Marcelo
Depois de ouvir as palavras de Marcela, fiquei sem reação. Como assim ela ia partir no dia seguinte? Era como se, naquele momento, eu tivesse me tornado invisível para ela. Ela falava como se eu não estivesse ali, como se a minha presença não fizesse diferença alguma. Por sorte, Luana não estava presente. Seria um golpe duro para ela ver a irmã assim, tão distante e fria.
Fiquei parado, digerindo tudo, sem dizer nada. Era estranho pensar que aquela menina doce, que sempre me olhava com tanto brilho nos olhos, agora queria se afastar. Eu queria acreditar que tudo não passava de um momento passageiro, uma fase. "Ela é só uma criança", pensei. "Com o tempo, ela vai esquecer." Mas... e se eu estivesse errado? E se deixá-la se aproximar tanto foi um erro desde o início?
Quando Marcela saiu, Fábio me olhou com a testa franzida e me perguntou:
— Aconteceu alguma coisa entre você e a Marcela?
Olhei para ele, tentando esconder a confusão que me dominava.
— Não... nada. Por quê?
Ele suspirou, como se estivesse tentando juntar as peças.
— Não é nada, mas ela mudou desde o aniversário. Você notou?
Eu poderia ter dito tantas coisas naquele momento, mas preferi o silêncio. Apenas dei de ombros e murmurei:
— Não faço ideia do que possa ser.
Logo me despedi e fui embora. Aquele assunto me deixava inquieto, mas preferi não pensar mais. Ela partiria, e isso seria o melhor para todos. "Com o tempo, ela vai esquecer. Vai encontrar alguém da idade dela. É só uma fase", repeti para mim mesmo, tentando afastar qualquer sombra de culpa.
Marcela
Eu não queria mais estar ali. Não fazia sentido continuar naquele lugar onde tudo me lembrava dele... e da traição que senti. Os olhares preocupados de minha mãe Bruma, e até mesmo de Fábio, meu pai, só me faziam querer ir embora ainda mais rápido. Eu sabia que estavam se perguntando o motivo da minha mudança, mas eu não tinha mais palavras para explicar. Só queria distância.
Na hora da despedida, minha mãe tentou me abraçar. Senti a tristeza dela na forma como me envolveu, mas meus braços permaneceram imóveis ao redor do meu corpo. Não conseguia retribuir. Bruma, minha irmã, também tentou me abraçar. Pude sentir a culpa e o arrependimento no toque dela, mas não consegui ceder. Não era o suficiente.
O único abraço que retribuí foi o do meu pai, Fábio. Talvez porque, de alguma forma, ele não precisasse de explicações. Seu abraço era firme e silencioso, como se ele entendesse que às vezes o melhor a fazer era simplesmente deixar ir.
Bruma me olhou com tristeza, sem entender por que eu não conseguia lhe dar o mesmo carinho que dei ao nosso pai. Era uma dor que eu não sabia como explicar. Talvez ela sentisse o peso da distância que agora existia entre nós, uma distância que ela mesma ajudou a criar.
Enquanto todos ainda digeriam minha partida, ouvi passos atrás de mim. Olhei para frente e, ao longe, vi Marcelo vindo em nossa direção. Meu coração acelerou, mas não era mais por amor – era pela certeza de que eu não podia permitir que ele fizesse parte do meu futuro. Não mais.
De repente, meu celular tocou. O som familiar de uma chamada ecoou no ar, e eu soube que aquele era o momento perfeito. Antes que Marcelo pudesse me alcançar, virei e subi rapidamente as escadas do avião.
Não olhei para trás. Não esperei por ele. Apenas entrei no avião, deixando tudo e todos para trás.
Fábio (pai de Luana e Marcela)
Eu estava no quarto, sentado na cama, tentando entender o que estava acontecendo, quando Bruma entrou. Minha esposa parecia tão confusa quanto eu. Ela fechou a porta atrás de si e sentou ao meu lado.
— Amor, o que está acontecendo para a Marcela decidir terminar os estudos fora? — perguntou, com uma expressão preocupada.
Suspirei, tentando organizar meus pensamentos.
— Eu não sei, amor... Ela não me deu nenhuma explicação. Está tão diferente.
Bruma assentiu, olhando para o chão.
— Percebeu que ela e a Luana não se falam mais? Parece que algo grave aconteceu entre elas.
— Percebi — respondi, esfregando o rosto, sentindo a tensão nos ombros. — E o Marcelo? Ele parecia preocupado, mas também... distante. Tem algo aí, algo entre ele e Luana, que está machucando Marcela.
Ela olhou para mim, buscando respostas que eu também não tinha.
— Eu achei que dar um tempo a ela seria a melhor coisa. Mas acho que me enganei.
Bruma segurou minha mão, e ficamos ali em silêncio, tentando encontrar um jeito de alcançar nossa filha antes que ela partisse para sempre.
Bruma (mãe de Luana e Marcela)
Desde o aniversário de Marcela, algo estava errado. Eu tentava me aproximar, mas ela se afastava mais a cada dia. Meu coração apertava sempre que a via passar por mim, tão fria e distante. Era como se aquela menina alegre e carinhosa tivesse desaparecido.
Quando ela anunciou que queria ir embora para terminar os estudos, senti como se o chão tivesse sumido sob meus pés. Por que nossa filha faria algo assim? Precisava entender. Na noite antes da partida, fui até o quarto dela, determinada a ter alguma resposta.
— Marcela, por que você está fazendo isso? — perguntei, sentindo a tristeza apertar meu peito.
Ela parou por um momento, mas não me olhou.
— Preciso ir. Não é só pelos estudos. Eu preciso de distância.
— Distância? Por quê? — insisti, tentando segurar as lágrimas. — Se fiz algo errado, me diz... Não quero que você vá assim, sem me dar uma chance de entender.
Ela permaneceu em silêncio, sua expressão fechada. Então, percebi que não era apenas uma despedida breve. Marcela estava se despedindo para valer, como se quisesse cortar todos os laços até que encontrasse uma maneira de esquecer o que a machucava tanto.
Marcela
Enquanto todos achavam que minha partida seria temporária, eu sabia que não era. Eu precisava ir para longe, tão longe quanto possível, até que aquele sentimento que me sufocava desaparecesse. Não era só o amor por Marcelo que eu precisava esquecer – era a dor de ver minha irmã, Luana, envolvida com ele. Eu sabia que ela não tinha culpa, mas não conseguia lidar com isso. Cada vez que os via juntos, era como uma faca girando dentro de mim.
No dia da partida, tentei manter a calma. Meus pais e minha irmã estavam ali, esperando por uma despedida que eu não podia dar completamente. Quando minha mãe, Bruma, me abraçou, fiquei imóvel. Não consegui retribuir. A culpa, a dor... era demais.
Luana também tentou me abraçar. Eu vi o arrependimento nos olhos dela, mas meu coração estava fechado. Não havia espaço para perdão naquele momento.
Quando meu pai, Fábio, me abraçou, foi diferente. Seu abraço era silencioso, mas compreensivo, e eu me permiti retribuí-lo. Ele era o único que não pedia explicações, apenas aceitava minha decisão.
Logo depois, vi Marcelo se aproximando. Meu coração acelerou, mas não por amor. Era a certeza de que não poderia deixar que ele fizesse parte da minha vida outra vez.
Então, o som da chamada no meu celular ecoou no ar. Era o momento perfeito. Sem esperar por ele, virei e entrei no avião. Não olhei para trás. Eu sabia que, para seguir em frente, precisava cortar todos os laços. Meu destino era incerto, mas qualquer lugar seria melhor do que aquele em que meu coração havia sido partido.