Capítulo 21 – O Retorno

699 Palavras
A tarde estava abafada, o ar parado, como se a cidade inteira esperasse algo prestes a explodir. Eloísa lavava a louça, tentando se distrair do peso dos últimos dias. O barulho da água e o tilintar dos pratos eram o único som da casa. Thomas estava no quarto, revisando papéis do banco, quando a campainha tocou. Duas vezes. Pausadamente. Como quem sabe exatamente o ritmo da tensão. Eloísa se secou, foi até a porta e abriu. Do outro lado, estava Carina. Em carne, osso e perfume. — Boa tarde — disse, com um meio sorriso. — Thomas está? Eloísa ficou imóvel. O nome dela soou como um soco. Não havia dúvida. A voz, o olhar, a postura — era a mulher que rondava o silêncio do marido há meses. — Quem é você? — perguntou, a voz fria. Carina cruzou os braços. — Acho que já sabe. Thomas ouviu o nome dela ecoar do corredor e o coração disparou. Levantou-se num salto, mas já era tarde. Quando chegou à sala, as duas se encaravam — o passado e o presente em lados opostos do mesmo campo de guerra. — Carina, o que você está fazendo aqui? — A voz dele saiu trêmula. — Vim resolver o que você não teve coragem. — Ela o encarou com ironia. — Achei que devia me apresentar à sua esposa. Afinal, ela deve ter o direito de saber tudo. Eloísa virou-se para ele, os olhos marejados. — Tudo o quê, Thomas? — Nada! — tentou dizer, aproximando-se. — Ela está mentindo, Eloísa, eu juro… Carina deu uma risada curta, amarga. — Mentindo? Quer que eu mostre as mensagens que você apagou? Ou quer que eu conte o que prometeu na última vez que me viu? Thomas empalideceu. Eloísa o olhou com uma mistura de raiva e decepção. — Então foi isso que você “resolveu”? — disse, com a voz embargada. — Era com ela que você estava aquele dia. Carina deu um passo à frente, como se o chão fosse dela. — Ele disse que o casamento de vocês era só aparência. Que estava preso a uma vida que já não queria. Eloísa respirou fundo, tentando conter o choro. — E você acreditou nisso? — Acreditei no que ele me fez sentir — respondeu Carina, firme. — E pelo visto, você também acreditou. As palavras cortaram o ar como lâmina. Thomas tentou intervir. — Carina, chega! Você não entende o que está fazendo. Ela o encarou, os olhos úmidos. — Entendo sim. Você só me usou pra fugir da vida que escolheu. E agora quer fingir que nada aconteceu. Eloísa segurou o encosto da cadeira, as mãos tremendo. — Eu perdoei você, Thomas. Te dei uma segunda chance. E tudo o que fez foi me humilhar outra vez. — Não é assim — ele tentou dizer. — Eu errei, mas estou tentando mudar! — Mudar não é apagar o que você fez — ela respondeu, firme. — É ter coragem de encarar as consequências. O silêncio tomou a sala. Carina respirava rápido, os olhos marejados; Eloísa estava fria, mas partida; e Thomas, de joelhos, parecia um homem que já não sabia o que salvar. — Você quer saber o pior? — disse Carina, com a voz falhando. — Eu ainda te amo, Thomas. Mesmo sabendo que você nunca vai me escolher. Ela pegou a bolsa, limpou uma lágrima e olhou para Eloísa. — Ele não é mau. Só é fraco. E gente fraca destrói o que toca. E saiu, batendo a porta. O silêncio que ficou foi mais alto do que qualquer grito. Eloísa olhou para Thomas — não com ódio, mas com algo pior: despedida. — Eu não vou te expulsar. — A voz dela era calma, quase serena. — Mas não sei se ainda posso ficar. Ela se virou e subiu as escadas, deixando-o sozinho na sala. Thomas caiu no sofá, as lágrimas desabando. Lá fora, o céu desabava também. E, pela primeira vez, ele entendeu o verdadeiro castigo do pecado: não era a culpa, nem a punição. Era ver tudo o que amava ir embora — enquanto ele ainda estava ali, preso nas próprias correntes.
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