No elevador

1912 Palavras
Cherry narrando Tento me recompor em frente ao espelho do banheiro, respirando fundo algumas vezes, mas nada parece adiantar. Cada inspiração parece pesada, como se carregasse o peso de anos comprimidos no peito. Nunca, em um milhão de anos, eu esperaria por aquilo. Foi um choque. Um choque tão grande que ainda sinto o peito apertado só de lembrar. Eu jamais deveria ter me portado daquela forma. Fui uma menininha chorando por receber um pedido de desculpas. Uma criança carente por validação. Sou mesmo uma trouxa por ficar feliz, por sentir alívio, por chorar depois de ouvir exatamente aquilo que esperei por tanto tempo. Por anos. Cada palavra dele ecoou em minha mente, trazendo uma mistura de conforto e vergonha. Conforto por finalmente ser ouvida, vergonha por precisar de tão pouco para quebrar minhas defesas. Ele não deveria ter esse poder sobre mim. Não deveria. E, ainda assim, sinto como se tivesse recebido uma aprovação que sempre busquei, como se finalmente tivesse sido vista por ele. Odeio esse sentimento com todas as minhas forças. Odeio depender de algo que vem de alguém que me machucou, alguém que tantas vezes me fez questionar minha força e minha razão. E, no entanto, aqui estou, sentindo meu coração acelerar por causa de uma simples concessão sua. Olho meu reflexo novamente e vejo meus olhos avermelhados, o rosto ainda quente, e a sensação de vulnerabilidade me domina. Percebo que já estou aqui há tempo demais, perdida em pensamentos e emoções, e preciso voltar. Preciso retornar à mesa, manter a compostura, fingir normalidade. Mas não faço ideia de como vou me portar agora. Não faço ideia de com que cara retornarei depois desse colapso tão inesperado, dessa mistura de alívio, tristeza, raiva e desejo de ser reconhecida. Respiro fundo, tentando acalmar meu corpo, e abro a porta… só para me deparar com o senhor Thomas à minha frente. Meu coração dispara de novo, dessa vez misturando surpresa e tensão. Ele não diz nada. Não faz perguntas. Apenas me observa, e há algo no silêncio dele que me deixa desconcertada, como se ele soubesse exatamente o que aconteceu, como se entendesse cada lágrima silenciosa, cada batida acelerada. Ele estende a mão. Hesito, engolindo o nó que se formou na garganta, mas acabo aceitando. Ele nos guia de volta à mesa, silencioso, firme, sem palavras desnecessárias. Cada passo seu parece seguro, controlado, e eu me sinto estranhamente protegida mesmo depois de tudo. Puxa a cadeira para mim, e eu me sento, constrangida, tentando focar no prato à minha frente, mas incapaz de ignorar o impacto de sua presença. — Eu não vou te forçar mais a trabalhar para mim. Se você realmente quer sair da empresa, tudo bem — ele diz, direto, sem me julgar, sem pressionar. Meu coração dá um solavanco estranho. Era isso que eu queria, não era? Liberdade. Autonomia. Mas então por que esse aperto no peito, essa ansiedade que insiste em me corroer? — Obrigada, senhor Queen — respondo, a voz baixa, quase sussurrada, mas ainda assim carregada de emoção. — Apenas Thomas. Eu só gostaria de pedir que fizesse mais uma coisa antes de partir. — Sim… — Odeio perceber como minha voz soa repentinamente ansiosa, trêmula. O que diabos está acontecendo comigo? Por que cada gesto dele me atordoa tanto? — Preciso da sua ajuda para identificar os assediadores da empresa. Estou pensando em estratégias para mudar isso e encontrar uma solução definitiva. Eu não sabia que essa situação existia, mas não pode continuar acontecendo. Engulo em seco, surpresa e, ao mesmo tempo, aliviada. Há uma força inesperada em suas palavras, um cuidado que antes eu não ousava esperar dele. — Obrigada… tenho certeza de que isso ajudará muitas mulheres — respondo, sentindo uma pontada de orgulho e, de forma desconcertante, gratidão. — Depois disso, você estará liberada, se quiser ir. — Sério? Não preciso treinar alguém? Manter tudo em ordem, organizar transições… — minha mente ainda funciona como a da funcionária que sempre fui, aquela que se cobrava demais, que nunca permitia falhas. — Não. Eu tentarei encontrar outra pessoa e, desta vez, prestar atenção para não repetir os mesmos erros — diz, firme, sem deixar brechas, e eu percebo que realmente confia em mim. Confirmo com a cabeça, incapaz de dizer qualquer outra coisa. Não sei por quê, mas sinto os olhos arderem novamente, o coração acelerar, e estou à beira de chorar outra vez, dessa vez não apenas pela emoção, mas pelo peso da compreensão de que ele me respeita, que de alguma forma, mesmo depois de tudo, ele ainda se importa. Fico ali, imóvel, absorvendo cada segundo da situação. Cada gesto dele, cada palavra, cada silêncio — tudo me lembra do quanto fui vulnerável e do quanto ainda me permito ser. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto que talvez, só talvez, exista um equilíbrio entre quem sou e quem posso ser com ele por perto. [...] Toco a campainha da casa dos meus pais, e minha mãe abre a porta quase imediatamente. — Oi, minha linda… Antes que ela consiga dizer qualquer outra coisa, me jogo em seus braços e choro tudo o que segurei durante o dia inteiro. Tudo o que engoli. Tudo o que fingi não sentir. Ela não pergunta nada. Apenas me acolhe. Caminhamos juntas até o sofá, e deito a cabeça em seu colo enquanto ela afaga meus cabelos com calma, como fazia quando eu era pequena. — Chora, meu bebê. Coloca tudo isso para fora. Não guarda nada. [...] Agora, de banho tomado, vestindo um pijama confortável e segurando uma xícara de chá quente entre as mãos, começo a me sentir mais calma. Contei tudo. Cada palavra. Cada sensação. Cada contradição. Minha mãe me observa em silêncio antes de finalmente falar: — O que eu faço, mãe? Passei esse tempo todo sendo adulta, empoderada, decidida… para agir igual uma menina na hora da verdade. — Você é uma menina, meu bem — ela responde com suavidade. — E acho que você só caiu num buraco que estava acobertando há muito tempo. — O quê? — Você gostava um pouquinho dele, filha. Guardou esperança de que ele te visse por muito tempo. Isso foi criando um buraco fundo. Mas, com frustrações e raiva, você foi apenas tampando por cima, achando que estava segura. Quando ele finalmente fez o que você sempre quis, isso te derrubou. Ainda mais porque você já estava indo embora. Penso nas palavras dela. Elas doem porque fazem sentido. — Mas ele queria que eu ficasse o tempo todo… e quando pede desculpas, me autoriza a ir embora. — Porque ele acha que isso é um desejo seu, minha filha. Se você quiser mesmo ficar, correndo o risco de não haver mudança ou de tudo ser diferente, eu apoio. Às vezes, na vida, precisamos nos arriscar. — Mas eu já afirmei várias vezes que estava saindo. Já tenho até um novo emprego me esperando… — Tá bom. — Tá bom? — reclamo, irritada. — Sim, filha. Se é isso que você quer — ela sorri com os lábios. Dou um gritinho frustrado, o que a faz rir. — Eu não sei mais se quero isso… mas também não quero ser uma bebê e voltar atrás agora. — E do que adianta se fazer de forte e nunca saber o que poderia ter acontecido se você tivesse ficado? — Mas… — Descansa, filha. Vai dar tudo certo. Respiro fundo, confiando na minha mãe e nesse poder quase mágico que ela tem de me acalmar. Ainda não sei nem como vou desfazer minha nova contratação. [...] Entro na empresa um pouco atrasada. Josué me espera na entrada. Dou bom-dia, e ele responde com um olhar discreto. Sei que estou trinta minutos atrasada — isso nunca