A matilha Blackthorn era um lugar de poder. Era um lugar onde força e glória significavam tudo. E eu? Eu era o oposto disso.
Eu costumava acreditar que, se me esforçasse o suficiente, se trabalhasse duro, se fosse obediente e invisível, Magnus Blackthorn e os outros da matilha talvez me aceitassem. Talvez eu encontrasse um lugar ali, um lugar onde finalmente pertencesse.
Mas eu estava errada.
A verdade era simples e c***l: Magnus nunca quis o casamento. Não foi ele quem me escolheu. Foi sua mãe, Sylvana Blackthorn, a antiga matriarca da matilha.
Eu ainda me lembrava do dia em que ela apareceu na pequena cabana onde eu vivia com minha família adotiva. Eu era apenas uma criança na época, m*l entendendo o que estava acontecendo. Sylvana olhou para mim com olhos duros, avaliando-me como se eu fosse um animal sendo comprado no mercado.
— "Você tem poder," disse ela, como se não estivesse falando diretamente comigo, mas para a bruxa que a acompanhava.
A bruxa, uma mulher de cabelos brancos e olhos opacos, tinha me tocado na testa, seus lábios murmurando algo que eu não entendia.
— "Ela será uma Luna poderosa," a bruxa disse finalmente.
— "Ótimo. Magnus precisará de uma fêmea como essa ao lado dele," respondeu Sylvana, com um aceno satisfeito.
Eu não sabia o que significava ser uma "Luna poderosa", mas naquela noite fui levada para a matilha Blackthorn. Não me deram explicações. Não me deram escolha. Eu era apenas uma garota perdida, arrancada de tudo o que conhecia e lançada em um mundo onde eu não pertencia.
E Magnus? Ele nunca escondeu o fato de que odiava essa escolha. Ele odiava a ideia de ser manipulado pela mãe, e, pior ainda, odiava o fato de que a loba "poderosa" que ela havia trazido para ele era apenas... eu.
A floresta da matilha Blackthorn tinha um cheiro que eu nunca gostei. O odor de madeira úmida misturava-se com o perfume metálico de sangue, um lembrete constante das caçadas que mantinham a matilha alimentada, mas também da crueldade que permeia cada canto desse lugar.
Eu não pertencia a esse mundo. Nunca pertenci.
Desde que consigo me lembrar, minha vida foi uma sequência interminável de olhares de desdém e palavras cortantes. Sou a loba imperfeita – a que não consegue se transformar completamente, a vergonha da matilha. Os outros Lycans sempre deixaram isso claro. Magnus, o Alfa e meu marido por uma c***l formalidade, fazia questão de lembrar a todos do meu fracasso.
Hoje foi mais um desses dias.
Magnus se pavoneava pela clareira principal, Celine, sua amante, ao seu lado como uma sombra arrogante. Ela ria com ele, seus olhos verdes brilhando com algo entre malícia e triunfo, enquanto ele discursava para a matilha. Eu estava de pé nas bordas da clareira, as mãos trêmulas, tentando desaparecer entre as árvores.
— "Vejam isso," Magnus disse, sua voz cortante como uma lâmina. Ele apontou para Celine, radiante em seu vestido impecável. "Esta é a verdadeira força de uma Luna. É assim que uma fêmea deve ser. Não como... bem, vocês sabem."
Todos sabiam a quem ele se referia, e risadas baixas se espalharam pela matilha como um veneno. Meus ombros se curvaram sob o peso do constrangimento, mas eu permaneci calada. Responder seria inútil.
— "Você não vai dizer nada, Violet?" Celine provocou, dando um passo à frente, com o sorriso de quem sabia que já havia vencido.
Eu olhei para ela, para os olhos cintilantes de vitória, e uma raiva se agitou dentro de mim. Não era uma raiva como as que Magnus exibia – destrutiva e c***l. Era uma raiva que queimava em silêncio, uma que eu estava cansada de reprimir.
Mas eu não respondi. Não ainda.
A noite estava quieta demais. Isso deveria ter me acalmado, mas ao invés disso, senti um arrepio subir pela espinha. O tipo de arrepio que vem com o instinto de quem sabe que algo está errado. Eu estava deitada na pequena cama da cabana que Magnus me deu, olhando para o teto. Mas o silêncio foi quebrado por vozes no lado de fora.
— "Ela é um problema, Magnus," uma voz masculina disse.
— "E problemas precisam ser resolvidos," respondeu Magnus, sua voz baixa e cheia de impaciência.
Meu corpo ficou imóvel.
— "Vamos levá-la para a floresta," continuou ele. "Perto do penhasco. Um empurrão é tudo o que será necessário. Ninguém vai sentir falta dela."
Por um momento, eu não consegui respirar. Ele queria me m***r.
Magnus queria acabar com algo que ele nunca quis em primeiro lugar.
Antes que pudesse reagir, minha porta foi escancarada, batendo com força contra a parede. Dois lobos apareceram na entrada, os rostos rígidos, sem nenhum traço de compaixão.
— "Você vem com a gente," um deles disse, a voz seca como cascalho.
— "Por quê? O que está acontecendo?" perguntei, tentando manter a calma, mas minha voz saiu trêmula.
Eles não responderam. Em vez disso, um deles agarrou meu braço, puxando-me com força suficiente para me fazer tropeçar.
— "Magnus quer falar com você," o outro murmurou, sem emoção.
Eles me arrastaram pela floresta, os galhos baixos arranhando minha pele enquanto eu lutava contra o medo que subia pela minha garganta. Quando finalmente pararam, percebi onde estávamos.
O penhasco.
Magnus estava lá, com Celine ao seu lado, a expressão dela radiante com malícia. Ele me olhou de cima a baixo, como se eu fosse um inseto que estava prestes a esmagar.
