DULCE Saviñon pov's
Estava a caminho de casa quando recebi uma ligação de Jason, um dos meus pacientes. Fazia alguns meses que ele não tinha uma crise e achei que estávamos progredindo bem, mas aí aconteceu de novo e dessa vez ele estava disposto a tirar a própria vida.
— Jay, por favor, concentre-se na minha voz, respire devagar, prestando atenção nos movimentos do seu peito, feche os olhos por um tempo e esvazie a mente.
— Não dá... Dulce... eu não consigo... — falou com voz de choro.
— Diga-me, o que está vendo agora? Cite os objetos e as suas cores.
— As cortinas da janela são azuis. O parapeito é marrom. Vejo um carro vermelho passando pela rua. Uma caixa de correio azul perto do meio fio. Uma garota usando um vestido rosa caminhando pela calçada.
— Jay, saia de perto da janela. Conte-me sobre os objetos da sua sala.
— Meu sofá é branco. As almofadas são cinzas, pretas e brancas. O tapete é vermelho...
Ele continuou citando tudo, a voz ficando cada vez mais calma. O incentivei a continuar enquanto acelerava o carro. Sinal vermelho. Merda, eu não vi o sinal vermelho!
Bati em cheio em um motoqueiro e freei o mais rápido que pude. Arregalei os olhos e apertei o volante com muita força.
— Dulce? Dulce, o que foi isso? — Jason perguntou, a voz desesperada.
— Não foi nada. Eu estou bem. Me escute, eu vou precisar desligar por alguns minutos. Não se preocupe, não aconteceu nada comigo e eu vou estar aí logo. Me espere, ok? Nós podemos conversar pessoalmente. Você gosta de conversar comigo, não gosta?
— Sim.
— Me espere, Jay. Por favor, me espere.
Desliguei, mas antes de sair do carro eu enviei uma mensagem para a irmã dele, que prometeu ir até lá o mais depressa possível.
Qual não foi a minha surpresa ao notar que o motoqueiro era Christopher Uckermann. Eu me perguntava se o dia poderia ficar pior. Chamei a ambulância e examinei o seu corpo enquanto falava com ele, tendo a certeza de que ficaria consciente. Não parecia ter acontecido nada grave, mas era melhor prevenir.
Fiquei esperando na recepção do hospital só para ter certeza de que ele estava mesmo bem. E claro que a primeira coisa que ele disse era que iria me processar. E se eu já não havia perdido a minha habilitação ainda, essa era a hora. Quando estava prestes a tentar convencê-lo a não fazer nada, meu celular começou a tocar e eu tive que atender. Era a irmã de Jason.
Respirei aliviada quando ela me disse que ele estava bem e que havia se acalmado. Christopher ouviu a minha conversa e decidiu que não iria mais prestar queixa. Pois é, ele tinha empatia afinal. Mas aí ele começou a me secar com aqueles olhos castanhos tão marcantes. Eu não consegui esconder que fiquei abalada e que também senti aquela tensão s****l se formando. Por que ele tinha que ser tão bonito? Talvez se eu nunca tivesse transado com ele, esse tipo de coisa não aconteceria. Mas eu sabia muito bem o que Christopher poderia fazer e isso alimentava fantasias que eu jamais pensei que teria.
Aproveitei que o pai dele chegou e saí de fininho enquanto os dois conversavam. Dirigi com mais calma até a casa de Jason. Prometi que iria até lá e cumpriria isso.
Foi a irmã dele quem me atendeu e acenou com a cabeça em direção ao sofá, onde Jason estava deitado. Fui até ele e sentei no tapete bem pertinho. Ele sorriu levemente e eu retribuí o sorriso.
— O que aconteceu? — perguntei. — A crise teve algum motivo ou ela só veio do nada?
— Você vai dizer que é bobagem.
— Claro que não. As coisas que são importantes pra você têm tanto valor quanto as coisas que são importantes pra mim.
Ele suspirou, olhou para o teto e ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu entrei no perfil da Angel. Ela está namorando e os dois fizeram uma viagem para o México.