aconteceu antes —, mas dormi na casa dos meus pais, e minha mãe desligou meu despertador de propósito. Peço o elevador social quase por reflexo, tentando manter uma distância segura, mínima, como se isso ainda fosse possível. Mas antes mesmo que eu termine o gesto, ele se adianta e digita a senha do presidencial. O painel pisca, confirmando o destino, e eu respiro fundo. Para evitar discussões, entro em silêncio. Não tenho forças para mais um embate agora. Seguimos assim até nosso andar, lado a lado, envoltos em um silêncio denso demais para ser confortável. Assim que as portas se abrem, saio primeiro. Arrumo minhas coisas rapidamente, colocando tudo na bolsa com um cuidado quase exagerado, como se cada objeto fosse um fragmento do tempo que passei ali. Quando penso que o senhor Queen não percebeu minha ausência prolongada, meu olhar cai na tela do computador. Um e-mail. Enviado há vinte e oito minutos. Direto, objetivo: pedindo que eu vá até sua sala. Meu estômago se revira. Me levanto de imediato. O corredor parece mais longo do que nunca. Bato à porta e, com apenas um toque, escuto sua autorização. Meu coração acelera antes mesmo de entrar. — Bom dia, senhor Queen — digo, a voz controlada, mas o corpo inteiro tenso. Ele não responde de imediato. Apenas indica a cadeira à sua frente e me entrega uma pasta grossa, pesada demais para ser ignorada. Abro com receio, esperando meus papéis de desligamento, minha liberdade enfim carimbada. Mas o que encontro é outra coisa. Uma pauta extensa, detalhada, organizada. Assédio. Denúncias. Protocolos. Estratégias de combate, prevenção, acolhimento. Levanto o olhar, surpresa demais para disfarçar. — Gostaria que você soubesse das mudanças na empresa — ele diz, observando cada nuance da minha reação, como se estivesse medindo meu impacto interno. Permaneço em silêncio por alguns segundos. Leio mais uma vez. Tudo ali é sério. Estruturado. Real. Então percebo um leve sorriso em seus lábios. Quase imperceptível. Um pensamento atravessa minha mente com força: e se for isso que ele quer? Que eu me envolva. Que eu me importe. Que eu veja propósito e decida ficar. Seria c***l. Seria calculado demais. Ele não seria capaz… eu acho. Respiro fundo antes de responder. — Pelo que vi rapidamente, é muito bom, senhor Queen. É reconfortante saber que, mesmo com minha partida, coisas boas serão implementadas para quem fica — digo, oferecendo um sorriso doce, educado, profissional. Um sorriso de despedida. A expressão dele se fecha quase de imediato. O leve sorriso some. O olhar endurece. E então eu entendo tudo. — Posso perguntar? Para onde você vai? — Acho que isso excede nossos limites. Com licença, senhor. Vou aproveitar e passar no RH para confirmar algumas coisas. Me levanto, surpresa ao vê-lo fazer o mesmo. — Também preciso ir até lá — ele diz. Não questiono. Vejo-o trocar algumas palavras com Josué antes de chamar o elevador. Entro primeiro. Aperto o andar correto e noto que ele se apoia na parede, algo estranho para alguém sempre tão impecável. — Que horas são, senhor? — Está na parede — ele responde. Viro-me para ele, intrigada. — Por que está sem o celular? Pela primeira vez em anos, devo acrescentar. — Você está com o tablet? — ele pergunta. Percebo que esqueci. Não respondo. Estou prestes a xingá-lo mentalmente quando as luzes do elevador começam a piscar. Meu coração dispara. Mordo a língua para não gritar, procuro algo para me segurar discretamente. — Senhor… — perco toda a educação quando a caixa de metal treme violentamente. — Meu Deus! Percebo o senhor Queen dizendo algo, mas me concentro em rezar. Grito novamente com o impacto seguinte. E, então, tudo fica escuro.
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