Consequência

4625 Palavras
No dia seguinte eu consegui chegar no horário. Emily chegou e veio direto para a minha sala. - As fotos ficaram ótimas! – seu sorriso não cabia em seu rosto. - Achou mesmo? Achei meio bosta. – disse sem pique. - Hora de escrever a matéria. – ela se sentou na minha frente. – Tive ótimas ideias! Emily começou a falar sem parar, em um certo momento eu nem prestava mais a atenção. Minha cabeça estava na mensagem que eu tinha mandado pro louro na noite passada, ele ainda não tinha visto. Estava começando a ficar preocupada, Chaz também não tinha me dado notícias. Emily começou a dizer quais eram suas ideias e disse que eu precisava escrever. - Você entendeu como tem que ser? – ela disse por fim. - Sim, Emily. – disse com tédio. - Ótimo! Quero isso pronto ainda hoje. – ela se levantou e saiu dali. Abri o arquivo e comecei a escrever tudo o que ela tinha dito. Quando terminei me senti um ser humano terrível, como iria ter coragem de olhar para a cara do Justin depois disso? Acrescentei alguns detalhes, coisas que eu sabia sobre ele, sabia que Emily cobraria isso. Quando finalizei a matéria mandei por e-mail para a Emily. Se essa multa não existisse tudo seria diferente! Eu juro que teria feito diferente se pudesse voltar no tempo, mas não havia nada que eu pudesse fazer agora pra consertar isso. Eu não podia ter uma divida desse nível, eu realmente não tive escolhas. Estava tentando me convencer de que eu não queria magoá-lo, apesar de saber que essa nunca foi minha intenção. Mas estar contribuindo com uma matéria dessa era jogo baixo. Emily me deu parabéns umas 10 vezes depois de ter lido a matéria, ela estava feliz em destruir a imagem que o Justin tinha lutado para limpar. Ela estava contente em ter criado uma polêmica. Mais tarde naquele dia a matéria foi postada. Eu já estava em casa quando aconteceu, recebi a mensagem da Emily avisando mas não quis ler, não quis saber. Era terrível! Tomei meu banho, vesti meu pijama, peguei um pacote de bolacha e me sentei no sofá. Coloquei um filme pra ver e foquei nele, eu precisava ocupar a minha cabeça com qualquer coisa que fosse, recebi uma mensagem, peguei o celular rapidamente na esperança de que fosse o Justin, mas era Jen: Que matéria é aquela? Sério, vocês pegaram pesado! Como se eu não soubesse disso. Suspirei e larguei o celular. Foquei a minha atenção na tv, mas não demorou muito para que eu fosse interrompida por fortes batidas na porta, não queria ver ninguém. Mas a pessoa do outro lado da porta estava insistente. - Tá aberta! – disse alto. Eu meio que já sabia quem era. Vi por canto de olho o louro passar pela porta. - Podia ser um bandido, sabia? - Sabia que era você. – eu disse com os olhos fixos na tv Justin se sentou ao meu lado e bufou. - Você viu a matéria que saiu? – sua voz era calma. O olhei e uma culpa me dominou. Era isso que eu queria evitar, eu não ia conseguir agir como se nada estivesse acontecendo. Olhar pra ele agora me faz ter vontade de chorar. Sem conseguir dizer algo apenas neguei com a cabeça. Ele deu uma risada seca e tirou o celular do bolso, com a tela já desbloqueada e deu na minha mão. A página já estava aberta. Justin Bieber se envolve em briga com mulher no meio da rua. O cantor se envolveu novamente em confusão, dessa vez ele chegou a agredir uma mulher. Segundo fontes, o cantor e a moça estavam discutindo, os dois gritavam muito e em um determinado momento Justin pareceu se irritar e a segurou fortemente pelo braço, a chacoalhando, e só a largou quando pessoas próximas do local apartaram. Esse era o título e o sub título da matéria, que estavam bem destacados e chamativos. A matéria, que eu havia escrito, basicamente falava sobre o ocorrido de uma forma totalmente distorcida. O texto deixava claro o temperamento de Justin, e de como ele não sabia se controlar. E eu tinha escrito tudo isso. Não soava patético? Eu sabia que toda essa merda não passava de uma história inventada e armada pela Emily. Quando terminei de ler não tive coragem de olhar para o Justin. Ele olhava para um canto qualquer, e estava pensativo. Enquanto eu bancava a surpresa com o