Thomas acreditava que podia controlar a situação. Que podia manter Carina à distância, apenas o suficiente para alimentar o fogo, sem deixar queimar tudo outra vez. Mas estava enganado.
Os encontros, antes esporádicos, tornaram-se rotina. Um café depois do expediente. Um toque rápido no carro. Um fim de tarde em silêncio, apenas corpos se procurando. E, a cada encontro, o laço se apertava. Carina já não o olhava como cúmplice — olhava como quem quer ser escolhida.
Numa sexta-feira abafada, ela o esperava na mesma cafeteria onde se conheceram. Quando ele chegou, o sorriso dela era tenso, quase forçado.
— Pensei que não vinha — disse, mexendo distraída o canudo do suco.
— Eu quase não vim — respondeu Thomas, sentando-se. — Está tudo confuso.
— Confuso? — Ela deu uma risada amarga. — A confusão é minha, Thomas. Eu sou quem espera suas mensagens, quem te vê ir embora sempre olhando o relógio.
Ele abaixou o olhar.
— Eu não quero te machucar.
— Já machucou. — Ela cruzou os braços. — Você diz que não quer, mas continua vindo. Você acha que eu não percebo que sou só uma fuga pra você?
Thomas engoliu em seco.
— Eu…
— Não fala. — Carina interrompeu. — Eu te conheço o bastante pra saber quando você mente.
O silêncio pesou. O ar-condicionado zumbia, abafando o som das vozes ao redor. Carina o encarava com olhos marejados, mas duros.
— Eu quero mais, Thomas. — A voz dela tremia. — Eu cansei de ser “a outra”.
Ele se recostou, sem saber o que dizer. A culpa apertava o peito, mas o desejo ainda o prendia.
— Você sabe que não posso te dar mais que isso.
— Pode sim. — Ela se inclinou, firme. — Você é covarde demais pra admitir. Vive dizendo que quer mudar, mas continua preso a uma mulher que você não ama, a uma casa que te sufoca, a uma igreja que te condena.
As palavras acertaram fundo. Thomas ficou mudo, sentindo a verdade amarga por trás da raiva dela.
— Eu não sou um erro, Thomas. — As lágrimas caíram sem que ela as limpasse. — Eu te amo. E você não tem coragem de me escolher.
Ele quis segurar a mão dela, mas Carina recuou.
— Não faz isso. Não me toca como consolo.
Thomas saiu da cafeteria com o corpo pesado. A chuva começava a cair, fina, como um castigo silencioso. Caminhou sem rumo pelas ruas, o coração dividido em mil pedaços.
Sabia que Carina tinha razão. Mas também sabia que o perdão de Eloísa era tudo o que ainda o mantinha de pé.
Naquela noite, Eloísa percebeu o olhar distante.
— Está tudo bem? — perguntou, servindo o jantar.
Thomas respondeu com um sorriso forçado.
— Só cansado.
Mas o olhar dela não acreditou.
Quando ele se deitou, o celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma única mensagem:
Carina: “Ou você me escolhe, ou me esquece. Eu não vou mais viver na sombra.”
Thomas apagou a tela, o coração disparado.
Do lado, Eloísa dormia tranquila — e isso o partia ainda mais.
No escuro, encostou a testa no travesseiro e pensou no abismo que cavava com as próprias mãos. O amor que sentia por Eloísa era real, mas estava coberto de rachaduras. E Carina, com toda sua intensidade, era a lembrança viva de um desejo que ele não sabia sepultar.
As duas o prendiam de formas diferentes — e, ironicamente, as correntes vinham de lados opostos.
Quando a madrugada caiu, Thomas levantou-se e foi até a varanda. A cidade dormia, e o vento frio trouxe o cheiro de chuva. Pegou o celular outra vez.
O polegar pairou sobre o número de Carina.
Ele sabia o que devia fazer.
Sabia, mas não sabia se conseguiria.
No fundo, o maior castigo de Thomas não era o pecado — era o desejo que nunca o deixava em paz.