— Jay, o que eu disse na nossa última consulta?
— Que eu sou viciado em sofrimento e que não deveria alimentar esse vício. — riu sem humor.
— Você está tão acostumado com a dor que não se acha digno de sentir outra coisa que não seja isso. Aí você se sente bem pela primeira vez na vida e vai atrás de algo que te faça sentir m*l, como olhar as redes sociais da sua ex.
— O que eu deveria fazer?
— Você vai bloqueá-la e apagar tudo o que se refere à ela. Quero que você passe a ir à sua psicóloga duas vezes por semana e não uma.
— Eu odeio essas sessões. — resmungou.
— É para o seu bem.
— Dulce — a irmã dele me chamou. — Eu acho que esses medicamentos não estão surtindo efeito. Você poderia prescrever algo mais forte?
— Os medicamentos são referentes ao organismo do Jason. Doses mais fortes podem prejudicar o metabolismo dele e não seria muito seguro. — ela não parecia convencida disso. — Mas eu posso pedir novos exames só para ver se ele estaria pronto.
— Não. — Jason disse. — Não quero fazer mais nenhuma droga de exame.
— Tudo bem. — assenti. — Agora que sei que está bem, eu preciso ir embora. — fiquei de pé.
— Será que eu não posso fazer terapia com você?
— Eu não sou terapeuta, você sabe. Eu sou só a garota que te faz perguntas e te prescreve exames e medicamentos.
— Mas eu prefiro conversar com você.
— Se não gosta da sua psicóloga, você pode procurar outra. O importante é que esteja confortável. — ele assentiu. — Te vejo depois, Jay.
— Obrigado por vir, Dulce. — ele sorriu e dessa vez o sorriso chegou em seus olhos.
Eu não deveria criar vínculo com pacientes, mas tratava da depressão de Jason desde que comecei a trabalhar. Ele foi um dos primeiros, eu ainda era inexperiente e incapaz de separar o pessoal do profissional. Acompanhei o início e o fim do relacionamento dele. Vi e analisei todas essas fases de perto, percebendo como uma pessoa pode destruir outra. Quando o conheci, ele era tão fechado, nem mesmo pedia ajuda quando precisava, mas conseguimos mudar isso com muito esforço. Eu esperava ver Jason bem algum dia.
[•••]
Anahi e Maite queriam sair naquela noite. Disseram que algumas das pessoas do colégio estariam lá e eu decidi ir também. Não que o último encontro com eles tivesse dado muito certo, mas eu poderia tentar de novo. Ao menos eu esperava que Christopher não participasse devido ao acidente mais cedo.
— A vida te deu uma chance de fazer o Christopher pagar. — Anahi disse quando já estávamos no carro de Maite, a caminho do bar.
— Ai que horror, Annie! — May disse. — Ele é um babaca sim, mas não merece morrer.
— Eu não falei em morrer, mas ele bem que poderia ter se arranhado mais do que se arranhou. — ela explicou.
— Eu tinha esquecido que você era doida. — falei rindo.
— E o Jason está bem? — May perguntou.
— Bem, bem... não. Mas a crise foi controlada.
— Sua profissão deve ser bem complicada. — Anahi falou. — Se eu tivesse que lidar com os problemas dos outros, eu iria enlouquecer junto.
— Mas você já é louca. — brinquei a fazendo rir.
Chegamos ao bar e assim que entramos avistamos a mesa com o resto do pessoal. Anahi sentou ao lado de Charles, Maite ao lado de Travis e a única cadeira vazia estava entre Alfonso e... Christopher? Mas que diabos!
Fiquei em pé parada olhando para ele com a testa franzida. A única coisa que dava sinais de que ele havia sofrido um acidente era o curativo na lateral de sua testa. Ele apoiou o braço no encosto da cadeira, esquivou-se levemente para trás e me olhou dos pés à cabeça.
— Boa noite, doutora. — sorriu sarcasticamente.
Fiquei em silêncio mantendo um semblante sério.