que acabara de ler. - Mais uma mentira inventada pela imprensa. – ele riu novamente. – Voltei a ser odiado por todos. Voltei a ser o garoto mimado que não mede as consequências dos próprios atos. Respirei fundo e mantive minha visão na tv, que era mais interessante do que encarar a minha realidade. Justin estava chateado, isso era visível, e com razão. - Quem era essa mulher afinal? – perguntei quando me dei conta de que eu ainda não tinha dito nada, e já haviam passado alguns minutos. - Era supostamente uma fã, esbarrei com ela na entrada do restaurante, ela veio toda animada me abraçar, e quando me dei conta ela estava gritando mentiras e mais mentiras sobre mim e a minha família. – ele soltou uma risada pelo nariz. - O que ela disse pra te fazer perder o controle dessa forma? – perguntei, entregando o celular pra ele. - Coisas que não valem ser mencionadas. – ele disse incomodado enquanto passava a mão pelo cabelo. Justin parecia meio desnorteado. Era como se ele ainda tivesse processando toda essa informação. Como se tivesse em uma espécie de negação. Suspirei. Ele se encostou totalmente no sofá e passou as mãos pelo rosto. - Tem noção da merda que isso é? – ele disse depois de um tempo em silêncio. – Quer dizer, foram meses para limpar a minha imagem totalmente, meses longe de confusão. Pra quê? Pra no final eu novamente sair como o culpado, e pior, ser acusado de algo que eu nem fiz. Parece absurdo pra você? – ele se levantou do nada e começou a andar de um lado para o outro. A ficha havia caído agora. - Justin, isso não é verdade. Quem te conhece, e curte seu trabalho sabe bem disso. Não tem com o que se preocupar. – eu disse numa tentativa falha de acalmá-lo. Era o que eu realmente pensava, mesmo sabendo que ele seria apedrejado por muita gente. - Você não sabe o que está falando! – ele negou com a cabeça. – Olha essas fotos! Nada do que eu disser vai consertar isso. Seu celular começou a tocar, ele o pegou. Assim que seus olhos leram o nome que piscava na tela ele bufou alto e deu uma respirada funda. Atendendo o aparelho logo em seguida. - Antes que fale alguma merda, eu já li tudo e a história não é bem aquela! – pausa. A pessoa do outro lado da linha parecia estar dizendo algo. – Aquela louca chegou falando um monte de mentiras, citando pessoas que não tem nada a ver com isso. – pausa novamente. – Eu não quero prestar esclarecimentos! Pede pra um dos assessores soltar uma nota. – pausa. – Eu nunca me justifiquei por nenhuma das merdas que fiz, não vou me justificar por algo que nem fiz! – pausa. – Não vou fazer nenhuma entrevista! – ele disse irritado. – Você não está me ouvindo! Eu não quero voltar agora, quero voltar no momento que as músicas estiverem prontas, pra divulgar meu trabalho. – pausa. – Por que dar tanta credibilidade para uma polêmica que a mídia fez questão de criar? Não precisa disso cara. Me encolhi no sofá abraçando meus joelhos. Abaixei a minha cabeça e fiquei imóvel ali, enquanto ouvia a discussão do Justin se tornar pior, com quem quer que fosse as coisas não estavam nada bem. Saber que eu tinha minha parcela de culpa em tudo isso me deixava ainda pior, bom seria se eu não estivesse tão próxima assim dele, que eu não tivesse que ver de perto toda a merda que aconteceria após a minha maldita matéria. Um barulho alto soou pelo meu apartamento, no reflexo ergui a minha cabeça assustada. O Justin estava de costas para mim, seus punhos estavam fechados e um pouco distante dele havia um celular em pedaços. Ele havia tacado o celular na parede. Justin bufou alto e se manteve de costas, conseguia ver pelo o seu movimento que sua respiração estava acelerada, acelerada demais. Com calma me levantei e fui até ele em passos lentos, encostei minha mão levemente em seu ombro, ele deixou escapar um suspiro. - Eu estava me recuperando bem. – ele disse como um sussurro. – E agora, tudo foi jogado fora por conta de uma maldita matéria. Não é só a merda da minha imagem que está em jogo, é a minha saúde também. Parei em frente dele e segurei em seu rosto, Justin estava com o rosto vermelho, e todas as suas veias do pescoço estavam saltadas. - Eu