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1790 Palavras
DV narrando O povo fala que eu sou ruim.Que meu coração já virou pedra.Que onde eu passo, o ar pesa.E talvez, eles tão certo. Ou quase. Mas ninguém nasce vilão, não.A gente vira, quando o mundo só dá porrada. Meu nome é Davi, mas no morro me chamam de DV. Tenho 24 anos, e sou o chefia da Favela do Vintém. Ninguém sobe, ninguém desce, sem meu aval.Mas antes de mandar em alguma coisa, eu precisei engolir muita miséria, muita dor. Cresci num barraco onde a goteira era minha trilha sonora de noite. Minha mãe guerreira demais virava três pra botar um prato de comida na mesa. Lavava banheiro, passava roupa pros outros, tudo com sorriso no rosto. E o Tiaguinho, meu irmão mais novo.Ele era meu coração fora do corpo. Um moleque puro, doente de nascença, mas que ainda assim ria de qualquer coisa. Ria até dos trovão, dizia que era “Deus roncando”. O nosso pai?Sumiu antes de eu completar sete anos. Foi ``comprar cigarro´´ e voltou só em notícia de tragédia. Baleado na porta de um bar por causa de uma dívida de baralho. Aí eu entendi: a gente só podia contar com a gente mesmo. Com 12 anos, entrei pro corre. Comecei pequeno, só entregando as paradinhas. Mas era aquilo ou ver minha mãe chorar de fome e o Tiaguinho sem remédio.E eu não ia deixar isso acontecer.Na quebrada, eu escutei promessas de todo tipo.De crente que dizia que Deus ia mudar tudo. De político que só aparecia em época de eleição.De traficante que dizia que ia me ensinar a ficar rico.E eu fiz as minhas também. Prometi pra mim mesmo que ia tirar minha mãe daquele lugar.Prometi que o Tiaguinho ia ter tudo que eu não tive. Prometi que ninguém mais ia me ver de cabeça baixa. Mas o morro não tem piedade.Foi numa sexta, dia quente, quando a paz explodiu. Uma troca de tiro entre a gente e os alemão da Nova Aurora estourou bem na entrada do Vintém. O Tiaguinho, que tava indo buscar pão com a vizinha, levou uma bala perdida na barriga.Caiu na rua, sangrando, gritando por mim.A ambulância foi chamada.Mas não subiu.Disseram que tava perigoso demais. Que era área de risco. Minha mãe implorava. Eu gritei, supliquei, ofereci dinheiro.Mas nada. Meu irmão morreu nos meus braços. Com 10 anos, sem entender o porquê.Foi ali que o Davi morreu também.Ficou só o DV. Desde aquele dia, a dor virou raiva.A raiva virou sangue.E o sangue virou respeito. Fui subindo. Fiz o que tinha que fazer. Passei por cima de muito otário.Ganhei fama, medo, dinheiro. E quando o antigo dono da boca caiu, eu assumi tudo.Hoje, eu sou o chefe. Mas nada disso preenche o buraco que o Tiaguinho deixou.Às vezes eu fecho o olho e ainda escuto ele dizendo: “Davi, me leva contigo quando tu virar importante.” E eu levei, irmãozinho.Levei no peito, como cicatriz que não fecha. – Tá pensano na vida, chefia? – a voz do Ligeirinho me tirô dos pensamentos. Ligeiro é meu braço direito.Amigo desde de moleque. Dividiu marmita, chinelo furado e cela comigo.Ele sabe tudo de mim, até o que eu não falo. – Tô lembrando do Tiaguinho. Hoje faz sete anos. Ele ficou calado um tempo, depois falou: – Aquele moleque era luz. E tu fez o que podia, Davi. Tu virou gigante. – Gigante por fora – resmunguei. – Por dentro, tô todo lascado. Ele acenou com a cabeça. A gente entende o silêncio. Ficamos os dois ali, no terraço do meu barraco, olhando pro morro que pulsa noite e dia. As viela, os barraco, as mina gritando com os menino, a criançada jogando bola com garrafa pet. Meu mundo. Meu reino. – Davi, chegou um recado do Coreto. Disse que os alemão lá da Nova Aurora tão querendo invadir de novo. Suspirei fundo. Não era a primeira vez. E com certeza não ia ser a última. A guerra por território é constante. Mas o Vintém é minha casa. E ninguém tira minha casa de mim. – Fala pra ele que se eles tentar subir, vai ter baile de tiro. E eu vou ser o DJ. Ligeiro riu, mas no fundo sabia que eu tava falando sério. Mais tarde, desci sozinho pra andar no morro. Às vezes eu preciso lembrar pra quem eu tô fazendo tudo isso. Na entrada da viela da Maria Joana, a dona Neusa me parou. Ela é daquelas senhora que conhece todo mundo. – Davi, meu filho minha neta tá querendo estudar, mas num tem nem caderno. Eu senti o nó na garganta. Porque vi a minha mãe ali. A mesma cara cansada, o mesmo pedido disfarçado de carinho. – Passa lá na mercearia do Zé amanhã. Vou deixar o dinheiro do material. – Que Deus te abençoe, filho. Deus? Ele já me esqueceu faz tempo. Mas mesmo assim, eu agradeci com a cabeça e segui. Quando cheguei em casa, minha mãe tava sentada na cozinha, mexendo no caderno do Tiaguinho que ela guarda até hoje. Sentei ao lado dela, peguei a mão dela, beijei. – Eu só queria ter salvado ele, mãe. – Tu salvô. Salvô com amor. O que ele viveu já foi mais do que muita criança aqui