Dulce Maria
Eu não dormi nada bem à noite e fiquei me perguntando com que cara eu entraria na casa de Christopher sábado à tarde. O melhor era que eu tinha certeza que ele tentaria ignorar a minha presença como fez da última vez.
Enquanto eu tomava uma xícara de café depois de acordar bem cedo, comecei a relembrar o que aconteceu na noite anterior. Gostei da forma como ele me tocou, eu desejei ter mais e achei mesmo que teria. Tentei de diversas formas entender o lado dele e minha única conclusão foi de que ele era um viúvo preso à memória de sua esposa. Christopher não se permitiria viver algo comigo e eu acho até que era melhor assim.
Sempre fui uma pessoa muito intensa, eu gostava de me apaixonar, de ter alguém para cuidar de mim e que eu pudesse confiar. Christopher não poderia me passar nenhuma segurança agindo como se tivesse algum tipo de transtorno de personalidade, passando de extremamente e******o comigo a um cara arrependido e furioso.
— No que a minha doidinha está pensando? — Maite perguntou ao entrar na cozinha. Ela me abraçou por trás e beijou o topo da minha cabeça, depois sentou na cadeira ao meu lado enquanto sorria.
— Acho que você errou o número da camisa, está larga demais. — brinquei ao notar que ela vestia uma camisa de Christian.
— Ontem foi a melhor noite que já passei nesse apartamento!
— E o Derick?
— Quem? — debochou.
— Coitadinho, ele nos salvou de um incêndio. — ironizei.
— Não se preocupe, eu vou aconselha-lo a fazer um curso para bombeiro depois de chutar a b***a dele. — riu.
— Santa sensibilidade. — ri também.
— E então, no que estava pensando? Você literalmente nunca fica quieta. Foi até estranho acordar sem sentir cheiro podre de incenso.
— Eu nem lembrei de começar o meu dia direito. — dei um tapinha em minha própria testa.
— Foi a festa de ontem? O que rolou?
— Eu m*l entrei no salão e já tive o meu vestido criticado por Belinda Peregrín. Acho que me humilhar será uma das maiores motivações da vida dela daqui em diante. — suspirei.
— Olha, é só falar que eu juro que dou uma paulada nela.
— Ela é mãe de uma aluna. — dei risada.
— E eu sou quase sua mãe. Ninguém pode mexer assim com você! Eu quero que um dia ela faça isso na minha frente.
— Aposto que você perderia seu emprego.
— Tudo bem, agora você tem dois.
— Não me deixa comprar um carro sozinha, mas quer que eu te sustente? — cerrei os olhos.
— Nós fizemos a manutenção, nossa picape ainda tem alguns anos de vida, coitada. — neguei com a cabeça dando risada. — Mas foi só a Belinda?
— Não.
— Quem mais foi escroto com você? Nesse eu posso bater, não posso?
— Não, não pode. Mas ele não foi exatamente escroto comigo. Foi bem estranho, na verdade.
— Desembucha. — me olhou curiosa.
— Depois que a Belinda foi uma vaca comigo, eu saí de lá e subi até uma varanda. O Christopher foi atrás de mim, eu explodi num excesso de fúria e então ele me beijou. — Maite engasgou com o café e eu tive que dar uns tapinhas em suas costas.
— O que!? — arregalou os olhos. — Como? Por que?
— Sei lá. — dei de ombros. — Dizer que ele me beijou é muito pouco para descrever a intensidade do que aconteceu. Eu nunca fiquei excitada só de tocarem na minha cintura.
— Meu Deus! Meu Deus! — riu com animação. — Você vai fisgar um rico? Agora pode comprar um carro, não ligo.
— O Christopher é um poço de complicação e eu decidi que não quero isso pra mim. Não quero algo que dê errado de novo. O cara surtou depois de me beijar e pareceu muito arrependido.
— Por causa da falecida?
— Provavelmente.
— É, já basta você ter lidado com um marido safado em Los Angeles. Não precisa de alguém que não se prenda a você por causa do passado.
— Eu teria que amar muito alguém para aceitar lidar com as coisas que ela não superou.
— Coitado, né? Não conseguir ser feliz com outra pessoa deve ser um saco.
— Ele não consegue ser feliz porque a amava de verdade. É difícil deixar o amor ir embora, mesmo que a pessoa já tenha ido.
— Ok, isso ficou pesado demais! Até eu quero um pouco de incenso nessa casa. — ficou de pé. — Onde você guarda aquelas varetas?
— Segunda gaveta da minha cômoda. — sorri vendo-a ir até o meu quarto.
