DOIS MESES SE PASSARAM E EU JÁ ESTAVA ACOSTUMADA COM A VIDA DE PRINCESA. Pela manhã eu estudava com Brianna, às vezes no castelo e às vezes na biblioteca, já que meu pai havia contratado ela como minha tutora, e pela tarde, minha mãe me ensinava protocolos e etiquetas. Nós tivemos alguns pronunciamentos, encontros de estado, meu pai está sempre indo para as conferências da Ordem dos Sete Reinos.
Nesses dois meses eu aprendi que existe algo chamado “Ordem dos Sete Reinos”, que é composta pelos reinos Dork, Artêmia, Alaspora, Sarporia, Harbor, Thea e Dracônia. Os membros da Ordem são os Reis de cada reino e meu pai é o líder.
Eu não conhecia nenhum dos membros ou suas famílias, mas Thuban me disse que no jantar de hoje tinha uma proposta para mim e que, se eu concordasse, teria a chance de conhecer a todos.
Hoje era um dos dias que eu podia trazer Victoria para ficar comigo. Uma sexta-feira.
— Sabe, amiga, eu adoro quando você me traz para cá, e às vezes desisto de voltar para o Continente. – Victoria falou enquanto vestia um vestido dourado que gostava de usar quando ia me visitar – Quero dizer, pra Terra.
— Só draconianos falam Continente. Acho que você está em transição. – Eu ri e ela franziu a testa, fingindo estar brava – Meu pai tem uma proposta séria para me fazer hoje no jantar.
— Opa, então talvez seja melhor eu não comer com vocês. – ela sugeriu, deitando na minha cama.
— Na verdade, ele requisitou sua presença.
— Que honra! Requisitada pelo próprio Rei de Dracônia. Eu estou com tudo em cima. – Ela deu um beijo em seu ombro e eu caí na gargalhada – Ei, o que você prefere ser? Princesa ou guerreira?
Eu nunca tinha parado para pensar nas opções, mas o fato é que eu nunca fui muito menininha e cheia de frescuras. Servia muito melhor como guerreira.
— Acho que prefiro ser... Cavaleira de Dragão. – Eu sorri e ela revirou os olhos.
Ouvimos alguém bater na porta do quarto.
— Sim? – Eu respondi.
— Perdoe-me, Alteza, mas o jantar está servido. – Uma voz feminina anunciou e nós andamos até a porta.
— Obrigada, estaremos lá em um segundo. – Eu sorri para a camareira, ela reverenciou e saiu.
— Podemos ir, Alteza. – Victoria enrolou a língua para falar e eu lhe empurrei. Caminhamos pelos corredores calmamente até chegarmos ao salão de banquetes.
— Boa noite a todos. – nós duas falamos ao sentar na enorme mesa.
— Minha filha, gostaria de ouvir minha proposta agora? – Thuban perguntou, assim que começamos a comer.
— Absolutamente, meu pai.
— Ao leste da costa de Dracônia há um reino-ilha chamado Aldegan. É pequeno, governado por um Lorde Fitzherbert. Ele é um Lorde de Dracônia escolhido. Aldegan não tem nada de especial, exceto por uma coisa: a Escola Real.
Eu me engasguei com um grão de arroz e minha mãe soltou uma risada comportada.
— Você quer me mandar para uma escola de Princesas? – Eu indaguei, assim que me livrei do grão de arroz.
— Eu sempre me orgulharei de seu raciocínio rápido, Aurora. – Ele limpou a garganta – A Escola Real é uma instituição que educa jovens Príncipes e Princesas a como se comportam no ambiente da realeza.
— Entendi. E você quer que eu vá? – Perguntei, calmamente.
— Eu gostaria. Claro que o ensino deles é de primeira e seria ótimo para você, mas meu principal motivo é pela tradição. – Ele entrelaçou os dedos das mãos uns nos outros e me encarou – Keelien e eu a frequentamos na sua idade, meu pai, o pai dele, enfim...
— Eu entendi. – Olhei para meu prato, ponderando – Está bem. Suponho que seja um internato?
Ele concordou.
— Está bem. Eu vou. – eu sorri e ele devolveu o sorriso, contente – Quando podemos ir?
— O semestre começa segunda de manhã, domingo à noite tem a recepção, então eu suponho que... – ele olhou para minha mãe, procurando resposta e olhou para mim de volta – Sábado. Amanhã.
Eu concordei e assim que o jantar acabou, eu e Victoria voltamos correndo para o quarto.
