Cherry narrando.
Chego em casa e vejo minha mãe já na cozinha, mexendo algo no fogão. Dar uma cópia da chave a eles talvez tenha sido um erro.
— Oi, querida — ela fala, vindo me abraçar. — Coitada, ficou de salto o dia todo. Vou fazer uma água com ervas para você.
Ela diz, e meu pai revira os olhos. Não sei como deu — e ainda dá — certo entre os dois: uma mulher quase naturalista, toda vegana
e amiga das plantas, casada com um contador bancário totalmente capitalista, que ama o mundo empresarial e seus números.
Era bem engraçado quando eu era pequena. Aprendi a cuidar da horta, dos animais, a fazer abrigos com o que a natureza dava,
diversos pratos veganos… e, com meu pai, aprendi sobre dinheiro: como investir minha mesada, fazer revendas, cálculos. Era
engraçado também quando eles entravam em impasse.
O papai ia trabalhar ou fazer contas, e minha mãe cuidava das plantas.
— Minha princesa, sua mãe fez uma lasanha de berinjela, mas eu também fiz um frango antes de ir te buscar.
— Só falta montar, querida. Vai tomar banho e cuidar do seu negócio — minha mãe fala, imitando s***s grandes.
Jogo o pano de prato nela.
— Já falei que é uma bênção.
— Uma super bênção, mãe — falo, e ela ri.
Meus s***s estão bem cheios e um pouco doloridos. A região fica sensível conforme o dia passa, mas não posso reclamar; poderia ser
pior.
Minha mãe diz que meus hormônios são diferentes dos demais e, por isso, sou especial. Eu preferia ser normal.
Já produzo desde os dezenove anos e culpo o estresse, a má alimentação e a pressão psicológica que a faculdade me causava,
desregulando todo o meu corpo. Mas isso nunca foi embora.
Fecho a porta do meu quarto e jogo as roupas no cesto. Ligo o chuveiro no mais quente possível e pego a bomba manual para tirar
durante o banho.
[...]
Deito com meus pais no sofá e olho para eles, pidona.
— O que foi, minha ruivinha? — mamãe pergunta.
Sorrio, com sono. Ela sempre amou a cor do cabelo do meu pai e a minha. Já pensou até em pintar o próprio, mas seu loiro é lindo
demais.
— Façam carinho, por favor — peço e deito a cabeça em seu colo.
Coloco os pés no meu pai, que finge reclamar, mas faz massagem.
— Eu falei que morar no mesmo bairro seria ótimo — meu pai diz, e dou risada.
Na época de comprar minha casinha, eu queria morar no centro, sozinha. É um pouco longe daqui, mas meu pai achou essa casa de
quatro cômodos perfeita, com um valor incrível, que já quitei.
Pelo menos nisso o senhor Queen me ajudou muito. O salário é maravilhoso e pagou todas as dívidas que criei.
[...]
Acordo deitada na minha cama e sorrio, mesmo com sono. A melhor parte de dormir no sofá é quando meu pai me coloca na cama
depois. Mesmo mais velha, isso nunca perde a graça.
Me alongo com preguiça e levanto. Tenho que me arrumar e tirar o que conseguir do meu leite no banho.
[...]
Termino de me arrumar e ajeito minha saia lápis. Fico uma gostosa com ela. Pego meu salto, que amo tanto, e coloco feliz.
Normalmente não uso tão altos, mas hoje a agenda do senhor Queen não tem reuniões das quais eu participe; é um dia sem muita
movimentação.
Na verdade, tem uma, mas não participo por ser sobre problemas ocorridos na empresa. Apenas o pessoal íntimo vai.
Uma buzina me apressa, e corro para ver meu pai.
— Bom dia, princesa — ele diz, enquanto tranco a porta e ando devagar até o carro.
— Bom dia, pai.
Coloco o cinto e reclino o banco.
Vamos em silêncio, respeitando o momento em que ainda não acordamos totalmente. Ao chegar à empresa, dou um beijo em sua
bochecha antes de sair.
Vejo o Thiago parado na entrada, com cara de sono, mas parece mais atento ao me ver.
— Bom dia, senhorita Cherry — ele fala.
Concordo com a cabeça. Estou morrendo de sono; preciso de um café.
— Você vai subir? — pergunto.
Ele concorda.
— Posso me apoiar em você?
— A senhorita está bem? — ele pergunta, oferecendo a mão, receoso.
— Estou, mas me deu sono vindo para cá e fiquei meio tonta. Como o salto é grande, é melhor ter apoio.
Mesmo receoso, ele estende o braço para mim.
Paro no meu ponto e passo a digital.
— Bom dia, Cherry.
Coloco a mão na boca, bocejando.
— Bom dia, senhor Queen.
Vejo-o raivoso. Essa hora da manhã e o homem já está assim? Coitada da futura esposa dele.
— Me chame de Thomas, por favor — ele fala.
Assinto.
— Você está bem?
— Desculpa, só com sono — respondo, mordendo a língua para não bocejar de novo.
— Eu te ajudo, pode se apoiar em mim.
