Os dias seguintes foram diferentes.
Lígia e Thomas começaram a se encontrar com mais frequência, de forma natural, sem cobranças nem pressa.
Um café no meio da tarde, um jantar leve depois do trabalho, uma caminhada pela praça ao entardecer — nada grandioso, mas tudo sincero.
Havia algo reconfortante naquela convivência.
Ela sabia conversar, sabia ouvir, e principalmente, sabia respeitar o silêncio dele.
E Thomas, acostumado a relações que exigiam demais ou o faziam sentir de menos, começava a se sentir à vontade de novo.
Naquela noite de sexta-feira, combinaram um jantar fora.
O restaurante era pequeno, iluminado por luzes amareladas e com música ao fundo.
Lígia chegou primeiro, com um vestido simples e sorriso calmo.
Thomas sentou-se à frente dela, sentindo o coração bater diferente — não rápido, mas firme.
— Você parece nervoso — disse ela, divertida.
— Um pouco — confessou. — Faz tempo que eu não janto com alguém que realmente me interessa.
Ela riu, brincando com o guardanapo.
— Isso é bom de ouvir… mas parece que você fala como quem tem medo disso.
Ele pensou antes de responder.
— Medo, não. Respeito.
— Respeito pelo quê? — perguntou, inclinando-se levemente.
— Por sentir de novo.
Lígia o observou com ternura.
— Thomas, você não precisa se punir por ter vivido. Todo mundo carrega algo. A diferença é o que a gente faz com o que ficou.
Ele sorriu, meio sem graça.
— Você fala como quem entende.
— Entendo sim. — respondeu ela. — Também tive amores que me quebraram. Mas aprendi que o coração não é de vidro. Ele racha, mas não se parte.
Thomas ficou em silêncio por um instante, e então murmurou:
— O meu rachou muitas vezes.
— Então é sinal de que você ainda tem um. — disse ela, sorrindo.
O jantar seguiu leve, com risadas e histórias da infância.
Thomas se surpreendia com a naturalidade dela, com o jeito despretensioso de estar presente.
Quando a noite terminou, ele a acompanhou até o carro.
— Gostei da sua companhia — disse ele.
— Eu também. — respondeu ela. — E se você quiser, posso te ensinar a dançar direito da próxima vez.
Ele riu.
— Vou precisar de umas aulas extras.
— Então me chama logo pra próxima.
Nos dias seguintes, as mensagens se tornaram rotina.
“Bom dia” que arrancavam sorrisos, “boa noite” que vinham com tranquilidade.
Mas, mesmo gostando dela, Thomas sentia um conflito interno crescer.
Não era medo do amor — era medo de acreditar demais.
As marcas de Cíntia, Thamires e até de Eloísa ainda estavam ali, como ecos de uma história m*l resolvida.
Ele se pegava, às vezes, evitando se abrir demais, como quem teme estragar algo bom com lembranças ruins.
Lígia percebeu.
— Às vezes você se afasta — disse ela, certa tarde no café. — Parece que tá aqui, mas não tá.
Ele desviou o olhar.
— Eu só não quero ser aquele cara que machuca alguém por ainda estar consertando a si mesmo.
— E quem te disse que você precisa estar inteiro pra merecer amor? — perguntou ela, com doçura. — Talvez alguém só precise gostar das partes que já estão prontas.
Thomas ficou em silêncio.
Aquelas palavras o atingiram de forma inesperada.
Naquela noite, deitado em casa, ele pensou nela.
Em como Lígia o fazia rir sem esforço.
Em como o olhava sem julgamento.
E pela primeira vez em muito tempo, sentiu vontade de tentar — não porque precisava, mas porque queria.
Pegou o celular e escreveu:
“Posso te ver amanhã? Não pra jantar. Só pra andar, conversar, sem pressa.”
A resposta veio rápida:
“Pode. Às vezes, o que a gente mais precisa é só isso mesmo.”
Thomas sorriu.
Era simples.
Era leve.
Era diferente de tudo o que ele já viveu.
E enquanto o sono chegava, ele pensou:
“Talvez amar de novo não seja repetir o passado,
mas aprender a não ter medo do futuro.”