Nicholas Lancaster
Sentei no sofá da minha sala, ainda perdido nos próprios pensamentos. A ideia de Ryan ressoava de forma incômoda e incessante: um casamento arranjado, sem amarras emocionais, apenas para cumprir as exigências do meu pai. Era prático, eu sabia. Mas também parecia artificial, frio, distante de qualquer coisa em que eu acreditava. Meus princípios se chocavam com essa proposta, mas a realidade pressionava, intransigente.
E então, como se tivesse lido meus pensamentos, ouço baterem na porta, ao abrir vejo Ryan na porta, sorridente. Dei espaço para ele passar, segui para o sofá e me sentei onde estava antes.
— Pensando no ultimato do velho Lancaster, não é? — Ele riu, atirando-se no sofá ao meu lado e esticando as pernas. — Vamos sair. Você está precisando espairecer. Pensei na boate "Elysium". Lugar novo, alta classe. Nada melhor para esquecer problemas, ainda que por algumas horas.
Resisti à ideia de início, mas a verdade era que minha cabeça precisava de um descanso. E talvez, sob uma nova perspectiva, uma resposta se revelasse.
— Tudo bem. Vamos — concordei, erguendo-me e pegando meu paletó.
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O "Elysium" fazia jus à sua reputação. Entramos no salão luxuoso, envolto em uma atmosfera sofisticada e exclusivíssima. O local exalava elegância, do teto repleto de lustres modernos até as paredes forradas de veludo. Pessoas bem-vestidas, sorrisos calculados e uma aura de extravagância enchiam o lugar. Ryan tinha razão: era exatamente o tipo de ambiente que eu precisava.
Escolhemos uma mesa com vista privilegiada para o salão e pedimos nossos drinques. O silêncio confortável entre nós foi interrompido quando uma garçonete surgiu ao nosso lado.
E, por um instante, tudo ao redor pareceu perder a cor e o som.
Ela se aproximou com passos firmes e uma expressão que misturava profissionalismo com uma calma impenetrável. Seus longos cabelos negros, lisos como uma noite sem fim, caíam pelas costas com suavidade, e uma franja perfeita adornava sua testa, emoldurando um rosto intrigante. Os olhos, de um castanho escuro profundo, pareciam absorver toda a luz ao redor, refletindo uma intensidade que era difícil de ignorar. Sua pele morena, de um tom quente e radiante, era o que de imediato dava a ela uma presença distinta, como uma musa de alguma cultura exótica que eu não conseguia identificar.
Mas não era apenas isso. Havia algo mais, uma energia que a cercava, uma mistura de autossuficiência e mistério que fazia dela um enigma, uma mulher que parecia se mover com uma graça sutil e calculada. Seu corpo curvilíneo e harmonioso, delineado pelo uniforme simples, transmitia uma beleza natural, nada exagerada, mas de uma elegância que parecia destacar-se no meio de toda aquela sofisticação fabricada do lugar.
— Boa noite, senhores. Posso anotar seus pedidos? — Ela perguntou, a voz baixa e suave, mas firme.
Demorei um instante para responder, enquanto ainda assimilava aquela presença inesperada. Ryan notou meu silêncio e deu uma risada curta.
— Um uísque para mim, e o mesmo para ele — disse, lançando-me um olhar divertido. — E talvez uma água para acalmar o nosso amigo aqui.
Ela sorriu de leve, sem demonstrar muito interesse. Apenas mais um cliente, eu imaginava.
Mas, para mim, aquele breve momento de observação tinha sido suficiente para que uma ideia se formasse. Ela poderia ser a pessoa perfeita para o meu problema. A mulher que cumpriria o papel sem complicações, sem expectativas emocionais, mas com uma presença marcante, alguém que passaria por minha esposa sem esforço. Sim, talvez aquela garçonete, cujo nome eu ainda nem sabia, pudesse ser a chave para meu dilema.
— Posso saber seu nome? — Perguntei, a curiosidade rompendo meu autocontrole usual.