— Meu Deus, que demais! Você vai para uma escola de Príncipes e Princesas! – Ela subiu na cama e começou a pular.
— Eu sei! Isso é demais! Preciso começar a arrumar as malas.
Ela concordou e nós passamos grande parte da noite arrumando as malas.
Pela manhã, eu e Victoria passeamos pelo reino e após o almoço, eu, ela, Hélio, Luna, Estella e meus pais subimos nos dragões em direção ao reino-ilha Aldegan.
Era um lugar belo e cheio de paisagens. Me lembrava muito Dracônia, talvez pelo fato de ser governada por um draconiano.
Havia dois castelos, um de tamanho pequeno com uma bandeira e um estandarte na parte de fora e outro, bem no centro, de tamanho médio e um letreiro no portão central que dizia: Escola Real. Meu coração bateu mais forte.
Nós pousamos no pátio do castelo, eu desci as malas e os dragões se dispersaram.
Estarei por perto. Me chame se precisar.
— Bem-vindos à Fortaleza de Escamas, posso ajudá-los? – Um senhor bem-vestido e com uma prancheta e uma pena veio até nós e se dirigiu ao meu pai.
— Olá, eu sou o Rei Thuban, de Dracônia. Essa é minha esposa, Rainha Elizabeth, minha filha, Princesa Aurora, sua amiga e os Guardiões. – Meu pai falou e o homem se curvou a todos nós e eu percebi que ele começou a tremer – Creio que sabiam da nossa chegada.
— Certamente, Majestade. Lady Fitzherbert está à sua espera. Por favor, acompanhem–me. – Ele liderou o caminho pelos corredores vazios do castelo até um gabinete onde havia uma senhora pouco mais velha que minha mãe. Victoria e os Guardiões esperaram do lado de fora – Com licença, milady, o Rei Thuban, a Rainha Elizabeth e a Princesa Aurora.
— Bem-vindos a Aldegan. – Ela se ergueu e sorriu com uma reverência a todos – Que prazer em revê-los, meus amigos.
— O mesmo a você, Eliana. – Minha mãe sorriu e abraçou a diretora da escola. Entendi. Elas eram amigas íntimas.
— Minha nossa, esta é a Princesa Aurora de quem eu tanto ouvi falar? – Ela andou até mim e passou a mão em meus cabelos – Se parece com você, Thuban. Se parece muito com você.
— Realmente, Eliana. – Meu pai sorriu, pomposo.
— Qual é a sua Legião, Alteza? – Ela sorriu para mim.
— Sou Guardiã da Legião do Fogo, milady. – Eu falei e ela olhou fundo em meus olhos verdes, incrédula – E qual é a sua Legião?
— Legião da Vida. – Ela respondeu – Perdão, você disse que é Guardiã da Legião do Fogo, Alteza?
— Sim, milady.
— Isso é... Extremamente raro. Você certamente deve ser uma jovem muito especial. – Ela sorriu para mim – Bem-vinda à Escola Real de Aldegan. Amanhã ao pôr do sol, será feita a recepção e seus pais estarão presentes, assim como todos os Reis e Rainhas, representando seus filhos e filhas.
— E o meu dragão? O que vai acontecer com ele? – Eu perguntei.
— Temos um galpão e uma arena nos domínios da escola. Algumas aulas são na arena. Cada aluno, professor, tutor, quem quer que seja que esteja morando no castelo tem uma vaga para seu dragão lá. – Ela explicou – Há galpões com o nome deles para que tenham privacidade e, se você preferir, pode deixá-lo trancado. É sua escolha.
— Fire Flame é o Rei dos dragões. Ele jamais deve ficar trancado.
— Pois bem. Galpão aberto para o seu dragão, Alteza. – Ela sorriu, meio constrangida.
Meus pais e Lady Fitzherbert conversaram mais um pouco sobre burocracia, depois nos juntamos a Victoria e os Guardiões e Lady Fitzherbert nos hospedou no castelo.
Quando chegamos lá, ela nos acomodou e nós nos juntamos a ela, seus filhos e o Lorde Fitzherbert mais tarde.
Enquanto eu, Victoria e os Guardiões caminhávamos em direção ao salão de banquetes, Luna parecia nervosa.
— Está tudo bem? – Eu perguntei, colocando a mão nas costas dela.
