Minha sala estava silenciosa demais quando me sentei de volta à cadeira, girando levemente para encarar a janela de vidro que dava vista para parte da cidade. O sol já estava mais alto, refletindo nos prédios ao redor, e eu tentava organizar mentalmente tudo o que ainda precisava fazer naquele dia. m*l tive tempo de abrir o arquivo no computador quando a porta se abriu sem aviso prévio — algo que, curiosamente, não me irritou dessa vez.
— Posso entrar? — Camille perguntou, com um sorriso empolgado, segurando uma pasta grossa contra o peito.
— Claro que pode — respondi, endireitando a postura. — Estava esperando você.
Ela fechou a porta atrás de si e veio até minha mesa, espalhando os desenhos com cuidado, como se estivesse revelando um tesouro. E, de certa forma, era exatamente isso. Meus olhos percorreram cada traço, cada curva delicada, cada detalhe pensado com carinho e precisão. As joias estavam ainda mais bonitas do que eu imaginava. Havia algo nelas que ia além do luxo, algo que transmitia sentimento, história, identidade.
— Eu refinei alguns detalhes — Camille explicou, apontando para um dos esboços. — Pensei no formato do pingente como uma gota de luz, algo que lembrasse o olhar da Clara.
Sorri, sentindo o peito aquecer.
— Está perfeito — falei com sinceridade. — É exatamente isso. Delicado, forte e único.
Ela abriu outro compartimento da pasta e tirou as anotações do perfume. As combinações estavam ali, cuidadosamente descritas: notas florais suaves, um fundo levemente amadeirado, algo que permanecesse na pele sem ser invasivo. Peguei o papel, lendo com atenção, já imaginando o cheiro, a sensação, a memória que ele deixaria.
— Acho que conseguimos — disse, por fim. — Não é só uma joia. Não é só um perfume. É uma homenagem.
Camille assentiu, visivelmente emocionada.
— A Clara vai amar. Tenho certeza.
Passamos mais algum tempo ajustando pequenos detalhes, discutindo possibilidades, trocando ideias. Era nesses momentos que eu me sentia completamente no lugar certo. Criar ao lado da Camille era fácil, leve, natural. Quando finalmente salvamos os arquivos e organizamos tudo, ela fechou a pasta com cuidado e respirou fundo.
— Preciso ir — disse. — Prometi passar na casa da minha mãe. A Sofia anda meio cansada esses dias.
— Claro — respondi. — Manda um beijo pra ela.
Ela se aproximou e me abraçou rapidamente, antes de sair apressada, deixando para trás um rastro de perfume leve e a sensação boa de dever cumprido. Fiquei sozinha novamente, encarando os desenhos sobre a mesa, até que ouvi passos firmes do lado de fora. Antes mesmo de bater, a porta se abriu.
Arthur.
Ele entrou com aquela expressão séria de sempre, terno impecável, olhar avaliador, como se estivesse constantemente julgando tudo ao redor.
— Já terminou os desenhos com a Camille? — perguntou, direto, sem sequer cumprimentar.
— Boa tarde pra você também — respondi, cruzando os braços.
Ele suspirou, impaciente.
— Estou falando sério, Victoria. Isso é importante.
— Sim, Arthur. Terminamos — disse, tentando manter a calma. — Está tudo pronto.
— Espero que sim — retrucou. — Porque não podemos nos dar ao luxo de atrasos por capricho.
Senti o sangue ferver.
— Capricho? — repeti, levantando da cadeira. — Você faz ideia do trabalho que isso deu?
— Não se faça de vítima — ele respondeu, seco. — Você sempre teve tudo na mão. É fácil brincar de designer quando se é mimada.
Foi o suficiente.
— Mimada? — dei uma risada incrédula. — Engraçado você falar isso, vindo de alguém que acha que pode mandar em todo mundo só porque é ignorante e arrogante.
O maxilar dele se contraiu.
— Cuidado com o tom — disse, aproximando-se um passo. — Eu sou o CEO desta empresa.
— E eu não sou sua funcionária submissa — rebati. — Sou parte disso tudo, goste você ou não.