Ela ergueu os olhos, surpresa com a pergunta, mas respondeu com naturalidade:
— Isadora.
O nome soava tão exótico e forte quanto ela, combinando perfeitamente com cada detalhe daquela imagem que acabara de gravar em minha mente.
Ryan se inclinou na cadeira, rindo ao perceber minha reação à garçonete.
— Você está bem, Nicholas? Nunca te vi tão... hipnotizado antes. — Ele deu uma risadinha maliciosa, balançando o copo de uísque. — Sabe, talvez seu pai tenha razão. Acho que um casamento te faria bem. Se for com uma mulher como essa, então nem se fala.
Revirei os olhos, tentando manter a postura, mas sabia que Ryan não ia largar o assunto tão fácil.
— Não seja ridículo — murmurei, embora minha mente estivesse longe de qualquer argumento lógico. — Só... estou analisando. Ela tem uma presença marcante, sabe? — falei, tentando justificar o que nem eu compreendia. — Fala bem, anda com segurança. Tem uma aparência que certamente chamaria atenção. É bonita e elegante o bastante para alguém do meu... nível.
Ryan ergueu as sobrancelhas, claramente se divertindo.
— Está parecendo que alguém achou a esposa perfeita, hein? — ele provocou. — Vai lá, faz uma proposta. Talvez ela tope uma união relâmpago.
— Não seja bobo — retruquei, mas as palavras de Ryan me fizeram refletir. — Mas pensando bem... alguém como ela não seria uma má escolha. Tem presença, uma aparência à altura. Poderia facilmente convencer minha família e os outros acionistas. Seria uma fachada convincente.
Ryan riu, levando o copo aos lábios.
— Convincente para você, talvez. O que será que ela acharia? — Ele fez um gesto em direção ao salão, onde outras garçonetes iam e vinham com bandejas de bebidas e risos baixos entre as mesas. — Mulheres como ela, com essa segurança, geralmente têm uma história interessante. Talvez esteja fora do alcance até de um Lancaster.
Eu quase ri do comentário, mas ele tinha um ponto. De repente, a ideia de me aproximar e conhecê-la melhor parecia intrigante, mas sabia que tinha de ir devagar.
Isadora voltou alguns minutos depois, carregando nossas bebidas. Notei a mesma postura firme, os olhos atentos e uma tranquilidade que parecia torná-la indiferente à extravagância do lugar. Ela parecia confortável, mas de uma forma que indicava que estava ali por motivos próprios.
— Aqui estão suas bebidas, senhores.
— Obrigado, Isadora — agradeci, sem conseguir disfarçar a curiosidade. — Você é de Nova York? Seu sotaque e seu nome são diferentes.
Ela ergueu o olhar, um leve sorriso desenhando-se em seus lábios.
— Sou do Brasil. Vim para Nova York há um ano.
Havia uma pausa calculada em suas palavras, como se estivesse acostumada a esse tipo de curiosidade. Ryan, notando meu interesse, mordeu o lábio, segurando o riso.
— O Brasil, claro — eu disse, tentando não parecer mais interessado do que deveria. — Imagino que Nova York seja bem diferente do que você estava acostumada.
— É, mas eu gosto — respondeu com simplicidade. — Cidade interessante, cheia de oportunidades. Exatamente o que eu estava procurando.
Ela não deu muitos detalhes, e, sem querer invadir o espaço dela, apenas concordei com a cabeça.
— A cidade ganha um pouco mais de brilho, então — respondi, casualmente. Ela apenas sorriu, quase como se entendesse que era uma tentativa desajeitada de elogio. Então, acenou rapidamente e voltou para atender outros clientes.
Assim que Isadora se afastou, Ryan se inclinou sobre a mesa, me observando com um olhar astuto.
— "A cidade ganha um pouco mais de brilho?" Nicholas Lancaster fazendo galanteios? Isso é novo.
— Cala a boca, Ryan — murmurei, mas percebi que ele estava mais certo do que eu gostaria de admitir.