Abuso de Poder

1663 Palavras
Cherry narrando. Chego em casa e vejo minha mãe já na cozinha, mexendo algo no fogão. Dar uma cópia da chave a eles talvez tenha sido um erro. — Oi, querida — ela fala, vindo me abraçar. — Coitada, ficou de salto o dia todo. Vou fazer uma água com ervas para você. Ela diz, e meu pai revira os olhos. Não sei como deu — e ainda dá — certo entre os dois: uma mulher quase naturalista, toda vegana e amiga das plantas, casada com um contador bancário totalmente capitalista, que ama o mundo empresarial e seus números. Era bem engraçado quando eu era pequena. Aprendi a cuidar da horta, dos animais, a fazer abrigos com o que a natureza dava, diversos pratos veganos… e, com meu pai, aprendi sobre dinheiro: como investir minha mesada, fazer revendas, cálculos. Era engraçado também quando eles entravam em impasse. O papai ia trabalhar ou fazer contas, e minha mãe cuidava das plantas. — Minha princesa, sua mãe fez uma lasanha de berinjela, mas eu também fiz um frango antes de ir te buscar. — Só falta montar, querida. Vai tomar banho e cuidar do seu negócio — minha mãe fala, imitando s***s grandes. Jogo o pano de prato nela. — Já falei que é uma bênção. — Uma super bênção, mãe — falo, e ela ri. Meus s***s estão bem cheios e um pouco doloridos. A região fica sensível conforme o dia passa, mas não posso reclamar; poderia ser pior. Minha mãe diz que meus hormônios são diferentes dos demais e, por isso, sou especial. Eu preferia ser normal. Já produzo desde os dezenove anos e culpo o estresse, a má alimentação e a pressão psicológica que a faculdade me causava, desregulando todo o meu corpo. Mas isso nunca foi embora. Fecho a porta do meu quarto e jogo as roupas no cesto. Ligo o chuveiro no mais quente possível e pego a bomba manual para tirar durante o banho. [...] Deito com meus pais no sofá e olho para eles, pidona. — O que foi, minha ruivinha? — mamãe pergunta. Sorrio, com sono. Ela sempre amou a cor do cabelo do meu pai e a minha. Já pensou até em pintar o próprio, mas seu loiro é lindo demais. — Façam carinho, por favor — peço e deito a cabeça em seu colo. Coloco os pés no meu pai, que finge reclamar, mas faz massagem. — Eu falei que morar no mesmo bairro seria ótimo — meu pai diz, e dou risada. Na época de comprar minha casinha, eu queria morar no centro, sozinha. É um pouco longe daqui, mas meu pai achou essa casa de quatro cômodos perfeita, com um valor incrível, que já quitei. Pelo menos nisso o senhor Queen me ajudou muito. O salário é maravilhoso e pagou todas as dívidas que criei. [...] Acordo deitada na minha cama e sorrio, mesmo com sono. A melhor parte de dormir no sofá é quando meu pai me coloca na cama depois. Mesmo mais velha, isso nunca perde a graça. Me alongo com preguiça e levanto. Tenho que me arrumar e tirar o que conseguir do meu leite no banho. [...] Termino de me arrumar e ajeito minha saia lápis. Fico uma gostosa com ela. Pego meu salto, que amo tanto, e coloco feliz. Normalmente não uso tão altos, mas hoje a agenda do senhor Queen não tem reuniões das quais eu participe; é um dia sem muita movimentação. Na verdade, tem uma, mas não participo por ser sobre problemas ocorridos na empresa. Apenas o pessoal íntimo vai. Uma buzina me apressa, e corro para ver meu pai. — Bom dia, princesa — ele diz, enquanto tranco a porta e ando devagar até o carro. — Bom dia, pai. Coloco o cinto e reclino o banco. Vamos em silêncio, respeitando o momento em que ainda não acordamos totalmente. Ao chegar à empresa, dou um beijo em sua bochecha antes de sair. Vejo o Thiago parado na entrada, com cara de sono, mas parece mais atento ao me ver. — Bom dia, senhorita Cherry — ele fala. Concordo com a cabeça. Estou morrendo de sono; preciso de um café. — Você vai subir? — pergunto. Ele concorda. — Posso me apoiar em você? — A senhorita está bem? — ele pergunta, oferecendo a mão, receoso. — Estou, mas me deu sono vindo para cá e fiquei meio tonta. Como o salto é grande, é melhor ter apoio. Mesmo receoso, ele estende o braço para mim. Paro no meu ponto e passo a digital. — Bom dia, Cherry. Coloco a mão na boca, bocejando. — Bom dia, senhor Queen. Vejo-o raivoso. Essa hora da manhã e o homem já está assim? Coitada da futura esposa dele. — Me chame de Thomas, por favor — ele fala. Assinto. — Você está bem? — Desculpa, só com sono — respondo, mordendo a língua para não bocejar de novo. — Eu te ajudo, pode se apoiar em mim. Quando vou negar, o Thiago corre para