Fiquei sozinha só por poucos minutos, já que Christian apareceu usando apenas uma calça de moletom, esfregando os olhos e com um semblante de cansaço.
— Que catástrofe passou por cima de você? — perguntei.
— Furacão Maite. — respondeu indo até a cafeteira.
[•••]
— Ok, ninguém me viu caindo igual um saco de batatas no chão. — falei para mim mesma enquanto caminhava até a entrada da casa.
As portas estavam abertas, então achei melhor ir entrado. Fui em direção ao piano e ao invés de encontrar a Amber, vi Bela sentada no banco, tocando em algumas teclas. Ela sorriu ao me ver, levantou-se e correu até mim com os braços abertos. Nós nos abraçamos por alguns segundos.
— Fiquei preocupada com você por não ter voltado. O que aconteceu?
— Eu... — quase transei com o meu chefe na varanda da casa dele. — Só resolvi ir embora.
— Por causa da minha mãe? — ela pareceu desanimada. — Dulce, eu sinto muito. Ela não costuma agir assim, não sei o que deu nela.
— Está tudo bem, eu já disse que você não precisa se desculpar por ela. — sorri.
— Você chegou! — Amber apareceu sorrindo e se aproximou para me abraçar. — Você está bem? Por que foi embora sem se despedir?
— Eu não me senti muito bem, achei melhor ir embora. Bom, nós podemos começar a aula?
— Eu posso assistir? — Bela perguntou.
— Sim, é claro!
Comecei a aula e foi bem tranquilo para mim, já que Amber conseguia aprender bem rápido. Bela ficou apenas observando, perguntando uma coisa ou outra às vezes. Era muito bom trabalhar com pessoas que queriam mesmo aprender.
— Pretende montar alguma peça de teatro com os alunos? — Bela perguntou depois que eu acabei a aula.
— Sim. O dia dos pais é daqui a um mês, então pensei em fazer algo relacionado a isso.
— Ah. — ela olhou para baixo e passou seu dedo indicador na superfície do piano. Naquele momento, eu me perguntei se Bela tinha contato com o pai.
— Não será obrigatório e eu pretendo abordar outros temas. — tentei amenizar.
— Legal. Bem, eu esqueci o meu celular no seu quarto, Amber. Minha mãe pode ter ligado avisando se está vindo me buscar. Melhor eu ir pegar. — ela saiu rapidamente em direção à sala de estar.
— Eu disse algo errado? — me preocupei.
— Não. É que a Bela não conheceu o pai dela, não tinha como você saber disso.
— Mas ela sabe algo sobre ele?
— Só que ele não quis saber dela. Que bom que a tia Belinda tinha condições de cuidar da Bela sozinha, não? — sorriu.
— É. — no fundo, eu talvez fosse gostar de também ter tido condições de fazer isso com o meu bebê.
— Tudo bem? Ficou pensativa.
— Me senti m*l pela Bela, eu sei que ela ficou incomodada por eu ter falado sobre a peça para os pais.
— Dulce, a Bela pode até não ter conhecido o pai dela, mas os seus outros alunos sim. Não tem problema fazer o evento. Eu comemoro o dia das mães, mas não tenho nenhuma lembrança da minha.
— Ok. — assenti. — É melhor eu ir. Seu pai não vai gostar de me ver zanzando por aqui depois do meu expediente.
— Eu posso falar com ele sobre isso. Talvez um dia eu queira que você fique para o jantar.
— Acredite, Amber, é melhor não. — fiquei de pé. — Antes você pode me mostrar onde fica o banheiro mais próximo?
— Depois da cozinha, eu te mostro onde é.
Ela foi na frente e eu a segui pela casa até passarmos pela cozinha. Vi Christopher sentado em um banco alto do balcão. Ele mexia em seu celular, mas ergueu a cabeça quando passei e nós ficamos nos encarando até eu decidir desviar o olhar e seguir o meu caminho.
Entrei no banheiro, fiz o que precisava e lamentei mentalmente quando abri a porta e vi que Amber não havia me esperado. Por que ela esperaria? Eu sabia o caminho de volta, oras! Só não queria ter que passar sozinha pelo pai dela. Eu podia muito bem tropeçar nos meus próprios pés por causa do nervosismo.
Respirei fundo, mentalizei que tudo daria certo e comecei a caminhar. Eu só tinha que passar pela cozinha e seguir até a saída. Apressei um pouco meu passo assim que cheguei ao campo de visão dele, que eu senti me encarar novamente.
— Senhorita Saviñon? — parei no mesmo instante e girei meus calcanhares para ficar de frente para ele.