estou com você! – eu disse baixo, segurando o choro que estava preso em minha garganta. Meu cérebro gritava para mim a todo instante o quanto eu era patética, e falsa. Eu tinha causado isso! Aos poucos sua respiração foi ficando calma, ele não tirava os olhos de mim. - Vou ter que fazer algumas entrevistas, e eu odeio fazer entrevistas! - Faz parte do seu trabalho, você tira de letra. – disse num tom mais descontraído, e dei um soco leve em seu ombro. - Não é tão fácil como parece, eu sei como isso vai acontecer. – ele soltou uma risada. – Eles virão com suposições absurdas de que aquela garota era algo minha, vão fazer perguntas pra fazer parecer que eu estou mesmo descontrolado. Já posso imaginar o quanto eles vão fazer dessa história a pior de todas, eles vão fazer parecer que eu sou um monstro. - Justin, você sabe o que aconteceu lá. - Isso não interessa. Não importa o quanto eu saiba, a imprensa não se importa com a verdade, Lucy. Eles se interessam apenas pela história que vende mais, e veja só, a história que vende mais é essa, que eu sou um merda que bate em uma mulher. – ouvi quando ele bufou. O louro se afastou de mim e se jogou no sofá. Me virei para olhar pra ele, enquanto via seu olhar distante. Justin parecia perdido. - Esse mundo adoece a gente. E tem pessoas que almejam por isso, tem gente que não sabe o que deseja. – ele disse baixo. - Não diga isso! – me aproximei dele rapidamente, e me sentei ao seu lado. – Graças a esse mundo você foi reconhecido mundialmente pelo o seu trabalho, as pessoas te amam, te admiram. Pense no lado bom disso tudo! - Eu sei, eu deveria ser grato. Apesar de não parecer, eu sou muito feliz por tudo que conquistei, mas acho que tenho que pagar um preço muito alto por isso, não sei se vale tanto a pena no final. Ele suspirou e olhou pra um canto qualquer. Fiquei quieta, não tinha nada em mente para dizer, nada que fosse realmente ajudar. Justin se levantou, seu olhar perdido ainda estava ali. - Melhor eu ir. – ele disse sem me olhar caminhando até a porta. - Você vai ficar bem? – levantei e me virei para ele. - Ficar bem não é uma opção. – ele me olhou por um breve momento, abriu a porta e saiu, a fechando em seguida. Soltei o ar que nem sabia que estava preso enquanto meus olhos começavam a lacrimejar. Que merda eu tinha feito afinal? (...) Os dias estavam se passando rapidamente, eu não precisava mais ir até a revista, mas todos os dias recebia mensagens da Emily me dizendo onde determinados famosos estavam, eu estava tirando todas as fotos que ela pedia, sem discutir. O que me fazia passar praticamente o dia inteiro fora de casa andando atrás de famosos. Seu método tinha mudado completamente, não existia mais aquela história de ir atrás de um famoso em específico, e nesse momento percebo que a única pessoa que ela realmente queria queimar era o Justin. E falando nele, Justin tinha sumido, eu o mandava mensagens todos os dias, e não tinha nenhuma resposta dele. Ele também não atendia minhas ligações. Por um lado o entendia, ele precisava de um tempo só pra ele. O dia tinha sido exaustivo, tinha acabado de chegar em casa. Joguei minha bolsa e a câmera no sofá, me jogando nele logo depois. Soltando um alto suspiro. O celular vibra em meu bolso, o pego vendo uma mensagem da Jen: Liga a tv no canal 120. Franzi o cenho, e mandei um ok. Peguei o controle e liguei a tv, indo direto para o canal que ela tinha indicado. Me surpreendi ao ver o Justin ali, rapidamente me ajeitei no sofá e aumentei o volume. Justin estava sentado em um sofá, de frente para um entrevistador. - Você esteve tranquilo durante um longo tempo, todo mundo já estava se acostumando com essa nova fase. O que aconteceu? – o entrevistador perguntou tranquilo.  O loiro deu um longo suspiro acompanhado de um pequeno sorriso, que era falso. Talvez as pessoas nem notassem, mas quem o conhece sabe bem. - Não aconteceu nada. – ele disse calmo.  