trás do Josué. Engancho minha mão no braço de Thomas e seguimos para o elevador. — Me dê sua bolsa — ele diz e, antes que eu negue, a tira de mim. — Você está bem? Isso é frequente? Quase dou risada. Ele realmente não me via. — Às vezes. É só tomar um café que fico bem. — Certo — ele diz, me observando. Assim que chegamos, vemos a Cida passando com a bandeja de café. Meu chefe me acompanha até a mesa, onde me solto dele. — Obrigada. Ele já parece bem mais calmo. Homem bipolar. — Aqui, o de vocês dois. Meninos, venham, que o de vocês já está quase pronto — Cida entrega os cafés. Agradeço e me sento. Os seguranças a seguem para a copa, e me delicio com a bebida. O senhor Thomas demora, mas vai para a sala dele. Ligo meus aparelhos e começo a trabalhar; já me sinto mais acordada. Algumas horas depois, levanto e vou à sala de reuniões arrumar tudo. Tenho as pautas separadas para cada integrante. Depois de tudo pronto, volto ao meu lugar e tento pegar minha bolsa. Meus s***s estão mais pesados que o normal; vou precisar ajeitar no banheiro. Quando isso acontece, coloco um lenço pequeno e leve para prevenir vazamento. Percebo a ausência da bolsa assim que chego ao meu lugar. Droga. Não peguei de volta. Está com o senhor Queen. Respiro fundo, vou até a sala dele e bato na porta. A entrada é liberada e entro, envergonhada. — Com licença, senhor. Minha bolsa. Ele não tira os olhos do computador. — Depois, Cherry. Estou me preparando para a reunião. — Eu só quero pegar — falo, me aproximando da mesa e alcançando a bolsinha. — Pronto. — Esteja pronta em cinco minutos. — Senhor Queen… Ele fecha a expressão. — Me chame apenas de Thomas. É uma ordem. — Senhor Thomas — digo, provocando. Vejo-o apertar as mãos. — Para que devo ficar pronta? — Você irá participar da reunião comigo. — Não vejo necessidade. E o senhor não deve querer que uma funcionária quase desligada esteja em uma reunião com dados privados. Ele me olha em chamas e se levanta lentamente. — Escute bem, Cherry. Só vou dizer uma vez, com gentileza: você não vai sair desta empresa. Seu pedido de demissão foi cancelado e um aumento salarial já foi aprovado. Você é minha e não vai embora. Entendeu? — Eu não negociei isso. Além do mais, já tenho um novo emprego — sorrio. A raiva dele acaba com a graça. — Você não vai — ele diz, devagar, saindo de trás da mesa. — Senhor? — Só me chame de senhor se quiser ordens para obedecer, Cherry. — Eu preciso ir — digo, recuando, estranhamente gostando do tom. Quando me viro, sinto-o muito perto. Meus batimentos aceleram. Respiro fundo, arrependida, quando seu perfume me invade. — Senhor… — Josué entra e se surpreende ao me ver ali. Saio apressada, me xingando por ter escolhido esses saltos difíceis. Não entendo mais nada do que esse homem fala. Só sei que não vou a essa reunião e que preciso resolver essa questão de emprego. Tenho que esclarecer o que ele disse. Meu seio fisga de dor, e lembro do motivo inicial de ir até a sala dele. Sigo para o banheiro e, ao trancar a porta, respiro aliviada. Lavo e seco as mãos com cuidado antes de abaixar a blusa e pegar o seio pesado. Tiro um pouco de leite de cada e coloco o lencinho macio no sutiã para prevenir. Ajusto a blusa e higienizo as mãos novamente. Uma batida na porta me assusta. Depois de conferir se está tudo organizado, destranco. Olho sem entender para o senhor Thomas, que vasculha o banheiro com o olhar. — Posso ajudar? Aqui é o banheiro feminino, senhor — digo, cruzando os braços. — Estou conferindo os ambientes da minha empresa. Mas, já que está aqui, vamos? — Não — respondo, tentando passar. Ele me impede, erguendo um papel. — Isso é a sua carta de demissão? — Sim. Acabei de pegar no RH. Você não será desligada. — Isso é abuso de poder. Você sabe que não pode fazer isso, né? — Eu já fiz. Agora vamos para a reunião. — Você não pode me obrigar. Tento passar pelo canto, mas ele bloqueia. — Senhorita Cherry, você é minha. Sendo funcionária, eu mando em você aqui dentro. — Eu me demiti e estou aqui apenas pelo tempo de obrigação. Agora, com licença, senhor Queen. Você vai sair da minha frente por bem ou por m*l? Ergo o rosto, muito perto do dele. Ele me encara. Reparo nas pupilas dilatadas. Ele deve me odiar mesmo. Gente rica é sempre assim: não liga para nada, mas, quando está para perder, faz de tudo para manter — nem que seja por capricho. E eu não vou ser capricho desse babaca.
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