— Sim? — mantive a minha distância, fazendo menção de ir embora a qualquer momento.
— Como estão indo as aulas?
— Muito bem. A Amber aprende rápido. — fui direta.
— Você pode elaborar uma resposta melhor. — ele levantou, foi até a geladeira e tirou de lá duas garrafas de cerveja. — Por favor, sente-se e me deixe servi-la.
— Me servir? — arqueei a sobrancelha. Talvez aquela frase tenha mexido com áreas sensíveis do meu corpo.
— Sim. — apoiou as mãos no balcão e acenou com a cabeça em direção ao banco ao lado do qual ele estava sentado. — Sente-se. — a palavra saiu quase como uma ordem.
— Não sei se eu deveria beber no trabalho. — caminhei ainda um pouco incerta para dentro da cozinha.
— Não está mais trabalhando, seu horário acabou. — ele disse enquanto cortava rodelas de limão. Observei atentamente quando ele colocou uma rodela em cada gargalo das cervejas.
— Cerveja com limão? — aquilo era novo para mim e ele notou.
— Uma coisa simples, mas que faz muita diferença. — empurrou uma das garrafas em minha direção. — Beba. — céus, quais outras ordens ele me daria?
— Ok. — sentei no banco, peguei a cerveja e dei um gole sob o olhar de expectativa de Christopher. Acho que era a primeira vez que ele estava sendo genuinamente legal comigo. — Nossa, isso é mesmo muito bom! — fui sincera.
— Sua língua agradece! — ele ergueu a garrafa dele e deu um gole.
Era só eu ou tudo o que ele estava dizendo poderia ser levado para o duplo sentido? Eu poderia apostar que estava levemente boquiaberta enquanto observava ele limpar as gotículas de cerveja em seus lábios usando a língua. É, minha língua poderia ficar ainda mais grata.
— Amber. — falei rapidamente, tentando me recompor. — Vamos falar sobre a Amber. — ele ficou em silêncio apenas me observando. — É como se ela tivesse um talento natural, talvez algo genético. Sua família deve ter muitas pessoas com talento para a música. — eu mexia em meu colar como uma maneira de me distrair do meu nervosismo.
— Na verdade, não. Bom, a Anahi tem uma voz lindíssima e eu gosto de cantar, não que eu tenha talento, mas eu gosto.
— Você?
— Não me olhe como se não esperasse por isso, é meio ofensivo. — ele sorriu de lado.
— Ai, meu Deus, você sorriu! Sorriu para mim! — e eu disse isso em voz alta, me arrependendo logo depois.
— Eu nunca sorri pra você? — ele perguntou aquilo como se lamentasse.
— Quando nos conhecemos na sala de música, mas foi tão forçado que seu rosto parecia ser feito de gesso.
— Bom, parece que eu sou de carne e osso.
— Eu sei. — dei outro grande gole em minha cerveja depois de relembrar a noite anterior.
— Qual o significado do seu colar? Deve ter algum, não é? Você não parece o tipo de pessoa que usa as coisas só por usar. — eu estava morrendo de vontade de perguntar por que ele de repente ficou interessado em me conhecer, mas ao invés disso eu agi naturalmente.
— Mandalas representam a relação do homem com o cosmos. Elas servem para estabilizar e controlar as nossas energias e emoções.
— Então sem isso você sai do controle?
— Digamos que sim. — sorri.
— Não estava usando esse colar ontem. — ele falou sugestivamente.
— Não fui eu que perdi o controle. — respondi logo depois. Nós ficamos nos encarando e pouco a pouco um sorriso surgiu no rosto dele. Ele havia sido substituído? Não parecia a mesma pessoa.
— Eu tenho que te pedir desculpas.
— O que?
— Por ser tão grosso com você às vezes. Eu estava tentando afastar você, mas isso não vai dar certo. É melhor que eu pare de ser escroto e comece a ser só eu.
— Por que estava tentando me afastar?
— Acredite quando eu digo que você ficaria muito melhor longe de mim. — ficou bem sério. — Mas nós podemos ser legais um com o outro, você é bem diferente das pessoas que eu conheço, eu tenho curiosidade.
— Eu também tenho.
— Mesmo? E o que gostaria de saber sobre mim?
— Hum... — eu tinha que começar com algo leve. — Como foi ter a Amber? Foi uma surpresa ou vocês planejaram.
— Nós planejamos. Darla sempre quis ser mãe, era o maior sonho dela.
— Darla. Que nome lindo. — sorri gentilmente. — Eu vi as fotos dela, ela era de tirar o fôlego.
