Mais uma segunda-feira

3095 Palavras
Minha irmã procura sua agenda eletrônica, onde ela registra tudo relacionado a mim, incluindo minhas redes sociais oficiais. O olhar perverso que me lança ao me entregar o tablet é digno de admiração. Às vezes, penso que a Ari realmente sente prazer em ser malvada. Na escola, ela fazia isso apenas por diversão, mas agora, acredito que sente satisfação em usar a vingança, só para acertar as contas. — Eu arrasei. — diz, orgulhosa. Aceito o tablet e, ao ver a foto, uma gargalhada escapa dos meus lábios. Minha irmã está usando uma das perucas da minha coleção, com um tom de loiro idêntico ao do meu cabelo tingido. O vestido vermelho matador é ainda mais impressionante do que os trajes que costumo usar no palco, porque ele cobre, mas ao mesmo tempo não; as transparências e a renda criam desenhos intrincados que m*l escondem as partes sensíveis do corpo, que podem atrair problemas. É de um vermelho intenso, impossível de ignorar, se tornando ainda mais perigoso. Max, tão imponente quanto parece, com seus olhos verdes em contraste com o cabelo n***o como a asa de um corvo, a abraça pela cintura enquanto deposita um beijo em sua têmpora. Protetor, possessivo, sua postura demarca território e isso, sei que causará uma reviravolta no indignado doutor Zeus. Mas a descrição da foto é a melhor. Se Zeus quer me ver como uma p**a, enquanto me trata como tal, será melhor mostrar tudo que existe na sua cabeça exageradamente organizada. — E você realmente se divertiu, não é? — rio entre dentes ao ler o que Ari escreveu. Olho para minha irmã e a vejo me observando com expectativa. Ela levanta as sobrancelhas várias vezes, com uma atitude divertida, como se estivesse planejando o fim do mundo. — Se você conferir os comentários, a situação melhora. Rimos juntas e começo a revisar as centenas de notificações. Se a foto em si já é impactante, quando Zeus ver o que meus admiradores comentam, ele acabará internado na terapia intensiva por uma semana. Porque, se algo ficou claro, é que Zeus odeia ver o quanto meus seguidores e admiradores me admiram. E agora, a maioria deles não se importa que Madeline Phil esteja nessa foto com um homem; continuam comentando como se eu fosse solteira, como se todos eles tivessem direitos sobre mim e sobre meu corpo. É perturbador às vezes, mas para isso tenho um pessoal de segurança bastante rígido. E, ao contrário do que Zeus pensa, não me comunico com nenhum desses homens. Só com ele quebrei minha regra principal. Só ele conseguiu me tirar da minha zona de conforto. E como ele não valorizou isso, agora terá que engolir sua própria bile. — Você é incrível, sabia? — digo à minha irmã, com os olhos brilhando de emoção. Estou muito sensível e não ajuda ser uma chorona certificada. Entre a briga com o i****a obstinado, o apoio incondicional da minha irmã e esta decepção que sinto, minhas emoções estão à flor da pele. — Claro que sei — declara minha banana preferida, sem esconder o ego que tem — Sou a melhor quando se trata de planos macabros. Está satisfeita, ou precisamos dar mais uma estocada mortal? O brilho maníaco em seus olhos me faz rir. Se você deixar, Ariel consegue assustar qualquer um. — Não, por enquanto não. Mas guarde todas essas más ideias que você está tendo agora para eventos futuros. — Com o doutor perfeitinho? Reviro os olhos. — Com qualquer um que mereça. A verdade é que, se não digo a verdade a Ariel, é porque, no fundo, ainda sinto que nossa história não acabou. Pode ser que ele seja um i****a com suas exigências, mas o que pensei ter visto nele através da tela não pode ter sido um espeço. Não consigo me convencer de que meu instinto me levou a alguém que não vale a pena. Tenho melhor critério do que isso. — Bem — ela sopra, fazendo um gesto com a mão — deixo para depois meus planos detalhados de vingança. Eu já estava preparando outra sessão de fotos. Pode ser que até aceite aquele comercial de roupa íntima que aquele designer com nome esquisito está te oferecendo há anos... — ela estala a língua ao não se lembrar — Bem, aquele mesmo. Só temos que aproveitar as oportunidades. Aquele arrogante, que de bom só tem o sexo que te deu, vai levar uma surra. E não saberá nem o que o destruiu. Eu rio com ela e, no meio disso, um bocejo