Capitulo 8 Gargalo

2495 Palavras
O SILÊNCIO DO SNIPER E A MELODIA DO CAOS ​[NARRADO POR GARGALO — Jonathan Souza Rocha] ​O silêncio aqui em cima, no topo da laje da minha casa, é diferente de qualquer outro lugar do mundo. Não é aquele silêncio de cemitério, de quem já tá morto e enterrado; é o silêncio de quem tá pronto pra matar, o silêncio que antecede o estampido que muda o destino de uma vida. Olhei pras minhas mãos sob a luz pálida da lua, as juntas dos dedos calejadas, marcadas por anos de soco em parede de reformatório e pelo recuo seco do fuzil de precisão. O tempo passou voando, parceiro, deixando cicatriz onde a gente nem sabia que tinha pele pra rasgar. Jonathan Souza Rocha... às vezes eu até estranho ouvir meu nome completo, soa como se fosse outra pessoa, um fantasma de um passado que eu m*l reconheço. Na rua, no morro, no asfalto quente, eu sou o Gargalo. O cara que aperta o nó, que fecha a passagem, que não deixa o inimigo respirar até o último suspiro. ​Mas os anos mudaram o tempero da minha alma, transformaram o veneno em sabedoria bruta. Aquele moleque que eu era lá atrás, no tempo da Bianca e das festas de elite pra arrancar confissão na base da sedução barata, ficou pra trás, soterrado por toneladas de realidade. Aquele Gargalo era movido por um ódio seco, uma revolta pura, uma vontade de ver o mundo inteiro pegar fogo só pra ele poder se aquecer na brasa. Hoje? Hoje eu tenho motivo pra querer que o mundo continue girando, pelo menos o meu pequeno mundo particular. ​A Juliana... p***a, falar daquela mulher é como descrever um milagre que aconteceu no meio do lixão, uma flor de lótus que brotou no meio do esgoto. Ela é minha base, meu equilíbrio, o único porto seguro onde eu posso ancorar meu navio de guerra. Antes dela, minha casa era só um lugar frio pra limpar a arma e dormir com um olho aberto, sempre esperando o bote. Hoje, a casa tem cheiro de vida, de verdade. Tem o cheiro do perfume doce dela impregnado nos lençóis, o som da risada que me faz esquecer, por uns segundos milagrosos, que eu tenho o rastro de um bando de defunto nas costas pedindo conta. Eu mudei por ela, mas não mudei meu ofício, porque a selva continua lá fora. Eu mudei o porquê de eu fazer o que eu faço. Antes eu matava pra sobreviver ao dia; hoje eu protejo pra ela viver em paz. ​Os moleques do bando... p***a, o Pulga e o Faísca parece que foram congelados no nitrogênio líquido, não evoluem. Bando de retardado mental que eu amo como irmãos. Às vezes eu olho pra eles e vejo os fantasmas do que a gente era há dez anos. Eles ainda acham que a vida é um videogame com ficha infinita e checkpoint garantido. Riem de tudo, fazem piada no meio da neurose, debocham do abismo. Eu não. Eu sinto cada ano que passou nas minhas costas. Sinto no joelho que estala quando o tempo esfria, sinto na memória que me traz, com uma nitidez c***l, o rosto de cada um que eu mandei pro inferno sem passagem de volta. Eu amadureci no fogo cruzado, eles só ficaram tostados. ​A gente não é mais o mesmo grupo de meninos que corria de viatura por esporte e adrenalina barata. O Murilo agora carrega o peso de uma coroa de espinhos que fura a testa todo dia, a Melissa tá na mira de um sistema podre que não perdoa quem vem de baixo e vence sem pedir licença, e eu... eu sou o cão de guarda, o sniper que vigia esse castelo de cartas pra ele não desabar. O tal do Octávio Cavalcanti acha que tá lidando com bandidinho comum, desses que se borram ao ver uma toga. O comédia não faz ideia que ele tá batendo de frente com homens que já perderam tudo e reconstruíram a própria sorte com sangue, suor e uma lealdade que ele nunca vai entender nos livros dele. ​Passou o tempo da sedução barata, das festinhas de playboy pra gravar conversa em gravador escondido. Agora a guerra é de adulto, parceiro. É guerra de inteligência, de paciência, de quem pisca por último. O Cavalcanti quer ser o cirurgião que opera o "tumor"? Pois eu sou a infecção incurável que ele não vai conseguir tratar nem com o melhor remédio do Estado. Aprendi que o verdadeiro poder não tá em quem grita mais alto ou ostenta mais ouro, mas em quem consegue ficar em silêncio absoluto enquanto o inimigo cava a própria cova achando que tá ganhando terreno. ​Eu olho pra Juliana dormindo ou cozinhando, e juro pra mim mesmo, pelo sangue que eu já derramei, que nenhum