Capítulo 16 – A Outra Quer Mais

657 Palavras
Thomas acreditava que podia controlar a situação. Que podia manter Carina à distância, apenas o suficiente para alimentar o fogo, sem deixar queimar tudo outra vez. Mas estava enganado. Os encontros, antes esporádicos, tornaram-se rotina. Um café depois do expediente. Um toque rápido no carro. Um fim de tarde em silêncio, apenas corpos se procurando. E, a cada encontro, o laço se apertava. Carina já não o olhava como cúmplice — olhava como quem quer ser escolhida. Numa sexta-feira abafada, ela o esperava na mesma cafeteria onde se conheceram. Quando ele chegou, o sorriso dela era tenso, quase forçado. — Pensei que não vinha — disse, mexendo distraída o canudo do suco. — Eu quase não vim — respondeu Thomas, sentando-se. — Está tudo confuso. — Confuso? — Ela deu uma risada amarga. — A confusão é minha, Thomas. Eu sou quem espera suas mensagens, quem te vê ir embora sempre olhando o relógio. Ele abaixou o olhar. — Eu não quero te machucar. — Já machucou. — Ela cruzou os braços. — Você diz que não quer, mas continua vindo. Você acha que eu não percebo que sou só uma fuga pra você? Thomas engoliu em seco. — Eu… — Não fala. — Carina interrompeu. — Eu te conheço o bastante pra saber quando você mente. O silêncio pesou. O ar-condicionado zumbia, abafando o som das vozes ao redor. Carina o encarava com olhos marejados, mas duros. — Eu quero mais, Thomas. — A voz dela tremia. — Eu cansei de ser “a outra”. Ele se recostou, sem saber o que dizer. A culpa apertava o peito, mas o desejo ainda o prendia. — Você sabe que não posso te dar mais que isso. — Pode sim. — Ela se inclinou, firme. — Você é covarde demais pra admitir. Vive dizendo que quer mudar, mas continua preso a uma mulher que você não ama, a uma casa que te sufoca, a uma igreja que te condena. As palavras acertaram fundo. Thomas ficou mudo, sentindo a verdade amarga por trás da raiva dela. — Eu não sou um erro, Thomas. — As lágrimas caíram sem que ela as limpasse. — Eu te amo. E você não tem coragem de me escolher. Ele quis segurar a mão dela, mas Carina recuou. — Não faz isso. Não me toca como consolo. Thomas saiu da cafeteria com o corpo pesado. A chuva começava a cair, fina, como um castigo silencioso. Caminhou sem rumo pelas ruas, o coração dividido em mil pedaços. Sabia que Carina tinha razão. Mas também sabia que o perdão de Eloísa era tudo o que ainda o mantinha de pé. Naquela noite, Eloísa percebeu o olhar distante. — Está tudo bem? — perguntou, servindo o jantar. Thomas respondeu com um sorriso forçado. — Só cansado. Mas o olhar dela não acreditou. Quando ele se deitou, o celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma única mensagem: Carina: “Ou você me escolhe, ou me esquece. Eu não vou mais viver na sombra.” Thomas apagou a tela, o coração disparado. Do lado, Eloísa dormia tranquila — e isso o partia ainda mais. No escuro, encostou a testa no travesseiro e pensou no abismo que cavava com as próprias mãos. O amor que sentia por Eloísa era real, mas estava coberto de rachaduras. E Carina, com toda sua intensidade, era a lembrança viva de um desejo que ele não sabia sepultar. As duas o prendiam de formas diferentes — e, ironicamente, as correntes vinham de lados opostos. Quando a madrugada caiu, Thomas levantou-se e foi até a varanda. A cidade dormia, e o vento frio trouxe o cheiro de chuva. Pegou o celular outra vez. O polegar pairou sobre o número de Carina. Ele sabia o que devia fazer. Sabia, mas não sabia se conseguiria. No fundo, o maior castigo de Thomas não era o pecado — era o desejo que nunca o deixava em paz.
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