— Meus poderes. Conforme vamos nos afastando da lua cheia eles diminuem. – Ela falou, esfregando a mão – E, conforme vamos nos aproximando, eles aumentam. Ambos são processos dolorosos. Crises de ansiedade à noite, sem falar na insônia.
— Isso é horrível! Todos da Legião da Lua passam por isso?
— Apenas a Guardiã. É uma droga, mas não acontece o tempo todo. Acredite ou não, eu tenho momentos de paz. Não se preocupe, Alteza.
— Sabe, eu vou estar longe, mas ainda sou amiga de vocês. Se precisarem da minha ajuda, podem pedir.
— Agradecemos muito, Alteza. – disse Estella, sorrindo.
Nós chegamos ao salão de banquetes e fomos anunciados por um guarda. Meu pai e minha mãe não haviam chegado ainda, mas o Lorde Fitzherbert e seus filhos estavam, então, fui me apresentar a eles.
— Lorde Fitzherbert, é uma honra finalmente conhecê-lo. – Eu curvei a cabeça e ele beijou as costas da minha mão, sorrindo.
— Por favor, Alteza, me chame de Baltazar.
Senti uma pontada no meu cérebro. Não consegui conter minha expressão de surpresa. Baltazar é o melhor amigo do meu pai e foi o cavaleiro de Hell Fire, pai de Fire Flame.
— É um prazer, Baltazar. – Eu olhei para trás – Esta é minha melhor amiga, Victoria. O Guardião do Sol, Hélio e suas irmãs, Luna e Estella, Guardiãs da Lua e das Estrelas.
Ele os cumprimentou e em seguida apresentou seus filhos.
— Esse é meu primogênito, Roman. – O mais velho andou até mim e beijou as costas da minha mão. O rapaz era alto, tinha cabelos loiros e olhos azuis – Cavaleiro da Legião da Água.
— É uma honra, Alteza. – Ele sorriu e eu retribuí o gesto.
— Meu filho do meio, Maldorm. – Um garoto de no máximo 16 anos, cabelos castanhos claros e olhos verdes – Cavaleiro da Legião da Terra.
Ele repetiu o ato e as palavras do irmão, o que me levou ao último irmão. Um menino de uns 14 anos.
— Esse é meu filho caçula, Baden.
Ele era o único dos dois irmãos que era calado e tímido. Sombrio até, ouso dizer. Seus cabelos eram pretos, sua pele pálida e seus olhos castanhos escuros.
— Deixe-me adivinhar. – Eu falei antes que Baltazar pudesse – Cavaleiro da Legião da Morte, certo?
O menino olhou fundo em meus olhos e assentiu com a cabeça. Aquilo talvez devesse me assustar, mas eu apenas sorri e me dirigi até o meu lugar, como todos. Como de costume, ficamos de pé atrás das cadeiras onde nos sentaríamos, esperando meus pais chegarem.
O jantar foi agitado. Meus pais e o casal Fitzherbert ficaram relembrando momentos emocionantes de suas juventudes e matando a saudade uns dos outros. Eu permaneci calada, só falei quando falavam comigo, e por incrível que pareça, isso aconteceu bastante.
Lorde Roman, o primogênito de Baltazar sentou-se bem na minha frente e não pude deixar de ver que ele flertou comigo a noite toda. Eu tentei ignorá-lo, mas ele dificultava as coisas. Quando o jantar acabou, todos foram para os quartos e até Victoria foi para um aposento diferente do meu.
Como foi o jantar? Fire Flame me perguntou.
— Foi... interessante. – respondi, rolando na cama. Não conseguia pegar no sono de forma alguma.
Venha até a sacada mais próxima. Ele pediu e eu me ergui, vestindo um robe. Vamos dar uma volta.
Eu sorri enquanto caminhava no corredor do castelo. No começo da escadaria havia uma porta de vidro que dava até a sacada. Eu andei até o parapeito e lá estava Fire Flame.
Eu deveria dar uma surra no pequeno Lorde Fitzherbert. Ele franziu seu cenho escamoso.
— Por quê?
Se soubesse as coisas que ele imaginou fazer com você durante o jantar... Sem contar que as palavras “princesinha ruivinha” não saíam da cabeça dele. Eu comecei a rir e só então percebi que Fire Flame olhava para algo atrás de mim.
Eu me virei para trás e sorri maldosa ao vê-lo.
— Boa noite, pequeno Lorde. – Eu subi no parapeito e montei Fire Flame. Roman ainda tinha seus olhos fixos em mim e um leve sorriso nos lábios – Para o alto, Fire Flame.