— Sim, era. — diminuiu o tom de voz e desviou o olhar como se lembrasse de algo. Eu estava esperando que ele me dissesse que não queria falar sobre aquilo.
— E o seu trabalho? Você faz o que sempre sonhou? — mudei de assunto antes que ele o fizesse.
— Não, nunca me imaginei atrás de uma mesa de escritório lidando com ações. Eu fiz parte do exército por um tempo, achava que era a minha vocação, mas me enganei. É tudo muito pesado.
— Você serviu em alguma guerra?
— Sim. — e foi só o que ele disse.
Cacete, Dulce, pare de perguntar sobre coisas que parecem difíceis!
— Eu sempre quis ser cantora, mas a fama não vem para todos. — eu ri.
— Eu nunca ouvi você cantar. — ele se esquivou mais para perto de mim e me olhou atentamente.
— Eu cantava na igreja na adolescência. O... — engoli em seco. —...meu pai era ou é pastor, sei lá. — dei de ombros.
— Era ou é? — franziu a testa. — Você não fala mais com o seu pai? — neguei com a cabeça. Christopher ficou me observando por um tempo, comecei a ficar um pouco mais tímida e dei outro gole em minha cerveja só para não ter que olhar para ele. — Qual o seu filme preferido? — parece que ele notou que aquele era o meu assunto difícil e assim como eu, também mudou de assunto.
— Parece clichê, mas é "uma linda mulher".
— Oh! — riu. Ouvir aquela risada foi muito agradável. — "Pretty woman, walking down the street, pretty woman..."
Puta. Que. Pariu. Ele estava mesmo cantando a música do meu filme preferido? Estava mesmo?
Meus lábios se abriram involuntariamente e eu fiquei olhando para ele como uma retardada até ele terminar aquele verso. Ele tinha uma voz grave e firme, acertou todas as notas e até colocou um toque especial só dele. Quando ele disse que cantava, estava mesmo falando sério.
— Dulce? Ainda está aí? — balançou sua mão na frente do meu rosto.
— Sim... eu... sim! Você me chamou pelo meu nome. — constatei.
— Chamei. — assentiu. — E você pode me chamar de Christopher.
Nós continuamos a conversar sobre coisas mais banais, sobre gostos musicais, mais filmes, lugares que gostamos de visitar e só. Não falamos sobre mais nada que envolvesse nossas famílias ou i********e. Isso era um passo, Christopher estava sendo legal comigo e eu me sentia muito mais confortável perto dele agora.
— Caramba, eu tenho que ir. — falei olhando meu relógio de pulso depois de secar minha terceira cerveja. — Agradeço pela sua cerveja com limão e pela conversa. — fiquei de pé e ajeitei minha bolsa em meu ombro.
— Dulce?
— Eu.
— Sobre ontem... — ok, o assunto que não tocamos. — Eu sinto muito.
— Por ter me beijado ou por ter ido embora? — ele arqueou as sobrancelhas, certamente surpreso por eu ser tão direta.
— Pelos dois, na verdade. Como eu disse, é melhor ficar longe de mim nesse aspecto. Eu sou bem complicado e você não merece lidar comigo. Eu prefiro que sejamos amigos.
— Bom, hoje nós vimos que sim, podemos ser amigos. — falei com sinceridade. — Obrigada por baixar a guarda, Christopher.
— Obrigado por me ouvir. — eu assenti e comecei a me afastar até a saída. — Espero que não tenha se machucado quando caiu lá fora. — parei e virei para olhá-lo. — E se livre da picape. — foi firme.
— Você não gosta nenhum pouco do meu carro, não é?
— Você gosta? — fez uma careta.
— Ei, isso é meio ofensivo.
— Só se livre da droga do carro. — aumentou um pouco o tom de voz, sendo grosso. Eu fiquei séria enquanto o encarava. — Desculpe. — respirou fundo algumas vezes. — Sua picape não parece segura. Se precisar de mais dinheiro para a entrada, fale comigo.
— Eu cuido disso, não precisa se preocupar. — eu sorri para que ele soubesse que não havia me aborrecido com seu tom grosseiro. Ele estava tentando ser legal. — Namastê. — acenei.
— Namastê. — sorriu.
Não consegui arrancar o sorriso do rosto enquanto andava até a minha picape. Eu estava feliz por derrubar o muro que existia entre nós e por saber que ele não iria me demitir por causa da última noite. Christopher mostrou quem ele era de verdade e isso aqueceu o meu coração de um jeito que nunca aconteceu antes.