Ele me encarou por alguns segundos, os olhos escuros cheios de algo que eu não soube definir. Raiva? Surpresa? Talvez os dois. Sem dizer mais nada, virou-se e saiu, batendo a porta com força suficiente para ecoar pelo corredor.
Respirei fundo, tentando me recompor. As horas passaram lentamente depois disso. Trabalhei em silêncio, revisei documentos, organizei minha agenda. Quando percebi, já estava escuro lá fora. Olhei o relógio e decidi ir embora. Peguei minha bolsa, apaguei as luzes da sala e segui para o estacionamento.
Foi só quando cheguei perto do carro que percebi algo errado. Abaixei-me um pouco e vi o pneu murcho. Suspirei, passando a mão pelos cabelos.
— Ótimo — murmurei.
Estava prestes a pegar o celular para ligar para o seguro quando ouvi passos atrás de mim.
— Problemas? — a voz dele perguntou.
Virei-me e encontrei Arthur ali, parado a poucos metros, as mãos nos bolsos do paletó.
— Pneu furado — respondi, sem encará-lo.
— Quer carona? — ele perguntou, depois de alguns segundos.
Hesitei. Tudo em mim dizia para recusar. Mas o cansaço venceu o orgulho.
— Quero — respondi, por fim.
Ele assentiu e caminhamos em silêncio até o carro dele. Talvez aquela fosse apenas uma carona. Ou talvez fosse o começo de algo que eu ainda não conseguia imaginar.
O silêncio dentro do carro era pesado, quase palpável. Arthur dirigia com uma mão firme no volante, o olhar atento à estrada, enquanto eu observava a cidade passando pela janela, iluminada por postes e vitrines elegantes. Nenhum de nós parecia disposto a puxar assunto, e confesso que parte de mim agradecia por isso. Depois da discussão na empresa, tudo o que eu queria era chegar em casa, tomar um banho quente e esquecer aquele dia.
— Você já jantou? — ele perguntou, quebrando o silêncio de repente.
— Não — respondi automaticamente. — Mas vou comer em casa.
Ele fez um som baixo, algo entre um suspiro e um riso contido.
— Quer jantar comigo?
Virei o rosto lentamente em sua direção.
— Não, Arthur. Obrigada pela carona, já é o suficiente.
Ele não respondeu. Apenas continuou dirigindo, e por alguns minutos achei que tinha sido ouvida. Até que percebi que ele reduziu a velocidade e sinalizou para entrar em uma rua que eu conhecia bem demais.
— O que você está fazendo? — perguntei, franzindo a testa.
— Indo jantar— respondeu, simples.
— Eu disse que não queria.
— Eu ouvi — disse ele. — Só não concordei.
Revirei os olhos, cruzando os braços.
— Você é impossível.
— Você já me disse isso hoje — retrucou.
O carro parou em frente a um restaurante elegante, de fachada discreta, mas claramente sofisticado. Um daqueles lugares que Arthur frequentava com naturalidade, como se fosse parte do seu território. Desci contrariada, ajustando o casaco, enquanto ele entregava a chave ao manobrista com a confiança de quem estava acostumado àquele ambiente.
Entramos juntos. O aroma de comida quente e vinho bom preencheu meus sentidos, e apesar da minha resistência inicial, meu estômago traiçoeiro resolveu roncar baixo, denunciando que eu estava, sim, com fome. Arthur lançou um olhar de canto, quase um sorriso imperceptível no canto da boca, mas não comentou nada.
Fomos conduzidos até uma mesa mais reservada, com luz suave e uma vista agradável do salão. Sentei-me, mantendo a postura, decidida a não facilitar nada para ele. O garçom se aproximou rapidamente, educado e discreto.
— Boa noite. Gostariam de ver o cardápio ou já sabem o que pedir?
Arthur pegou o cardápio com naturalidade, enquanto eu fazia o mesmo, ainda que soubesse que acabaria escolhendo qualquer coisa só para encerrar aquilo logo.
— Um vinho tinto, por favor — Arthur disse. — O da casa.
— Para mim, água — acrescentei.
O garçom assentiu e se afastou.
— Você não facilita mesmo — Arthur comentou, apoiando o cotovelo na mesa.