O entrevistador o olhou curioso, acho que ele esperava que o Justin dissesse mais alguma coisa, mas ele não disse. Logo as fotos que eu tinha tirado, apareceram em um telão enorme atrás deles. Justin desviou os seus olhos para ele e passou a mão levemente pela cabeça, ele estava se controlando ali. - Justin, me desculpe. Mas essas fotos me parecem bem objetivas, quer nos contar o que estava acontecendo ali? Justin negou com a cabeça levemente. - Vocês não acreditariam se eu dissesse. - Te chamamos aqui porque estamos interessados em ouvir a sua versão, queremos que nos diga o que aconteceu ali. O loiro pareceu refletir um pouco, e logo abriu a boca.   - Essa moça me parou na entrada do restaurante e começou a dizer coisas legais, como o quanto admirava o meu trabalho. Mas depois ela começou a me ofender, e ofender outras pessoas que eu amo. Eu perdi a cabeça. – Justin disse sincero.  - Então você quer dizer que não conhece essa garota? – o tom do entrevistador já não era tão tranquilo quanto antes, parecia um pouco acusatório na verdade. - Não, obviamente eu não a conheço. – Justin disse num tom mais severo. - De acordo com algumas pessoas que estavam no local no momento da agressão, a garota agredida disse que te conhecia. - Todo mundo me conhece. – ele disse o óbvio. – Não significa que eu a conheça. - O que ela te disse? - Isso não vem ao caso. - Você sabe que a vítima optou por não prestar queixa contra você? - Sei. – Justin disse rude. - Depois de tantas polêmicas o que espera que as pessoas pensem sobre essas fotos? - Não espero nada. – podia ver a paciência do Justin se esgotando. – As pessoas têm direito de interpretar o que quiserem do que viram, isso não muda o que aconteceu ali. – ele apontou para o telão onde ainda mostrava as fotos. - O que aconteceu ali já está meio visível, você agrediu aquela moça. A pergunta que não se cala é, por quê? - As vezes temos motivos bons para atitudes idiotas. – Justin disse e negou, deixando claro que não tinha mais nada a dizer. O entrevistador soltou um suspiro e pegou uma folha em cima de sua bancada. Ele não estava satisfeito com a entrevista, não tinha conseguido nada de muito útil. Ele olhou diretamente para a câmera. - Bom, ficamos por aqui, essa foi a entrevista com o Justin Bieber. – pude ouvir várias palmas, provavelmente do auditório. – Voltamos no próximo bloco com o próximo entrevistado da noite, voltamos já! – ele sorriu e o programa entrou no comercial. Bufei, aquela entrevista tinha sido péssima!! Peguei meu celular que estava jogado ao meu lado e disquei o número da Jen, chamou só uma vez antes que ela atendesse. - Foi péssima, não foi? – foi o que eu disse antes de dar a chance dela dizer algo antes. - Sim, Justin estava visivelmente desconfortável e não disse nada que justificasse de fato aquelas fotos, o que vai dar espaço pra imprensa escrever o que bem entender disso. – ela disse e deu um suspiro. - Isso tudo é culpa minha. – digo baixo. - Diz a verdade pra ele, Lucy. Diz que foi você que tirou as fotos. - Eu não posso fazer isso, Jen. - Por que não? - Porque se eu disser eu perco ele. – meu tom de voz é triste. - Mas se não disser vai ficar se torturando com isso. - Jen, é tarde pra consertar essa merda. - A matéria precisava mesmo ser daquele jeito? – sentia que essa era a pergunta que ela queria ter feito desde o dia que a matéria foi pro ar, mas só teve coragem de perguntar agora. - Eu escrevi uma versão mais tranquila, que não o magoasse tanto. Mas a Emily não deixou ser postada. - Ainda não acredito que você foi capaz de ser manipulada dessa forma. – ela parecia irritada. - Do que você está falando? – esse assunto estava começando a me estressar. - Do que eu estou falando? Pelo amor de deus, Lucy. Você não é essa pessoa, você jamais prejudicaria alguém, principalmente alguém de quem você gosta, por chantagem nenhuma! Você deixou que Emily te manipulasse e continua deixando. - Você sabe que eu não tive escolhas! – respondo irritada enquanto aperto fortemente o aparelho na minha mão. - Você sempre teve escolhas, Lucy! E ainda assim optou pelo pior. - Você sabe da multa, Jeniffer. Sabe que eu não tinha como pagar. – bufo alto. – Eu não tenho a grana que você tem, não sou rica!  - Você sabe que podia ter feito tudo diferente.   - Não, eu não podia. Porque eu estava passando dificuldades, eu precisava do dinheiro! - Não é disso que estou falando, Lucy. Estou falando que você podia ter mudado isso. - Ah, é? Então me diz como? - Dizendo pro Justin a verdade, tenho certeza que ele pagaria sua multa. - E depois? Como eu ia me sustentar? - Ele ia te ajudar, eu podia ajudar. - Isso é o mundo real, e no mundo real as pessoas tem as suas próprias dívidas para pagar, para ficar se preocupando com os meus problemas. Eu me enfiei nisso, não tem porque você, ou qualquer pessoa se preocupar. - Você tem noção que pode perder alguém que é importante pra você por causa do seu orgulho? - É tarde demais para pensar nisso, não acha? - Podia ter sido diferente. – ela disse baixo. - Sim, mas não foi. Vou desligar, preciso dormir. - Lucy. – ela chama baixo. - Amanhã nos falamos. Finalizo a ligação. Tinha odiado essa conversa, odiado as acusações dela. A verdade é que Jen estava m*l com a própria vida e queria que eu me sentisse m*l também, mas não preciso de ajuda pra isso. Minha consciência já faz todo o trabalho sozinha, e eu estou cansada. Cansada de toda essa merda, e cansada das minhas próprias escolhas. P ego a minha bagunça e vou pro meu quarto. Coloco a câmera em cima do criado mudo, e guardo a minha bolsa. Vou tomar uma ducha, e já saio do banheiro com o meu pijama no corpo.  Me jogo na cama e não demoro muito para cair no sono. Ouço fortes batidas, por um momento penso que é só um sonho, mas elas se tornam mais fortes, me fazendo despertar. Ergo o meu corpo com muita preguiça e olho em volta, me sinto perdida. Levanto da cama com cautela e vou até a porta, ouvindo as batidas mais fortes do que antes. Que merda! Olho no relógio que estava na parede de minha cozinha vendo que já havia passado das 3hrs da madrugada. - Lucy? – alguém grita do lado de fora. Esfrego os meus olhos e abro a porta, vendo um louro completamente apoiado no batente da minha porta, ele estava péssimo. - Justin, o que você est...- m*l tenho chance de concluir minha frase já que o loiro praticamente se joga em cima de mim. Ele me abraça forte, enquanto sinto todo o seu peso recair sobre mim, eu não aguentaria em pé por muito tempo. Sua roupa cheirava a cigarro e a bebida, o que me causou uma certa náusea. O cheiro estava bem forte. - Minha vida é uma merda! – ele diz alto o suficiente para que todo o meu prédio ouça. Entro em desespero, meus vizinhos já não eram grandes fãs meus, eles não iriam gostar nada de acordar no meio da madrugada por causa de um grito de um amigo meu. Seria um motivo a mais para me odiarem, na verdade seria o único motivo compreensível. - Você é muito pesado. – digo sentindo minhas forças irem pelo ralo, eu ia cair em segundos. Ele percebe que eu não tenho força o bastante para aguentar o peso que ele coloca em mim, e logo me solta. Vejo ele cambalear até o meu sofá e se jogar ali, como se tivesse mesmo em sua própria casa. Suspiro e tranco minha porta. - Justin, por que raios você encheu a cara? – pergunto estressada. Além dele atrapalhar meu sono, me daria um trabalho gigantesco. - Pra esquecer toda essa merda! – ele diz alto e embolado. Engulo seco. Isso tudo era por causa da maldita matéria. Caminho lentamente até ele. - Vem, você precisa de um banho. – estico a mão para que ele pegue. Seu olhar fica vago, e ele parece estar preso no próprio mundo. Pego na mão dele e o puxo com toda a força que tenho, ele se levanta e se apoia em mim. Vamos em direção ao meu banheiro, coloco ele no box, vendo ele me olhar perdido. Justin estava chapado demais pra entender o que estava acontecendo ali, bufei e tirei a sua camisa. - Seria bom se você tirasse a sua calça. – digo séria. Pensando que se Justin estivesse em seu estado normal, teria facilmente distorcido essa frase. Vejo o louro se movimentar, ele começa a tirar a calça, o que me faz desviar os olhos rapidamente, não queria ver essa cena. Logo vejo seu braço tatuado esticado bem em minha frente, ele segurava a calça na mão e estava me entregando. Pego a calça e a coloco em cima de um dos armários. Com os olhos fixos no chuveiro, ligo o registro, checando se a água estava gelada o suficiente. Justin se senta no chão do box, e