— Dulce, não quer se sentar? — Alfonso perguntou, puxando a cadeira para mim.
Bom, eu não tinha muitas alternativas. Acomodei-me e afastei a cadeira para mais perto de Alfonso. Mesmo a mesa estando cheia, a presença de Christopher era calorosamente incômoda. As conversas começaram, os garçons traziam as cervejas e eu tentava esquecer quem estava ao meu lado, ignorando totalmente a sua presença, o que estava sendo difícil já que eu notava ele olhando para as minhas pernas vez ou outra.
— A melhor parte do colégio com toda certeza eram os musicais. — Christian disse quando tocaram no assunto ensino médio.
— Sim! — May concordou. — Ai, mas também tinham as líderes de torcida. Acho que meu coração fica dividido.
— Eu amava os bailes. — Anahi falou. — Apesar de que uma certa pessoa se apossou de todas as coroações. — aquela foi uma indireta bem direta para Maite.
— Não era à toa que me chamavam de abelha rainha. — jogou seus cabelos para trás e todos riram.
— A melhor parte para mim eram os jogos. — Charles disse. — Adorei cada campeonato, mesmo o que nós perdemos.
— Lembram daquela emoção? — Alfonso continuou. — Caramba, que saudade de ser capitão de um time de futebol americano.
— E você, Dulce, do que mais gostava? — Vanessa perguntou para mim e então eu senti todos aqueles olhares na minha direção.
— Estudar, é óbvio. — May respondeu por mim.
— Na verdade — comecei a me pronunciar. — eu fazia parte do clube de xadrez.
— Não surpreende ninguém. — ouvi Christopher murmurar ao meu lado, soltando uma risadinha logo depois.
Ele ia mesmo zombar de mim?
— E deixa eu adivinhar qual era a parte favorita do Christopher... — falei bem alto. Ele olhou para mim como se eu estivesse o divertindo. — Ir embora.
— Ah, não, claro que não. — ele respondeu casualmente. Eu sentia que iria retrucar o que eu disse. — Ir embora talvez fosse a minha segunda coisa favorita. A primeira era fazer a Dulce Loser chorar. — sorriu.
Pressionei meu maxilar e respirei fundo, tentando controlar a minha raiva. As pessoas da mesa riram do que Christopher disse, com exceção de Maite e Anahi, que se mantiveram sérias.
— É uma pena que tenha mudado a sua aparência, doutora. — ele continuou. — Eu sinto falta das boas risadas sempre que você passava pelo corredor com aqueles óculos enormes. Aquilo tinha o quê? Uns dois quilos de vidro? — as risadas aumentaram e tentei me manter no controle, encolhendo-me mais e mais na cadeira.
Maite olhou para mim e movimentou os lábios dizendo um silencioso "calma".
— E aqueles moletons que mais pareciam sacos? Qual era o problema em comprar roupas do seu tamanho? — Christopher continuou com sua acidez, agindo exatamente como agia antes.
— Eu tenho que ir ao banheiro. — falei ao me levantar. Dei as costas sem esperar que ninguém dissesse nada e me afastei da mesa.
Eles com certeza notaram que eu fiquei m*l, pois pararam de rir assim que me retirei. Poderia até ser bobagem para eles, uma espécie de zoação entre amigos que já fazia parte do dia a dia deles desde sempre. Bom, aquilo nunca fez parte do meu. As pessoas nunca riram de mim de maneira saudável e eu não sabia lidar com aquilo, não gostava que falassem da minha aparência, mesmo que eu já não me vestisse ou me comportasse como a adolescente que eu fui.
Entrei no banheiro, fui até um box e então me permiti chorar. Chorei em silêncio, os soluços engasgando em minha garganta. Foi como voltar ao passado. Lembrei de todas as vezes em que eu comi no banheiro no almoço para evitar que Christopher e seu grupinho derrubassem minha bandeja ou fizessem algum comentário que me deixaria constrangida. Eu sempre fugi para o banheiro quando sofria bullying e precisava chorar.
