Capítulo 13 – Entre Correntes e Promessas

670 Palavras
O recomeço não veio com flores. Não houve presentes, nem gestos grandiosos. O retorno de Thomas à casa de Eloísa foi marcado por silêncios longos e olhares atentos. Cada passo que ele dava era observado, cada gesto pesado pelo passado. De manhã, Thomas saía cedo para o banco. O uniforme impecável, a gravata bem alinhada — tentava mostrar disciplina, responsabilidade, como se a aparência pudesse apagar as falhas. Eloísa, da cozinha, preparava o café em silêncio. Colocava uma xícara à frente dele, mas raramente o acompanhava à mesa. Havia um esforço ali, mas o abismo ainda existia. — Obrigado pelo café — dizia Thomas, toda manhã. Eloísa apenas assentia, sem sorrir. Dona Marta continuava presente como sombra. Ouvia conversas pela fresta da porta, espiava os horários de Thomas, vigiava suas idas e vindas. Quando ele chegava mais tarde do trabalho, o olhar da sogra era inquisidor. — O banco fecha às quatro. — A frase vinha seca, sem perguntar, apenas acusando. Thomas respirava fundo, controlando a raiva. — Sempre tem relatórios, dona Marta. Nem sempre saio no horário. Eloísa observava, em silêncio. Parte dela acreditava, parte desconfiava. A mãe alimentava essa dúvida todos os dias, sem descanso. À noite, o quarto voltara a ser dividido. Mas não como antes. Eloísa ainda mantinha distância, mesmo deitada ao lado dele. Thomas respeitava. Tocava-lhe a mão com cuidado, como quem pede permissão para existir. Às vezes, ela deixava. Outras, virava-se para o canto e fingia dormir. Uma noite, depois de um coral, ele arriscou: — Você acredita em mim? Eloísa demorou a responder. — Eu quero acreditar. Mas não consigo esquecer. A frase caiu como peso entre eles. Thomas suspirou, deitando-se de costas. Sabia que a reconquista não viria em um dia, nem em uma semana. Talvez nunca viesse completamente. Na igreja, a situação era mais dura. O pastor mantinha-o afastado do coral. Sentava-se nos últimos bancos, sentindo os olhares. Alguns desviavam, outros encaravam com frieza. Cada hino que ouvia parecia acusá-lo. Eloísa, ao lado, cantava com voz firme, mas raramente segurava sua mão. O espaço entre eles era visível até para quem não queria notar. Depois do culto, irmãs se aproximavam para consolar Eloísa, raramente dirigindo palavras a ele. — Você é forte, minha filha. Continue firme. Thomas engolia o orgulho, em silêncio. Mas havia também pequenos sinais de esperança. Um sábado à noite, Eloísa preparou o jantar e chamou Thomas para ajudá-la. Ele picou legumes, enquanto ela mexia a panela. Pela primeira vez em semanas, riram juntos de um corte torto na cenoura. Foi um instante breve, mas verdadeiro. — Senti falta disso — disse Thomas, quase em sussurro. Eloísa não respondeu, mas o olhar suavizou. Ainda assim, as correntes da desconfiança apertavam. Uma vez, o celular dele vibrou na mesa, e Eloísa congelou. Thomas percebeu o olhar dela fixo no aparelho. — Pode olhar, se quiser. — Estendeu o celular. — Não tenho nada a esconder. Ela hesitou, mas não pegou. — Não quero viver vigiando, Thomas. Só quero confiar. Ele engoliu em seco, guardando o telefone no bolso. Dona Marta não perdia a oportunidade de envenenar o ambiente. — Ele diz que mudou, mas o lobo sempre volta ao pecado. — Mamãe, basta. — Eloísa começava a reagir. — Não me ajude a desconfiar mais. Eu já tenho lutas suficientes. Mesmo contrariada, a mãe resmungava e se calava. Certa noite, Thomas voltou exausto do trabalho. Eloísa já estava deitada. Ele deitou ao lado, sem esperar nada. Mas, depois de alguns minutos, sentiu a mão dela tocar a dele. Não havia desejo no gesto, apenas um pedido silencioso de proximidade. Thomas apertou levemente, os olhos marejando. — Obrigado — sussurrou. Naquele momento, entendeu que o recomeço não seria feito de promessas grandiosas, mas de migalhas de confiança recuperada. Pequenas, frágeis, mas reais. Ainda havia vigilância, ainda havia desconfiança, ainda havia correntes. Mas, naquela cama silenciosa, havia também uma centelha de esperança — a promessa de que, talvez, reconstruir fosse possível, mesmo que nunca esquecendo as ruínas sobre as quais caminhavam.
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