escapa de mim, mostrando o quanto estou cansada. Foi uma viagem rápida, mas exaustiva. Por mais que eu esteja acostumada ao esforço físico das minhas coreografias e ensaios, uma mudança na minha rotina pode me afetar. — Vai lá, tome um banho, porque você está cheirando a macaco. E depois, vá dormir. Amanhã você tem trabalho e, mesmo sendo minha irmã, não, não te darei o dia de folga. Você precisa compensar os dias que tirou e, no ensaio de amanhã, temos nova coreografia, já sabe. Olho para ela com desdém; às vezes, ela gosta de se achar minha chefe, quando sou eu quem a paga pelo trabalho que faz comigo. «Mas quem vai dizer isso a Ariel? Definitivamente, não eu». Saio depois de dar um beijo na minha irmã e provocá-la por ter um espécime para desfrutar em seu quarto. Já em meu espaço privado, pego meu telefone e vou direto para o banheiro, para lavar toda essa má energia que essa viagem deixou. Quero ver, antes de perder a consciência, o que o doutor Zeus fez depois que fui embora. Preparo a banheira com água quente, do jeito que gosto. E enquanto ela enche, ligo o celular. Um tremor ansioso me percorre do pé à cabeça. O aparelho na minha mão, que ignorei durante toda a viagem, se descontrola por alguns segundos. Muitas mensagens que não vou ler, que não vou dar o gostinho de ver. Uma dúzia de chamadas que não vou retornar. Para mim, ele pode lidar com o peso de suas palavras, com aqueles pensamentos absurdos que tem, com suas opiniões ridículas que apenas demonstram o quão quadrado ele é. Não vou perder meu tempo lendo mais do mesmo, porque se o fizesse, só acabaria acumulando mais reprovações do que já carrego por sua causa. — Vá se f***r, Zeus West. Não vou lhe dar o prazer de se safar dessa. Desligo o celular mais uma vez e me meto na banheira. Fecho os olhos enquanto a água quente começa a relaxar meus músculos tensionados. Digo a mim mesma que amanhã será um grande dia. «Amanhã tudo estará esquecido». --- — Cinco! Seis! Sete! Oito! Vamos! — grita o coreógrafo, e todas nós nos movemos, mas sou eu quem canta — Sorria para mim, Madeline! — Faço isso e me agacho em um movimento sensual — Mais sutileza ao subir! — exige, e eu obedeço — Use a mesma sutileza na voz! — Faço isso e giro para subir as escadas com duas das meninas ao meu lado — Divina! Me dê um sorriso travesso! Volto a obedecer sem parar de cantar. Subo cada degrau sem deixar de mover o corpo, mostrando a paixão que sempre senti por isso, apesar de ser apenas um ensaio. Estamos no palco desde as sete da manhã. As dançarinas, a equipe de produção, de iluminação, nosso coreógrafo. Minha produtora me observa com olhar de águia, atenta a tudo que faço, pronta para interromper o ensaio caso eu cometa algum erro. Ariel, como irmã, é uma coisa, mas como produtora e gerente, é uma pessoa totalmente perfeccionista e muito exigente. Ela sabe, embora não me diga, que estou com o coração partido e é por isso que me observa com um olhar impassível. Se perceber uma fraqueza ou erro em mim, ela, como minha agente, me mandará descansar. E é por isso que estou dando o meu melhor neste ensaio, porque apesar dos meus sentimentos, sou tão profissional quanto ela. Sorrio de maneira sedutora ao subir na cúpula com meu bumbum empinado, sem parar de cantar. Sorrio ainda mais para o diretor que está ao lado dela, que não para de me olhar encantado. Desde que Noah foi contratado para esta temporada, ele tem se mostrado tão meticuloso quanto Ariel, mas pelo menos ele me sorri enquanto me observa ensaiar. Me deito sobre o delicioso colchão peludo que está dentro da cúpula e continuo cantando, olhando para o teto até me levantar de uma maneira muito sedutora. Com a ajuda de uma das dançarinas, me levanto e volto para as escadas. A pista já está acabando, esta tarde teremos um ensaio ao vivo com os músicos. Costumamos ensaiar pela manhã com a pista e depois com os músicos para aperfeiçoar tudo antes do show. Desço cada degrau com elegância, com uma malícia descarada, sem parar de sorrir, imaginando o público nas cadeiras vazias. De repente, a imagem de Zeus West sentado perto da escada, como na primeira vez que o vi, passa pela minha mente. Meu sangue ferve, meu coração acelera, se descontrolando como na primeira vez. A forma como ele, com seus olhos negros, me