playboy de toga vai tirar essa paz de mim. Se o preço pra ela continuar sorrindo for eu ter que mergulhar no esgoto de novo e fazer o serviço sujo que ninguém mais tem coragem ou estômago, eu vou com um sorriso no rosto e o dedo firme no gatilho. O Gargalo de hoje é dez vezes mais perigoso que anos porque agora eu tenho algo real a perder. E homem que tem o que proteger não luta só pra ganhar; luta pra não deixar o outro respirar, luta pra exterminar a ameaça antes dela virar fato. ​Passei a mão pelo meu rosto, sentindo a barba grossa e por fazer ralar na palma da mão calejada. Olhei pro meu reflexo distorcido no vidro da varanda. O terno caro de antigamente deu lugar à pele marcada; o peito tá fechado em tinta de tatuagem que conta história de guerra, e as costas carregam o peso de quem nunca fugiu da raia, nem quando o caveirão tava na porta. Eu tô maior, mais pesado, não só de músculo, mas de vivência bruta. O olhar tá mais fundo, como se cada cena de horror que eu vi tivesse deixado um sedimento ali, uma camada de blindagem que ninguém atravessa com papo furado. ​Eu sou o Gargalo. O cara que não precisa de holofote, porque a sombra é minha aliada desde o berço. Minha descrição é simples: sou o silêncio que precede o estampido. Sou a faca que não brilha na luz, o passo que não faz barulho no cascalho. Sou o homem que aprendeu, da pior forma, que o amor é a arma mais perigosa que existe, porque ela te dá um motivo pra ser c***l como o d***o se alguém tentar roubar o teu céu. ​ ​Ouvi o barulho suave da porta de vidro correndo nos trilhos e o cheiro doce da Juliana, aquela mistura de shampoo de flores com o calor da pele dela, invadiu meu espaço, quebrando na hora aquela aura de morte que eu tava cultivando aqui fora. ​— "Pensando na morte da bezerra ou em como vai dominar o mundo hoje antes do jantar, Jonathan?" — A voz dela veio mansa, musical, mas cheia daquela malícia inteligente que só ela tem e que me desarma por completo. ​Eu não me virei de imediato. Deixei ela encostar, sentir o calor das mãos pequenas dela nas minhas costas largas, relaxando a tensão que tava acumulada nos meus ombros como se fossem pedras. ​— "Pensando que o mundo tá querendo cobrar uma dívida antiga que eu não pretendo pagar nem com juros, Ju." — Respondi, a voz saindo rouca, vindo lá do fundo, enquanto me virava devagar pra encarar aqueles olhos que são o meu único ponto de paz num mar de guerra. — "A noite hoje vai ser longa, preta. O bonde tem uma missão de urgência. O tal do Cavalcanti resolveu cutucar a onça com vara curta e eu vou lá mostrar pra ele que o zoológico tá aberto e os predadores tão com fome." ​Juliana deu um meio sorriso, aquele jeito debochado e seguro que me conquistou desde o primeiro dia que ela pisou na Vila. Ela cruzou os braços, me medindo de cima a baixo, sabendo exatamente quem eu era por trás daquela pose de homem de família regenerado. ​— "Missão, é? E você vai com aquele bando de retardado que você chama de amigos?" — Ela soltou uma risada curta, balançando a cabeça em sinal de negação. — "Jonathan, se o plano depende do Pulga e do Faísca pra dar certo, então vocês estão é fodidos, meu amor. Aqueles dois não conseguem atravessar a rua sem fazer uma palhaçada, derrubar um cone ou levar um enquadro por bobeira absoluta." ​Eu ri, o primeiro riso verdadeiro e leve daquela noite pesada. ​— "Pior que tu tem toda a razão, Ju. Eles são um desastre anunciado, uma tragédia grega em forma de bando, mas são os meus desastres. O Pulga serve pra distrair o inimigo com a burrice monumental dele e o Faísca... bom, o Faísca serve pra explodir o que sobrar se as coisas saírem do controle." ​Juliana se aproximou mais, colando o corpo quente no meu, a expressão ficando séria por um segundo, os olhos buscando a minha verdade. ​— "Só volta inteiro pra mim, tá? Não deixa esses moleques te meterem em furada de iniciante. O Cavalcanti pode ser um bosta de toga, mas bosta também suja quem chega perto. Não se suja mais do que o necessário, Jonathan." ​Segurei o rosto dela com as duas mãos, sentindo a maciez absurda da pele contra os meus calos de anos de ferro. ​— "Eu volto, Ju. O Cavalcanti vai descobrir hoje que o 'Doutor Morte' dele não é nada perto de um homem que tem uma rainha esperando em casa com o jantar pronto. Ele luta pelo ego; eu luto pela nossa vida." ​ ​Eu puxei a Juliana pela