— "Por favor," eu implorei, minha voz m*l saindo. "Seja o que for que eu tenha feito, me diga. Me dê uma chance de consertar!"
— "Consertar?" Magnus riu, mas era um som sem humor, cheio de escárnio. "Você não pode consertar o que está quebrado além do reparo. Você é um erro, Violet, e é hora de acabar com isso."
— "Magnus, por favor..." minha voz falhou enquanto lágrimas queimavam meu rosto. "Eu posso mudar. Me deixe provar!"
Celine bufou, cruzando os braços. — "Ela não vai aprender, Magnus. Ela nunca aprendeu."
— "Silêncio!" ele rosnou, e Celine recuou com um sorriso m*****o. Ele me olhou de cima a baixo, seus olhos cheios de desprezo. — "Você é uma vergonha. Uma mancha no nome da matilha Blackthorn. E eu vou limpar isso agora."
Antes que eu pudesse processar suas palavras, ele avançou. O primeiro golpe me atingiu como um trovão, direto no rosto. A dor explodiu, ofuscante, e eu caí de joelhos.
— "Você é fraca!" ele gritou, me chutando com força no estômago. Eu gemi, tentando respirar, mas o ar me escapava como se meus pulmões tivessem sido esmagados.
Outro golpe veio, desta vez na lateral do meu rosto. Senti o gosto metálico de sangue encher minha boca. Minha visão ficou turva, mas consegui ver o sorriso c***l de Magnus enquanto ele continuava.
Ele não parou. Suas mãos e pés me atingiam sem piedade, cada golpe arrancando de mim um pedaço de dignidade que eu ainda tentava preservar. Meu corpo queimava, minhas costelas doíam, e minha pele estava rasgada e ensanguentada.
— "Olhe para você," ele disse, segurando meu queixo com força para me forçar a encará-lo. Seu olhar estava frio, calculado. "Você não é nada. Nunca foi."
Celine ria ao fundo, um som que parecia mais um eco demoníaco.
Eu m*l conseguia ficar de pé quando ele finalmente me soltou. Meu rosto estava inchado, o sangue escorrendo por cortes profundos. Eu sabia que não parecia mais uma pessoa – eu era apenas uma sombra do que um dia fui.
— "Agora que você está no lugar onde pertence," Magnus continuou, sua voz baixa e cheia de veneno, "vamos acabar com isso."
Ele me empurrou.
Não foi um golpe brusco ou impulsivo. Foi calculado, frio, como se cada movimento fosse deliberado. O chão desapareceu sob meus pés, e eu caí.
O vento chicoteava meu corpo enquanto o penhasco se afastava. A dor do impacto anterior ainda latejava, mas o medo de encarar as rochas afiadas abaixo era ainda mais intenso.
Antes que a escuridão me envolvesse, vi a Lua pela última vez. Brilhando como uma testemunha distante, ela parecia tão indiferente quanto Magnus.
E então, tudo se apagou.
O corpo de Violet jazia inerte no fundo do penhasco, envolto em silêncio. Ela estava caída entre as pedras, seus membros torcidos em ângulos impossíveis, o rosto coberto de sangue seco e terra.
Para qualquer um que a visse, parecia uma mulher morta. Talvez fosse isso que Magnus esperava.
Mas Violet ainda respirava.
O som era fraco, irregular, como um suspiro que lutava contra o inevitável. Seu corpo pulsava com uma dor que queimava cada músculo, cada osso, mas, em algum lugar dentro dela, uma fagulha se recusava a apagar.
Por horas, ela permaneceu ali, envolta no silêncio e na escuridão. Nenhuma matilha veio buscá-la. Nenhum aliado apareceu. Ela estava sozinha.
Do outro lado da clareira, a sombra de uma mulher surgiu entre as árvores. Seus pés não faziam som enquanto ela se aproximava, e um manto n***o fluía ao seu redor como fumaça. Seu cabelo era prateado como a luz da Lua, e seus olhos brilhavam com um azul profundo que parecia ver além da carne e do sangue.
— "Ainda viva," ela murmurou, sua voz um sussurro carregado de espanto.
Helena.
Ela se ajoelhou ao lado do corpo de Violet, seus dedos finos e frios tocando a testa ensanguentada da jovem.
— "Você deveria estar morta," disse ela, sua voz baixa e melancólica, como se falasse mais para si mesma do que para Violet. — "Mas não está. A Lua ainda não terminou com você, criança. Há algo em você... algo que nem mesmo o tempo conseguiu apagar."
Helena fechou os olhos, e um sussurro escapou de seus lábios, um cântico em uma língua antiga e esquecida. Sua mão começou a brilhar com uma luz pálida, e, aos poucos, o corpo de Violet respondeu. As costelas quebradas começaram a se ajustar, os cortes profundos em sua pele começaram a se fechar. Mas mesmo com a magia curando suas feridas externas, a escuridão dentro de Violet permanecia.
Quando terminou, Helena suspirou, os ombros caindo como se carregassem o peso de séculos.
— "Você tem muito mais dentro de você do que imagina, Violet Moonshadow," ela murmurou, levantando-se. "E é hora de descobrir o que você realmente é."
Quando terminou o cântico, Helena ergueu o corpo frágil da jovem com facilidade, como se ela não pesasse nada. A feiticeira olhou para o penhasco acima, os olhos estreitando-se com desprezo.
— "Lobos covardes," sussurrou. "Jogam fora o que não entendem. Mas você... você terá uma segunda chance."
Com Violet em seus braços, Helena desapareceu na escuridão da floresta, os galhos se fechando atrás delas como um portão natural.