devorou sem mover um músculo do corpo foi algo que me desestabilizou. Naquela noite, me senti sozinha no palco e percebi que ele era a única pessoa dentro de todo o teatro.Termino de descer o último degrau e improviso. Giro de salto alto, me agacho de forma sugestiva, com as pernas abertas, giro para um lado e depois para o outro, como se fosse uma serpente, e depois fecho, dando uma nota tão alta que consigo ouvir o grito de aprovação da minha professora de canto vindo de longe. Também ouço os elogios do meu coreógrafo e, quando finalizo a nota, com as costas arqueadas e a cabeça para trás, solto o microfone, sentindo como o coração descontrolado bate forte contra meu peito. As luzes se acendem, a pista chega ao fim e eu me jogo no chão, tentando controlar a respiração. — Perfeito! — grita meu coreógrafo em algum lugar — Você foi maravilhosa, Madeline! Todas foram! — Obrigada! — exclamo, ofegante — Muito obrigada… Meu peito sobe e desce, sinto a gota de suor escorrendo pelo meu pescoço e, quando eles dois aparecem no meu campo de visão, sorrio. Aceito a mão de Noah e também sua ajuda para me levantar. — Essa última nota me transportou para outro plano, Madi — diz Noah, me oferecendo uma garrafa de água em temperatura ambiente — Foi linda. — Parece que alguém acordou muito inspirada hoje. — acrescenta Ariel. «Eu sei por onde você está indo, Bananita». — Sempre estou inspirada, senhorita Phil. — digo, piscando para ela — Especialmente quando minha agente e produtora está atenta a cada movimento que faço. — Exijo perfeição e não aceito menos do que isso. «Eu trabalho para ela ou ela trabalha para mim?» Tento não rir do seu narcisismo encantador e, quando ela me abraça, sorrio ao ouvir seus elogios sussurrados no meu ouvido. — Eu amo quando você improvisa e demonstra a imponente voz que tem… — me diz, finalizando o abraço — Isso me faz pensar que valeu a pena ser torturada pelos seus gritos estridentes quando você cantava as músicas da Elsa na sala da casa do papai e da mamãe. — Ariel! — Elsa? — pergunta Noah — A Elsa de Frozen? Assinto um pouco envergonhada. — Noah, eu juro que havia dias em que os gritos dela eram ouvidos no jardim. — Você é uma exagerada. — Faço língua para ela e ela solta uma grande gargalhada — Deixa a Elsa em paz, porque graças a ela eu sou livre. Ela ri novamente, e Noah também, porque entende a referência da piada. O coreógrafo chama Ariel, então, como uma verdadeira profissional, minha irmã apaga o sorriso dos lábios e coloca a máscara de produtora para continuar o trabalho. Fico com Noah e, tomando água, muita água, o vejo me olhar da maneira que sempre me olhou desde que Ariel o contratou. Noah é bonito. Bonito e sexy, mas até agora somos apenas amigos e assim permaneceremos, porque nunca gostei de misturar as coisas. Pode ser que eu tenha vinte e cinco anos, que seja mais nova do que algumas bailarinas e que os membros da equipe de iluminação, de produção, os engenheiros de som e até os músicos também sejam mais velhos do que eu; mas se tem algo que sempre deixei claro é que respeito todos tanto quanto respeito meu trabalho. Cada homem que trabalha nesse enorme teatro sabe que Madeline Phil se faz respeitar, e é essa a razão pela qual eles também me respeitam. Não sou apenas a estrela principal deste famoso e importante show de burlesque. Também sou, junto com Ariel, a proprietária deste enorme hotel e de muitos outros ao redor do mundo. O sustento deles depende de mim, e todos sabem muito bem que, se cruzarem a linha, estarão fora. E Noah sabe disso muito bem, mesmo que continue me olhando da maneira como faz e sorrindo para mim de uma forma tão... diferente. — Desculpe — digo, após ter tomado um litro de água com pequenos intervalos — Meu treinador diz que devo beber bastante água depois de cantar e dançar. — Você precisa se manter hidratada, então não há por que se desculpar. — Eu gostaria de um copo de água gelada, mas isso seria catastrófico para minhas cordas vocais, então tenho que tomar água em temperatura ambiente até que elas esfriem — respiro fundo — Já se passaram anos e ainda não me acostumei com água quente. — Para mim, já se passaram meses e ainda não me acostumei a te ver cantar e dançar. Franzo a testa, o olhando com diversão. — Por que você diz