de nós dois quando resolveu me deixar e eu não vou permitir que alguém como você esteja presente na criação do meu filho. Se você se importasse com ele de verdade, teria zelado pelo nosso casamento ou ao menos tido o caráter de pedir o divórcio antes de começar a me trair.  Não quero mais receber ligações do seu advogado e não quero ter que brigar pelo meu filho com você. Christopher vai ficar comigo e se insistir em pedir a guarda, eu a acuso de maus tratos e o coloco em um colégio interno longe daqui. De um jeito ou de outro, você nunca mais vai vê-lo.  Ass: Victor Uckermann. — Isso é real? — franzi a testa.  — Sim, Dul. Eu estava com os nervos à flor da pele e sabia que o Victor seria bem capaz de mandar o meu filho pra longe se quisesse. Claro que ele deve ter dito ao Christopher que eu não voltei porque não quis, mas não foi bem assim. Foi a forma que ele encontrou de me punir pelo que fiz.  — Acho que é injusto o Christopher só ter ouvido um lado da história. — cocei a nuca. — Eu conheço você, Alexa. Sei que não passamos tanto tempo juntas, mas também sei que meu pai não te escolheria e não falaria de você com tanto orgulho se você não fosse uma boa pessoa. E das vezes que esteve comigo, eu vi muita verdade em você.  — Obrigada, Dul. É muito bom te ouvir dizer isso. — sorriu com lágrimas nos olhos. — Eu não tive mais notícias porque eles se mudaram e eu também não tinha coragem de chegar de repente na vida do Christopher sabendo que possivelmente ele me odiaria. Eu queria poupar o meu filho dessas emoções ruins. Mas aí o destino colocou ele no meu caminho de novo e eu sinto que não devo ignorar essa chance.  — O Christopher é bem difícil de lidar. — respirei fundo. — Talvez ele me odeie por isso, mas ele precisa ouvir você. — peguei um caderno e uma caneta que havia deixado sobre a mesinha de centro e anotei o endereço de Christopher. — Ele mora nesse endereço. — rasguei a folha e entreguei para ela.  — Obrigada, Dulce! — me puxou para um abraço. — Você é um anjo.  — As coisas não vão dar certo imediatamente, mas o Christopher está aberto a mudanças por mais teimoso que pareça ser.  Ela assentiu e depois ficou de pé.  — Não vou mais tomar o seu tempo.  — Me mantenha informada.  — Manterei.  Quando nos aproximamos da porta, o interfone tocou novamente e eu fui atender. Era a minha mãe e eu tinha certeza que ela odiaria ver a Alexandra saindo do prédio.  — É a Blanca. — expliquei. — Eu vou te acompanhar até a portaria. — Eu agradeço. Já basta o show que ela deu no aniversário da Hellen.  Nós descemos juntas e quando chegamos à portaria, minha mãe olhou direto para nós duas e ficou boquiaberta, seguida de uma expressão levemente furiosa.  — Já não basta o marido, quer levar a filha também? — Blanca alfinetou assim que nos aproximamos.  — Mãe... — ia repreendê-la, mas Alexa fez sinal para que eu parasse.  — Eu não tenho mais paciência pra você, Blanca. Vai pro inferno. — passou por ela.  — E quem vai me receber? Você?  Em resposta, Alexa ergueu a mão e sem olhar para trás, ergueu o dedo do meio para a minha mãe.  — Sua...  — Mãe. Chega. — agarrei o braço dela e a guiei para o interior do prédio.  Dentro do elevador, ela falou m*l de Alexandra até chegarmos ao meu andar e entrarmos no meu apartamento.  — Acabou? — cruzei os braços e olhei para ela com tédio.  — Por que você a recebeu?  — Mãe, eu não tenho problema nenhum com a Alexa. — suspirei e me joguei no sofá. — Agora a gente pode mudar de assunto? O que a senhora está fazendo aqui?  — Eu vim me desculpar.  — Oi? — arqueei as sobrancelhas. — Eu ouvi mesmo isso? — afastei o cabelo da minha orelha.  — Ouviu. — ela suspirou, baixou a pose de brava e sentou ao meu lado. — Desculpe ter duvidado da sua capacidade de administrar a clínica sozinha. Eu sei que você é bem capaz disso e que eu não preciso ficar dizendo o contrário só pra você se sentir desafiada. A vida já é um desafio.  — Você dizia duvidar de mim pra que eu me sentisse desafiada? — cerrei os olhos.  — Dulce, eu sou sua mãe. Eu notei desde cedo que nada te motiva mais do que alguém dizer que você não pode fazer alguma coisa. Eu achei que isso seria bom pra te fazer ir longe, mas eu esqueci que isso te afastaria de mim.  — E não te magoava ver o quanto eu ficava m*l?  — Você escondia bem quando ficava m*l. — sorriu sem jeito. — E eu estava ocupada surtando com o seu pai. — arfou. — Desculpe, essa frase saiu de um jeito péssimo.  — Tudo bem, mamãe. Você pode aprender. O que te fez se arrepender?  — Eu comecei a fazer terapia.  — Isso é ótimo! — sorri.  — É, eu não queria mais encher a cara e falar verdades na frente da família toda. Você acha que pegou m*l?  — Se eu acho? — ri. — Um dia todos vão rir muito disso.  — Espero que esse dia chegue logo. — sorriu. — E você me perdoa?  — Sabe quantas vezes eu imaginei você me dizendo essa frase? É claro que eu te perdoo, mamãe.  Ela abriu os braços e eu me aconcheguei no seu abraço.  — De agora em diante, eu só vou te fazer elogios e críticas realmente construtivas. — falou enquanto acariciava o meu cabelo.  — Obrigada por isso.  — Tem mais uma coisa.  — Que coisa? — nos soltamos do abraço  — Eu passei muito tempo dedicando a minha vida aos Saviñon e eu estou cansada do meu mundo girando em torno da sua avó maluca e dos seus tios metidos.  Não pude deixar de rir daquele comentário.  — E eles nem me valorizam como eu mereço! — exclamou. — Eu percebi que eu não sei o que eu sou sem eles. Não sei quais são meus hobby's, porque tudo o que eu faço é tudo o que eles gostam de fazer. Não sei qual a minha comida favorita, porque eu como os cardápios dos banquetes que a Hellen escolhe. Passatempo? Só o que o clubinho Saviñon considera como diversão. Eu vivi parte da minha vida fazendo tudo o que os outros diziam ser bom e esqueci de experimentar as coisas sozinha. Eu quero me conhecer e espero que não seja tarde pra isso.  — Não, não é. — segurei as mãos dela. — E eu quero saber tudo de novo que você for experimentar.  — Até as coisas sexuais? — sussurrou.  — Ah, meu Deus! — arregalei os olhos e soltei as mãos dela.  — Eu estou brincando! — deu risada. — Eu ainda não estou familiarizada com o seu lado brincalhão. — ri também.  Nós continuamos a conversar e de repente o tempo passou voando. Eu acabei contando para ela que menti sobre Christopher ser meu namorado. Ao invés de ficar brava, ela riu muito e disse que não me imaginava indo tão longe só para agradá-la.  Os detalhes mais sórdidos da minha relação com Christopher foram deixados de lado e eu resumi tudo usando o termo "amizade colorida". O que eu não esperava era que minha mãe iria gostar tanto da ideia e até cogitar arranjar um amigo com benefícios também. Foi difícil não ficar vermelha toda vez que ela dizia alguma coisa mais obscena, mas pensando bem, até que eu gostava dessa leveza e iria me acostumar rápido com essa nova Blanca.
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