02

820 Palavras
02 — Victoria Narrando O chefe do morro não me perguntou de onde eu vinha, não pediu explicação, não quis saber quem eram meus pais ou por que eu tava sozinha, ele só me olhou como se já tivesse entendido tudo sem eu precisar dizer nada, e foi assim, sem muita conversa, que eu saí da rua e entrei na Nova Holanda, sem saber exatamente o que me esperava ali dentro, mas com a certeza de que qualquer coisa era melhor do que continuar do lado de fora. No começo eu não confiei, porque quem cresce na rua não aprende a confiar fácil, então eu fiquei na minha, observando tudo, cada movimento, cada pessoa, cada jeito de falar, tentando entender onde eu tinha me enfiado e até onde aquilo podia me proteger ou me destruir. A Nova Holanda não era calma, não era tranquila, não era lugar de criança, mas foi ali que eu deixei de ser invisível, porque diferente da rua, onde ninguém te vê, ali todo mundo via tudo, e isso podia ser perigoso, mas também era o que mantinha as coisas funcionando, porque cada um tinha seu lugar, sua função, seu respeito, e eu fui aprendendo isso aos poucos, sem ninguém precisar sentar e me ensinar, só olhando, escutando e ficando quieta quando precisava. No começo eu só andava por perto, ajudava no que mandavam, carregava coisa, levava recado, fazia serviço pequeno, sempre atenta, sempre tentando não errar, porque ali erro não era coisa leve, erro tinha consequência, e eu já tinha apanhado demais da vida pra querer aprender da pior forma de novo. Ele não me tratava como filha, mas também não me tratava como qualquer uma, tinha um cuidado diferente, uma atenção que eu nunca tinha tido antes, e mesmo sem palavra bonita, sem abraço, sem carinho, eu sabia que ali eu não tava mais sozinha, e isso, pra quem nunca teve ninguém, já era muita coisa. Com o tempo, eu fui deixando de ser só a menina que ficava pelos cantos e comecei a me encaixar de verdade, comecei a entender o movimento, a dinâmica, o jeito que as coisas giravam, e quando vi, já tava mais dentro do que fora, já fazia parte de um mundo que não perdoava, mas que, do jeito dele, também protegia. Foi assim que eu fui crescendo ali dentro, aprendendo coisa que ninguém ensinaria pra alguém da minha idade, entendendo cedo demais como funcionava o poder, como se ganhava respeito e como se perdia também, e não demorou muito pra eu começar a pegar minhas próprias responsabilidades, pequenas no começo, nada grande, mas o suficiente pra eu sentir que não era mais só alguém que tava ali por sorte, eu tava ali porque servia pra alguma coisa. Eu comecei a vender, a cuidar do meu movimento, a aprender a lidar com gente, com pressão, com dinheiro, sempre observando tudo, sempre tentando fazer melhor, porque ali ninguém te entrega nada de graça, você conquista ou você fica pra trás. E eu não queria ficar pra trás. A primeira vez que eu recebi meu dinheiro, de verdade, não foi muita coisa, mas pra mim parecia mais do que eu já tinha tido na vida inteira, porque não era esmola, não era resto, não era algo que alguém jogou pra mim por pena, era meu, conquistado do jeito que eu sabia, do jeito que eu aprendi ali dentro, e eu fiquei olhando pra aquelas notas na mão por um tempo, como se tivesse medo de desaparecer, como se aquilo não fosse real. Eu podia ter guardado, podia ter usado pra qualquer outra coisa, mas tinha uma vontade que vinha comigo desde a rua, uma coisa simples, quase boba, mas que pra mim sempre pareceu impossível. Eu queria comer um hambúrguer. Não daqueles pequenos, simples, qualquer coisa, eu queria um de verdade, daqueles que eu via as pessoas comendo na rua, com pão grande, carne, queijo, coisa que pra mim sempre foi só olhar de longe, sentindo o cheiro e engolindo seco, fingindo que não ligava, mas ligando, querendo, desejando como se fosse luxo. E naquele dia, pela primeira vez, eu não precisei fingir. Eu fui lá e comprei. Lembro até hoje de segurar aquilo na mão, ainda quente, olhando como se não acreditasse que era meu, como se alguém fosse tirar de mim a qualquer momento, e quando eu dei a primeira mordida, não era só comida, era mais do que isso, era como se, pela primeira vez, eu tivesse conseguido dar pra mim mesma alguma coisa que eu sempre quis, alguma coisa que ninguém nunca me deu. Eu comi devagar, aproveitando cada pedaço, mesmo com a fome querendo me fazer engolir tudo de uma vez, porque eu não queria que aquilo acabasse rápido, não queria perder aquele momento. Pode parecer pouca coisa pra qualquer um. Mas pra mim… Foi a primeira vez que a vida deixou de ser só sobreviver.
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