Quando Rubinho sai do banheiro com uma toalha enrolada na cintura, pega as roupas que estava no chão e as veste sem muita cerimônia, deitando em seguida do meu lado.
- A gente podia fazer de novo, qualquer dia desse - diz se inclinando sobre mim e depositando um beijo em meu ombro nu.
- Quem sabe depois que eu parir?
- Falando nisso - Ele se apoia no cotovelo - Não perdeu as contas não? Pelo tamanho da sua barriga, já era pra ter nascido.
Aquela era a pergunta que a maiorias das gestantes que faziam ou fizeram pré-natal comigo, perguntavam. Sempre tinha aquela que tinha o mesmo tempo de gravidez mas, que por alguma obra do destino, paria antes de você.
- Estou dentro do prazo. E ela vai nascer quando ela quiser nascer.
- Desde quando uma bebê que nem nasceu ainda, vai saber quando é pra nascer? - pergunta incrédulo.
- Eles sabem quando é para nascer - Tento explicar - É como uma fruta que aos poucos vai deixando de ser verde.
- É isso que ensinam na faculdade?
- Basicamente - Ele dá uma risada forçada, passando a mão pela minha barriga - Quero que minha filha nasça logo, pra mim poder pegar ela no colo.
- Ela vai nascer. No tempo dela - garanto.
- Para com esse papo doido - Adverte impaciente - Se eu vê que tá demorando demais, faço ela sair daí.
Franzo o cenho, olhando para ele pasma.
- Vai me matar por acaso? Para conseguir isso? - Um breve silêncio se instala, até que ele pisca algumas vezes e engole em seco.
- Lá vem tu falando de morte.
- Foi o que deu a entender.
- Não vou matar ninguém, Marcela - diz ríspido - Foi o jeito de falar. Se passar muito tempo, é ela que morre.
- Eu tenho uma data limite para ficar grávida e não vou passar dessa data.
- Você nem médica é.
- Mas já cursei alguns semestres de Medicina - Lembro com um certo pesar. Havia dias que sentia falta da faculdade e dos planos que havia feito para quando me formasse, mesmo sem a certeza se era algo que queria fazer.
- Cursou, Marcela. Cursou. Passado - Ele faz questão de ressaltar - Estamos no presente e tu tá grávida da minha filha.
- Sei que estou grávida da sua filha. Não precisa ficar jogando isso toda hora na minha cara, como se eu estivesse apenas fazendo o favor de carregar ela - Um breve silêncio se instala, permitindo que escutássemos vozes e carros ao longe. É quando algo vem a minha mente - ...quando ela vai conhecer a avó?
- Quê?! - A voz de Rubinho soa alarmada - Do que você tá falando?
- Você tem uma mãe, não é? Só vamos conhecer ela, depois que ela nascer?
- Quem te disse que tenho uma mãe?
Sento na cama, cobrindo parte do meu corpo com os braços, encarando Rubinho.
- Claro que você tem uma mãe, Rubinho. Você não nasceu de chocadeira.
- Pra mim é como se tivesse nascido - diz simplesmente com toda naturalidade do mundo - Ela não me tem como filho dela e eu não tenho ela como minha mãe.
Franzo o cenho, não entendendo como uma mãe poderia simplesmente querer rejeitar o filho de tal forma.
- Por quê?
- Tem que ter uma explicação? - Sempre tinha uma explicação por trás.
- Tenho uma explicação para ter matado o Ricardo.
- O pai que fingia ser pai, quando não era - Comenta com um sorriso debochado - Tu sabe que ele mereceu morrer. Só errou que tinha que ter sido mais devagar, tinha que ter feito ele implorar pra não matar ele.
Não queria imaginar um jeito mais doloroso de ter matado Ricardo.
Antes de morrer, ele sabia que eu o mataria, olhou dentro dos meus olhos e teve essa certeza. Para mim não havia uma vingança melhor.
Passo a mão em minha nuca, desconfortável com aquela conversa.
- Então você não tem contato com sua mãe?
- Não.
- Pai? - Finjo não saber que não havia um pai declarante na identidade dele.
- Não sei quem é.
- Irmãos?
Ele me olha intrigado.
- Pra quê tu quer saber?
- Não sei nada sobre você - Alego - O que sei que é amigo de Gael. Só.
- Era. Não quero ser mais e já é o suficiente.
Sorrio levemente.
- Não posso saber onde você nasceu, cresceu. A escola que estudou...?
- Vamo mudar de assunto tá? - Ele levanta, saindo da cama - Tô com uma p**a de uma fome - Ele vai direto para as sacolas sobre o balcão.
Pego meu celular em baixo do meu travesseiro, ao lado da arma. Notando que havia uma mensagem de Guilherme.
Esse cara não é o Gael.
Digito rapidamente.
Sei que não é. Mas ele sabe onde ele pode estar. Tem como descobrir algumas coisas sobre ele?
Espero impacientemente pela resposta, sempre olhando para a porta aberta.
Ficha criminal?
O quê tiver no sistema sobre ele.
Espero que não esteja me fazendo perder tempo.
Não estou.
Rubinho aparece de repente na porta do quarto, o quê me faz esconder o celular entre as pernas.
- Vem comer.
- Já vou.
- Vem logo - insiste sério. Me visto rapidamente, saindo do quarto em seguida - Sabe o quê tava pensando?
- Não. O quê? - Abro a geladeira em busca do que comer, que não fosse com coco.
- A gente bem que podia deixar essa história de matar o Gael pra lá, vender a droga que você roubou e dar o fora daqui.
Engulo em seco, continuando a vasculhar a geladeira com o olhar.
- Não tem mais droga - digo simplesmente.
- Como assim? O quê tu fez com toda aquela droga?!
Olho para ele, dando de ombros.
- Queimei.
- Tu fez o quê?! - Ele eleva a voz - Tu é doida?! Sabe quanto tinha ali em dinheiro?!
Dou de ombros novamente, voltando olhar para dentro da geladeira.
- Sei lá, Rubinho - Ele me puxa para trás de repente, batendo a porta da geladeira com força, segurando meu queixo com força, enquanto me fazia olhar para ele.
- Me diz que isto é uma piada.
Sustento o olhar dele.
- Eu queimei.
Ele estreita os olhos, pressionando os lábios. Até que me solta abruptamente, dando alguns passos para longe de mim, passando as mãos pela cabeça.
- Tá. Tudo bem - diz forçando uma certa gentileza na voz - Tu fez certo em se livrar da droga. Poderia levantar suspeitas - Ele me lança um leve sorriso - A gente vai pensar em outra coisa. Talvez seja melhor mesmo, a gente dá um fim de uma vez por todas no Gael - Ele se aproxima de mim, me olhando de cima a baixo - É isso que tu quer, não é?
- É o quê eu mais quero - digo com a voz firme.
- Assunto resolvido então - Ele volta para frente do balcão, aonde um pão com mortadela e refrigerante o esperava, voltando a comê-lo com o olhar distante.