cintura, colando o corpo dela no meu com uma fome que só quem vive na corda bamba, com um pé na cova e outro no paraíso, consegue entender. Segurei a nuca dela, enterrando meus dedos naquele cabelo que cheirava a tranquilidade, e dei um beijo nela que era puro fogo, um beijo de quem tava selando uma promessa solene de volta. A mão dela subiu pelo meu peito, sentindo o compasso acelerado do meu coração, e por um segundo divino, o mundo lá fora, o Octávio Cavalcanti e a guerra que batia na porta, simplesmente deixaram de existir. ​Só que a paz na vida de quem carrega o bonde Ferreira dura menos que munição de pistola em dia de invasão de morro. ​— “IHHHHHHHAAAAA! OLHA O AMOR NO AR, c*****o! QUE CENA LINDA, PARECE ATÉ FILME DA SESSÃO DA TARDE! VAI COM CALMA, JULIANA, QUE O HOMEM PRECISA CHEGAR NA MISSÃO COM A PERNA FIRME, NÃO BAMBA!” ​O grito rasgou o silêncio da varanda como uma granada de efeito moral jogada num quarto fechado. Eu travei o maxilar na hora, o ódio subindo. Juliana soltou uma risada contra a minha boca, balançando a cabeça, já sabendo que o circo tinha chegado na cidade. ​Olhei pra baixo, pro quintal de terra batida, e lá tava o Faísca, pendurado no portão de ferro feito um macaco de circo, com o rádio na mão e um sorriso de quem tinha acabado de ganhar na mega-sena acumulada. O Pulga tava logo atrás, tentando escalar um pneu velho de trator pra conseguir enxergar a gente melhor na varanda, rindo igual uma hiena que engoliu um palhaço. ​— “SAI DAÍ, SEUS FILHOS DA p**a!” — Gritei, me debruçando no parapeito de concreto, a voz saindo estalada e seca como um tiro de advertência. — “Cês não têm o que fazer não, bando de verme? A gente tem uma missão de vida ou morte e vocês tão aí cuidando da vida alheia, bando de fofoqueiro de esquina.” ​— “A gente tá é preocupado com o bem-estar do nosso capitão!” — Pulga gritou de volta, fazendo um sinal de coração com as mãos, todo debochado, quase caindo do pneu. — “A gente pensou lá na boca: ‘Pô, o Gargalo tá demorando, será que a Juliana amarrou o homem na cama ou ele tá pedindo arrego?’. Se precisar de reforço tático pra soltar o refém, o Bonde do Ferreira tá pronto pra invadir a residência!” ​— “Reforço é o meu ovo esquerdo, Pulga! Se eu descer aí agora, eu vou reforçar a tua cara na base do soco e do chute!” — Respondi, sentindo o sangue subir pra cabeça, mas com o canto da boca querendo trair a minha pose de brabo. Era impossível ficar 100% puto com esses desgraçados. ​Juliana encostou do meu lado, rindo alto da cara de p*u dos dois lá embaixo. ​— “Vão trabalhar, bando de retardado sem rumo!” — Ela gritou, acenando. — “Se o Jonathan chegar atrasado na boca por causa das palhaçadas de vocês, eu mesma ligo pro Murilo e conto que vocês tavam aqui atrapalhando a despedida do homem! Aí eu quero ver quem vai rir por último!” ​Os dois trocaram um olhar de pânico fingido, daqueles bem teatrais. ​— “Eita, a Ju ficou brava! Quando a Doutora 2 fala, o morro treme! Foge, Pulga, que a Dona da casa é pior que o Cavalcanti e o Batalhão de Choque juntos!” — Faísca pulou do portão com uma agilidade de gato vira-lata, quase caindo de b***a no chão, e saiu correndo pro meio do beco, puxando o Pulga pela camisa. — “BORA, GARGALO! CINCO MINUTOS NA BOCA COM O MOTOR LIGADO OU A GENTE VAI SEM VOCÊ E O PULGA VAI TER QUE SER O SNIPER DA NOITE! IMAGINA O PREJUÍZO!” ​Eu olhei pra Juliana e suspirei fundo, passando a mão na cabeça, tentando recuperar a compostura. ​— “Tu viu, né, preta? É com esses 'heróis' da Marvel paraguaia que eu vou salvar o mundo jurídico da Melissa e proteger o nosso império. É de f***r o juízo, Ju.” ​— “Vai logo, Jonathan. O dever chama e os idiotas também.” — Ela me deu um último selinho rápido, me empurrando de leve pro corredor. — “Cuida desses dois. Alguém tem que garantir que eles não atirem no próprio pé ou entrem na casa errada por engano.” ​Peguei minha jaqueta de couro gasta, ajeitei o ferro na cintura, conferindo o peso do carregador, e saí sentindo o peso da responsabilidade nos ombros. O amor é lindo, a paz é um sonho necessário, mas com o Faísca e o Pulga no encalço, a noite ia ser, no mínimo, uma comédia de erros antes de virar o pesadelo inesquecível do promotor Octávio Cavalcanti. O Fantasma ia assombrar, e o Gargalo ia garantir que ninguém saísse do script.
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