fica todo encolhido ali enquanto a água bate em seu corpo, ele estava péssimo! - Tá frio. – ele diz baixo e me olha, seu lábio está roxo e treme bastante. Do nada surge algumas cenas na minha mente, do dia em que bebi. Me lembro de como o Justin cuidou de mim, do banho que ele me deu. Ele entrou no chuveiro comigo porque eu não estava aguentando a temperatura da água. Sinto que agora é o meu momento de retribuir isso. Entro no box com o meu pijama mesmo, que era só um shorts e uma regata. Me sentei de frente pra ele sentindo a água gelada bater em meu corpo, já estava sentindo frio. Seguro na mão do loiro, e ele a aperta como resposta. - Por que você bebeu desse jeito? – sussurro, enquanto sinto todo o meu corpo tremer. - Eu estraguei tudo! – ele me olha nos olhos e vejo seus olhos lacrimejarem. – Você acredita em mim? - Acredito. – respondo sem nem precisar pensar. - Acredita mesmo? Ou acha que eu realmente seria capaz de machucar uma mulher? Eu juro que nem cheguei a apertar seu braço, juro que..- ele parecia desesperado quando parou de falar do nada. - Justin, eu sei. – passo uma de minhas mãos em seu cabelo, o tirando do rosto. Ele fecha os olhos por um momento. - Acho melhor sairmos desse banho, você parece menos embriagado agora. – digo baixo e me levanto. Fecho o registro e saio do box, vendo o loiro levantar aos poucos. Pego uma toalha, e espero ele sair do box. - Senta aqui. – indico o vaso sanitário. Não ia conseguir ajudá-lo com ele em pé. Ele se senta e eu começo a secar seu cabelo, Justin parece estar em um transe, a bebida deixa ele estranho e eu não gosto dessa versão. Quando começo a secar seu rosto, ele segura minha mão, me fazendo parar na hora. O encaro. - Você gosta de mim, Lucy? – sua pergunta sai baixa. Demoro alguns segundos para entender o que ele quer dizer. - Claro, você é gente boa. – digo divertida, a verdade é que essa pergunta me deixava desconfortável, faria qualquer coisa para mudar o foco dessa conversa. Ele fica em silêncio por um curto tempo, mas o que ele diz quando abre a boca me faz paralisar. - Eu gosto muito de você! Penso em milhares de respostas que eu poderia dar a sua afirmação, mas nenhuma delas parecem boas o bastante, porque essa frase tem tantos sentidos, como vou saber de qual sentido ele está falando? Calma, Lucy. Ele gosta de você só como amiga, não tem com o que se preocupar. Passo tempo demais em silêncio, Justin nota que tem algo errado, afinal ele só está bêbado, não é i****a. - Eu gosto de você de verdade. – ele dá ênfase em sua afirmação passada. Sinto um frio percorrer por toda a minha espinha, que merda! Do que ele tá falando? Justin não pode estar apaixonado por mim, isso é impossível! A bebida tá mexendo com a sua cabeça.   - Acho melhor você se secar sozinho agora, preciso me trocar. – digo rápido. Visivelmente desconfortável.   Ele assente e pega a toalha da minha mão, o loiro parece chateado com a minha reação. Saio do banheiro o mais rápido que posso, e só quando estou fora de seu alcance solto o ar que nem sabia que estava prendendo. Não que seja r**m Justin gostar de mim, talvez isso seja recíproco. Mas nós dois não podemos sentir nada um pelo o outro, não quando eu o prejudico. Justin deixaria esse sentimento de lado no mesmo instante se soubesse da verdade, é bom que ele não alimente nada agora. Troco a minha roupa rapidamente e espero o loiro sair do banheiro, ele sai seco e vestido. - Acho que eu não devia ter vindo aqui. – ele parece sóbrio agora, e chateado. - Não diga isso! Fico feliz que tenha vindo, significa que eu sou importante. – digo brincalhona. O clima estava tenso ali. Ele apenas assente sério. - Como a Jen não está mais aqui, você pode dormir no quarto de hóspedes. – digo e passo a mão pelo meu cabelo, estava tensa. - Tudo bem. – ele se limita a dizer isso. Assinto e mostro pra ele onde é o quarto, Justin entra nele e se joga na cama, sem me dar chance de dizer nenhuma palavra. - Boa noite. – ele diz, e logo enfia a cara no travesseiro. - Boa noite. – fecho a porta e saio dali. Era oficial, Justin estava chateado comigo.
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