vive. Ele te amava. Fiquei em silêncio. Só sentindo o coração bater doído no peito. Depois que minha mãe foi dormir, eu fiquei sentado no sofá da sala. A luz da televisão fazia sombra nas paredes, e o barulho de tiro no fundo era só mais um som comum da noite. É engraçado como a gente se acostuma com o barulho da morte, né? No começo eu tremia, me escondia, rezava. Hoje em dia, só suspiro e conto quantos segundos durou o tiroteio. Como se fosse normal. Mas a verdade é que nunca foi normal. Só que a gente vive tanto tempo dentro do caos que esquece como é viver sem ele. Eu levantei e fui até o quarto. Abri a gaveta onde guardo as coisas do Tiaguinho. Tá tudo lá: o carrinho quebrado, o desenho rabiscado, a camiseta azul que ele mais gostava. Tudo com cheiro de saudade. Peguei a camiseta e encostei no rosto. Respirei fundo, tentando lembrar da voz dele. Mas já tá começando a sumir da memória. E isso… isso dói mais do que qualquer bala. No dia seguinte, acordei cedo. Antes do morro abrir os olhos. Botei a roupa de sempre: bermuda larga, regata branca, corrente no pescoço e o boné aba reta. Desci a viela com o pensamento longe, mas o olhar atento. Aqui, quem vacila, morre. No meio do caminho, encontrei o Naldinho, um dos olheiro mais novo. — Bom dia, chefia. Dormiu bem? — Dormir bem aqui é luxo, Naldinho. E luxo não cabe nesse meu barraco. Ele riu, sem saber se podia ou não. É sempre assim com os mais novo. Ficam tenso, com medo de falar o que não deve. Mas o que eles não sabem é que eu já fui um deles. Passei pela praça e vi o Baianinho montando o barraco de pastel. Sempre foi trabalhador. Nunca quis se envolver no crime, mesmo morando no meio dele. — E aí, Davi! Vai querer o de carne ou o de queijo hoje? — Os dois, Baianinho. Um pra mim e outro pro meu irmão. Ele abaixou os olhos, respeitoso. Todo mundo ali sabia a dor que eu carregava. Enquanto comia o pastel, fiquei olhando a criançada correr. Um molequinho, magrelo, de olho brilhando, me lembrou o Tiago. Mesmo sorriso banguela, mesma alegria boba. A mãe dele puxou ele pela orelha logo depois, reclamando que ia rasgar o chinelo novo. E eu ri. Ri de verdade. Fazia tempo que eu não ria assim. Na volta pro barraco, cruzei com o Pastor Joel. Ele sempre aparece por ali, distribuindo palavra, tentando salvar alma no meio da guerra. — Davi, posso orar por você? — Pastor, o Senhor sabe que meu tipo de pecado não sai com oração. — Todo homem tem redenção, meu filho. Até o que carrega sangue nas mãos. — Então ora por mim em silêncio. Vai que funciona. Ele sorriu e encostou a mão no meu ombro. — Deus não esquece de ninguém, Davi. Nem dos que acham que esqueceram dEle. Segui meu caminho sem responder. Mas aquela frase ficou na minha cabeça o resto do dia. Mais tarde, lá pela hora do pôr do sol, me sentei no alto da laje. Gosto de ficar ali quando o céu começa a mudar de cor. É um momento raro de paz. A favela fica bonita de longe. As laje batendo luz, os barraco pintado de qualquer cor, os varal balançando com vento... Tem beleza até na bagunça. Acendi um beck, mesmo sabendo que minha mãe odiava. – Isso vai te matar, Davi! – ela sempre fala. E eu sempre penso: “Já tô meio morto por dentro mesmo.” Mas não falo. Porque ela já perdeu demais pra ter que aguentar também minha amargura. Enquanto olhava o céu, Ligeirinho subiu com dois copos e uma garrafa de red label. — Vim dividir contigo, patrão. — Tá com saudade da época que a gente bebia no telhado, é? — Um pouco. Mas agora é diferente. Agora a gente bebe com segurança armada lá embaixo. Rimos. Mas riso de quem tá cansado. — Ligeiro... tu lembra do dia que a gente foi pego pela primeira vez? — Como esquecer? Tu chorava feito um bebê. E eu que segurava tua mão. — Tu também chorou, vacilão. — Mas foi depois que tu apagou. Eu tinha que manter a pose, pô. Aquele dia foi o primeiro dia que eu vi que a vida não ia aliviar pra mim. A gente tinha só 14 anos e já tava com nome sujo na polícia. Tudo pra botar comida em casa. Tudo pra não ver a mãe da gente chorando mais. Ligeirinho ficou ali comigo por um tempo. Falamos da vida, dos que morreram, dos que sumiram. — Acha que um dia isso aqui muda, Davi? – ele perguntou, olhando o morro lá embaixo. — Não sei, mano. Mas se não mudar... a gente que muda. — E se der merda? — A merda já tá feita há muito tempo. A gente só vive nela. Ele bebeu, e depois desceu. Fiquei ali sozinho, olhando o céu já escuro, só com uma ou outra estrela furando o cinza da cidade. Peguei meu caderno ,escrevi onde guardo meus pensamentos, porque até quem carrega uma arma precisa desabafar: "Nos becos eu me perdi, nas promessas eu me firmei. Mas foi na dor que eu virei rei." E foi nesse mesmo dia que eu trombei com ela. Mas essa parte… eu conto depois.
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