isso? Noah cruza os braços e sorri ainda mais. — Sua beleza não passa despercebida para mim. «E a minha também não passa despercebida para você, mas calma, cowboy, meu coração está ocupado». — Quando você me ver ao acordar, com o cabelo todo embaralhado e o rosto inchado, talvez pense diferente — digo de imediato, em tom de brincadeira, e quando o vejo levantar uma sobrancelha, percebo o peso da minha piada. Abro a boca e n**o imediatamente — Não me entenda m*l, Noah, eu... — Calma, calma, eu entendi — diz relaxado — Embora te assegure que vou continuar pensando assim. Ele pisca para mim, me fazendo rir. — Pronto para almoçar? — pergunta, olhando para Ariel. Minha irmã faz um gesto que significa “estou trabalhando, me deixe em paz” — Pelo visto, eles vão ficar. — Claro — respondo tranquila, pois não há motivos para me sentir diferente — Mas deve ser no restaurante do hotel. — Eu estava pensando em ir a outro lugar, já que os outros não vão, mas tudo bem. — Vou pegar minhas coisas no meu camarim, já volto. Me afasto de Noah, mas não o deixo sozinho, pois Ariel e o coreógrafo se aproximaram dele para conversar, provavelmente sobre trabalho. É o mais provável. Ele queria ir a outro lugar, mas eu não. Primeiro: somos amigos, então não tenho por que aceitar convites para almoçar como se fosse um encontro. Segundo: a única maneira de eu sair desse imenso hotel é vestindo um lindo vestido, sapatos de doze centímetros, maquiada, penteada e pronta para me divertir. Sair de roupa esportiva, suada e sem nenhum glamour não está nos meus planos. Terceiro: não é a primeira vez que almoço com ele, então não vejo nada de errado. Normalmente estão Ariel, Max, minha professora de canto e meu coreógrafo, essa é a diferença, mas posso lidar com isso. Sentada, com as costas arqueadas, saboreio o que o chef preparou para mim. É a última garfada e a que mais costumo apreciar. Noah acabou de terminar de comer há pouco, eu costumo ser mais lenta e agradeço por ele não demonstrar impaciência. Meu celular toca dentro da minha bolsa, então o tiro e, ao ver o nome na tela, bloqueio imediatamente. Sorrio para Noah, segurando a taça de vinho na mão, e quando a levo aos lábios para dar um gole, ele toca novamente. E eu o bloqueio de novo. — É incrível como a cada dia o chef me surpreende com suas criações — comento, deixando a taça na mesa — Já comi esse prato várias vezes e nunca me canso de suspirar… E o bendito telefone toca novamente. «O doutor exigente não tem vidas para salvar neste momento?». — Você deveria atender a chamada — ele diz — Pode ser uma emergência. «Droga, ele tem razão». Tosse e pego novamente o telefone. — Se você me permite... — digo, me levantando da cadeira. Noah faz um gesto despreocupado e eu sorrio — Obrigada, já volto. — Estou aqui te esperando. Me afasto da mesa e caminho direto para a varanda do restaurante. Agradeço ao homem na porta por abri-la para mim e sorrio ao sentir a brisa no rosto, enquanto meus olhos observam a linda vista de Las Vegas, finalmente atendendo a chamada do doutor West. — Quem é o cara da foto? — pergunta, com um tom tão irritado que preciso afastar o celular por um momento para ter certeza de que realmente é ele quem está ligando e não um ogro — E por que você está se deixando tocar por esse homem, Madeline? — Olá, doutor West — cumprimento de forma tranquila — Boa tarde, estou muito bem, e você? Ele grunhe. — Madeline, não me faça perder a paciência e responda à minha pergunta. «Ai, doutor exigente, você não imagina o quanto eu posso te irritar se eu quiser». — Que pergunta? Você me fez duas. — Madeline — sussurra meu nome, enquanto eu só contenho as ganas de rir —. Quem. É. O. Cara. Da. Maldita. Foto? Ele enfatiza cada palavra com raiva, com uma pausa entre elas, num tom que me faz saber que está falando entre dentes. — Com todo respeito, doutor West, isso não é da sua conta — declaro, em tom relaxado — Sou sua colega. Sou sua amiga. Lembra? — Você não é nada disso, Madeline. Solto uma grande gargalhada sem graça. — Pois eu saiba que somos isso, e se não for assim, então venha você mesmo a Las Vegas para me dizer na cara o que realmente sou para você. Caso contrário, você continuará agendando uma consulta. Adeus.
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