— Eu não pedi para estar aqui — respondi, sem olhar para ele.
— Pediu carona- ele me fala com um sorriso debochado
— Eu não pedi carona, você que me ofereceu, e não incluia jantar forçado.
Ele sorriu de leve, balançando a cabeça.
— Você é teimosa.
— E você é controlador.
— CEO — corrigiu.
— Ignorante — completei.
Ele soltou uma risada curta, surpreendendo-me.
— Você não perde uma oportunidade, não é?
— Aprendi observando você.
O vinho chegou, servido com cuidado. Arthur agradeceu, e o garçom se afastou novamente. Ele serviu duas taças, empurrando uma em minha direção. Olhei para o líquido rubro por alguns segundos antes de suspirar e aceitar.
— Só um pouco — avisei.
— Claro — ele disse, sem discutir.
Bebemos em silêncio por alguns instantes. O ambiente parecia relaxar lentamente, como se o clima pesado do escritório tivesse ficado para trás. Arthur foi o primeiro a quebrar o silêncio dessa vez.
— Você realmente gosta do que faz — disse, apoiando-se na cadeira. — Dá para perceber.
— Gosto — respondi. — Não estaria ali se não gostasse.
— Mesmo com tudo?
— Mesmo com você.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Tão gentil.
— Realista.
O garçom voltou para anotar o pedido. Arthur escolheu com rapidez. Eu pedi algo simples, sem muita cerimônia. Quando ficamos sozinhos novamente, a conversa tomou um rumo inesperado.
— Camille falou muito bem do projeto — Arthur comentou. — Disse que você teve ideias brilhantes.
— Ela exagera.
— Não parece.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, surpresa com o tom menos hostil.
— Clara merece algo especial — respondi. — Ela é uma mulher incrível.
— É — ele concordou. — Poucas pessoas sabem disso.
— Eu sei — disse, sorrindo de leve. — Ela me trata como se eu fosse da família.
Arthur me observou com atenção, como se estivesse me vendo pela primeira vez.
— Você não é o que eu imaginei — ele disse, por fim.
— Nem você — retruquei.
A comida chegou, interrompendo aquele momento estranho de quase entendimento. O aroma era delicioso, e pela primeira vez desde que saí da empresa, senti meu corpo relaxar de verdade. Comemos devagar, trocando comentários aleatórios sobre viagens, gostos musicais, pequenas implicâncias do dia a dia. Nada profundo demais, nada pessoal demais. Apenas o suficiente para mostrar que, apesar de tudo, éramos capazes de coexistir sem guerra.
— Você dirige bem — ele comentou de repente.
— Obrigada, mas como você sabe — respondi. — Meu pai insistiu que eu aprendesse cedo.
— Ele fez bem, eu sei porque eu vi você e o Benicio indo pra empresa- ele respondeu simples
— Nem sempre concordo com ele, mas nisso ele acertou.
Arthur assentiu, pensativo.
— Família é complicada.
— Muito.
Nossos olhares se cruzaram por um segundo a mais do que o necessário, e senti algo estranho, uma tensão silenciosa, diferente da raiva habitual. Desviei o olhar, concentrando-me na comida, tentando ignorar a sensação.
— Não precisa agradecer pela carona — ele disse, quebrando o clima. — Foi o mínimo.
— Mesmo assim — respondi. — Obrigada.
Ele apenas inclinou a cabeça, aceitando.
Quando terminamos, o garçom recolheu os pratos e trouxe a conta. Arthur pagou antes que eu pudesse protestar, ignorando completamente minha tentativa de argumentar. Levantamos juntos, caminhando até a saída em silêncio.
Do lado de fora, o ar frio da noite me envolveu, e por um instante pensei que aquele jantar improvável talvez tivesse sido o começo de algo diferente. Não necessariamente bom ou r**m. Apenas diferente.
Entramos novamente no carro, e enquanto ele dirigia em direção ao meu apartamento, percebi que, pela primeira vez, Arthur não parecia apenas o CEO arrogante que adorava me provocar. Havia algo mais ali. Algo que eu ainda não estava pronta para entender.
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