Depois de respirar fundo algumas vezes, eu me recompus, enxuguei o meu rosto e retoquei o meu batom. Tive que retirar parte da maquiagem dos olhos, tirando os borrões pretos que se formaram. Quando estava pronta, fui até a saída e abri a porta. Travei ao ver quem estava no corredor, sentado no chão, as costas apoiadas na parede, os joelhos dobrados e a cabeça baixa. Quando me viu, Christopher levantou rapidamente, mas não se aproximou.
— O que estava fazendo aí? — perguntei.
— Esperando você. — sua voz estava mais calma, quase como se ele estivesse envergonhado. — Desculpa.
— O que? — arqueei a sobrancelha.
— Me desculpa. Eu não deveria ter falado aquelas coisas, eu exagerei. — fiquei em silêncio, o analisando. — Eu não sou mais assim. Por Deus, eu sou um adulto agora. Não preciso mais fazer esse tipo de coisa pra chamar atenção. — suspirou. — Eu só estava irritado.
— Comigo? Por que? Por achar que eu transei com você por vingança? Pra te humilhar? Te dar uma lição? Eu sou muito melhor do que isso, Christopher.
— Você é. Eu concordo. É só que... é complicado pra mim, ok? Eu não costumo ficar nessas situações com as mulheres.
— Você tem questões com mulheres. — cruzei os braços e cerrei os olhos. — Questões com a sua mãe. — os ombros dele ficaram tensos, ele olhou para mim levemente assustado. — Ela faleceu? Não... não é isso. — cheguei mais perto. — Ela fez alguma coisa r**m com você.
— Para de me analisar. — sua expressão ficou mais dura, irritada.
— Ela te abandonou? — o silêncio dele respondeu tudo. — Isso foi só um chute, mas eu sou muito boa em notar problemas pessoais. Meus pacientes vivem tendo questões assim. E como a mulher que você mais amava ferrou com a sua cabeça, você não admite que nenhuma outra mulher brinque com você. Caralho... você precisa de terapia. — minha vez de ser ácida.
— Você não me conhece. — ele disse de maneira fria.
— Você também não me conhece e mesmo assim riu de mim na frente de todos. Tudo isso por causa de um problema que é só seu. Não descarregue suas questões nas outras pessoas, Christopher. Nem todos são como a sua mãe.
— Quer saber? — ele caminhou para perto de mim e eu andei para trás, parando quando minhas costas encontraram a parede. Minha respiração ficou desregulada e eu desviei o olhar para a boca de Christopher. — Que se dane você e as suas conclusões.
— Eu toquei onde dói? — minha voz vacilou um pouco. Ele estava perto demais.
Christopher notou que eu me abalei com a sua aproximação e sorriu de canto, trazendo seu rosto tão perto que eu senti sua respiração quente roçar em meus lábios.
— E eu te toquei onde dá prazer? — engoli em seco e entreabri a boca para tornar a respiração mais fácil. — Realmente queria só t*****r comigo naquela noite, doutora? — perguntou tocando no meu lábio inferior com a ponta do dedo.
— Sim. — admiti. — Era só sexo.
— Então o plano era t*****r comigo e voltar a me odiar logo depois?
— Exato.
Christopher ergueu seus olhos para os meus e ficamos a nos encarar. A tensão s****l retornou com força e eu até esqueci em que lugar do mundo estava.
— Parece um bom plano pra mim. — arqueou as sobrancelhas sugestivamente uma única vez.
— Dizem que a raiva ajuda a apimentar as coisas. — falei com a voz mansa.
— Eu não sei, porque não te odiava quando transamos. Será que você poderia me ajudar a descobrir? — mexeu na alça da minha blusa, deslizando-a pelo ombro.
— É. Eu posso.
Christopher sorriu maliciosamente, segurou minha mão e me puxou. Passamos pelo bar e notamos nossos amigos bêbados demais para nos perceberem. Apenas Maite, que estava sem beber por ter que voltar dirigindo, nos encarou boquiaberta. Eu apenas dei de ombros para ela e sorri nervosa, continuando a seguir Christopher até a saída.