Capítulo 11 – O Peso da Casa

533 Palavras
O domingo parecia mais silencioso que os outros. Eloísa estava sentada à mesa do café, mexendo distraída a colher no copo de leite. O banco vazio ao seu lado parecia gritar a ausência de Thomas. Mas, mais que isso, a ausência dela mesma, da vida que nunca pôde escolher. Dona Marta irrompeu na cozinha com a Bíblia debaixo do braço. O rosto estava duro, como se a filha tivesse cometido uma heresia apenas por respirar. — Você não foi à igreja hoje, Eloísa. — Não era pergunta. Era acusação. Eloísa ergueu os olhos, cansados mas firmes. — Eu não quis ir, mamãe. Precisava de silêncio. O estalo que se seguiu não veio de mão ou objeto, mas da própria atmosfera. Marta apertou os lábios, como se buscasse conter a fúria. — Silêncio? A casa do Senhor é lugar de resposta! Você está se desviando! Eloísa pousou a colher. Pela primeira vez, não se encolheu. — Não, mamãe. Estou tentando me encontrar. Desde criança, cada passo meu foi decidido por você, pela igreja, pelo pastor. Agora eu preciso descobrir quem eu sou sem essas vozes. A mãe a fitou como se visse uma estranha. — Você está blasfemando. Não percebe? O inimigo está tomando conta da sua mente! — O inimigo não, mamãe. — Eloísa respirou fundo. — É só a minha própria voz. As palavras ecoaram pelo cômodo, cortando o ar como faca. Marta se aproximou, o dedo em riste. — Eu não criei você para me enfrentar. Eloísa conteve o choro. — Não, mamãe. A senhora me criou para obedecer. Mas eu não sou mais menina. Nos dias que seguiram, a tensão encheu o apartamento. Dona Marta orava em voz alta madrugada adentro, clamando pela “libertação da filha”. Acendia velas, jejuava, repetia versículos na sala como se fossem martelos. Eloísa, trancada no quarto, tentava ler, ouvir música, escrever em cadernos antigos. Cada palavra escrita era como respirar fora da água. Mas a culpa ainda mordia. Crescera acreditando que sair da igreja era como caminhar para o inferno. O coração oscilava entre medo e coragem. Na quarta-feira, Marta a acordou antes do sol. — Vamos. Vai ter culto de libertação. Você precisa. Eloísa levantou-se devagar, o rosto ainda inchado de sono. — Eu não vou. A mãe arregalou os olhos. — Não brinque com isso! Está decidindo contra Deus! — Não, mamãe. Estou decidindo contra a senhora. — A frase saiu num sussurro, mas foi suficiente para estilhaçar o silêncio. Naquele dia, Eloísa saiu cedo de casa. Caminhou pelas ruas de Recife como quem redescobre o mundo. Comprou um café na esquina, sentou-se sozinha, observou o vai e vem das pessoas. Pela primeira vez, não era “a esposa de Thomas” nem “a filha de dona Marta”. Era apenas Eloísa. Sorriu de leve, um sorriso tímido, mas genuíno. Sabia que o caminho seria difícil. A igreja não a aceitaria como antes. A mãe a veria como rebelde. Mas, dentro de si, havia uma paz nova — uma paz construída não pela voz dos outros, mas pela sua própria escolha. E, ao levantar-se da mesa, Eloísa sentiu algo que nunca havia sentido: o peso das correntes diminuindo.
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