Quando vou negar, o Thiago corre para trás do Josué.
Engancho minha mão no braço de Thomas e seguimos para o elevador.
— Me dê sua bolsa — ele diz e, antes que eu negue, a tira de mim.
— Você está bem? Isso é frequente?
Quase dou risada. Ele realmente não me via.
— Às vezes. É só tomar um café que fico bem.
— Certo — ele diz, me observando.
Assim que chegamos, vemos a Cida passando com a bandeja de café. Meu chefe me acompanha até a mesa, onde me solto dele.
— Obrigada.
Ele já parece bem mais calmo. Homem bipolar.
— Aqui, o de vocês dois. Meninos, venham, que o de vocês já está quase pronto — Cida entrega os cafés.
Agradeço e me sento. Os seguranças a seguem para a copa, e me delicio com a bebida.
O senhor Thomas demora, mas vai para a sala dele. Ligo meus aparelhos e começo a trabalhar; já me sinto mais acordada.
Algumas horas depois, levanto e vou à sala de reuniões arrumar tudo. Tenho as pautas separadas para cada integrante.
Depois de tudo pronto, volto ao meu lugar e tento pegar minha bolsa. Meus s***s estão mais pesados que o normal; vou precisar
ajeitar no banheiro.
Quando isso acontece, coloco um lenço pequeno e leve para prevenir vazamento. Percebo a ausência da bolsa assim que chego ao
meu lugar.
Droga. Não peguei de volta. Está com o senhor Queen.
Respiro fundo, vou até a sala dele e bato na porta. A entrada é liberada e entro, envergonhada.
— Com licença, senhor. Minha bolsa.
Ele não tira os olhos do computador.
— Depois, Cherry. Estou me preparando para a reunião.
— Eu só quero pegar — falo, me aproximando da mesa e alcançando a bolsinha. — Pronto.
— Esteja pronta em cinco minutos.
— Senhor Queen…
Ele fecha a expressão.
— Me chame apenas de Thomas. É uma ordem.
— Senhor Thomas — digo, provocando.
Vejo-o apertar as mãos.
— Para que devo ficar pronta?
— Você irá participar da reunião comigo.
— Não vejo necessidade. E o senhor não deve querer que uma funcionária quase desligada esteja em uma reunião com dados
privados.
Ele me olha em chamas e se levanta lentamente.
— Escute bem, Cherry. Só vou dizer uma vez, com gentileza: você não vai sair desta empresa. Seu pedido de demissão foi cancelado
e um aumento salarial já foi aprovado. Você é minha e não vai embora. Entendeu?
— Eu não negociei isso. Além do mais, já tenho um novo emprego — sorrio.
A raiva dele acaba com a graça.
— Você não vai — ele diz, devagar, saindo de trás da mesa.
— Senhor?
— Só me chame de senhor se quiser ordens para obedecer, Cherry.
— Eu preciso ir — digo, recuando, estranhamente gostando do tom.
Quando me viro, sinto-o muito perto. Meus batimentos aceleram. Respiro fundo, arrependida, quando seu perfume me invade.
— Senhor… — Josué entra e se surpreende ao me ver ali.
Saio apressada, me xingando por ter escolhido esses saltos difíceis. Não entendo mais nada do que esse homem fala.
Só sei que não vou a essa reunião e que preciso resolver essa questão de emprego. Tenho que esclarecer o que ele disse.
Meu seio fisga de dor, e lembro do motivo inicial de ir até a sala dele.
Sigo para o banheiro e, ao trancar a porta, respiro aliviada.
Lavo e seco as mãos com cuidado antes de abaixar a blusa e pegar o seio pesado.
Tiro um pouco de leite de cada e coloco o lencinho macio no sutiã para prevenir. Ajusto a blusa e higienizo as mãos novamente.
Uma batida na porta me assusta. Depois de conferir se está tudo organizado, destranco.
Olho sem entender para o senhor Thomas, que vasculha o banheiro com o olhar.
— Posso ajudar? Aqui é o banheiro feminino, senhor — digo, cruzando os braços.
— Estou conferindo os ambientes da minha empresa. Mas, já que está aqui, vamos?
— Não — respondo, tentando passar.
Ele me impede, erguendo um papel.
— Isso é a sua carta de demissão?
— Sim. Acabei de pegar no RH. Você não será desligada.
— Isso é abuso de poder. Você sabe que não pode fazer isso, né?
— Eu já fiz. Agora vamos para a reunião.
— Você não pode me obrigar.
Tento passar pelo canto, mas ele bloqueia.
— Senhorita Cherry, você é minha. Sendo funcionária, eu mando em você aqui dentro.
— Eu me demiti e estou aqui apenas pelo tempo de obrigação. Agora, com licença, senhor Queen. Você vai sair da minha frente por
bem ou por m*l?
Ergo o rosto, muito perto do dele.
Ele me encara. Reparo nas pupilas dilatadas. Ele deve me odiar mesmo.
Gente rica é sempre assim: não liga para nada, mas, quando está para perder, faz de tudo para manter — nem que seja por capricho.
E eu não vou ser capricho desse babaca.