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1042 Palavras
10 -- Victória Narrando Sabe com quantos anos eu aprendi a mexer numa arma? Com onze. Muita gente acha que a vida no morro é só baile, ostentação e barulho de motorizada. Mas para quem vive dentro da casa do dono, a realidade tem um cheiro diferente: cheiro de óleo de máquina, de metal frio e de pólvora. O dia seguinte ao que a Bianca foi expulsa não foi um dia de sol para mim. Eu acordei com o rosto inchado, o lábio cortado ainda latejando e uma sensação de que o mundo podia desabar sobre a minha cabeça a qualquer momento se o Vitor não estivesse por perto. Mas o Vitor... ele não queria que eu dependesse só da sombra dele. Eram umas dez da manhã quando ele me chamou. Eu tava na cozinha, tentando tomar um café, quando ele apareceu na porta. Ele não disse "bom dia", ele não perguntou se eu tava melhor. Ele só fez um sinal com a cabeça e disse: — Na sala. Agora. Eu fui. Sentei no sofá, aquele mesmo sofá onde eu tive medo de encostar um dia, e vi que ele já tava lá, sentado na mesa de centro, de frente para mim. Em cima da mesa, brilhando sob a luz da claraboia, tinha uma peça de metal preta, pesada, que eu só via no coldre dele ou nas mãos dos soldados lá fora. Uma pistola. — Olha pra mim, Victória — a voz dele tava seca, mas não era de raiva. Era a voz de quem tá passando um segredo de vida ou morte. — Ontem tu apanhou porque era pequena e não tinha como revidar. Tu dependeu de eu chegar em casa pra te salvar. Mas e se eu não chegasse? E se eu estivesse num caixão? Tu ia ser o quê? Alvo? Eu não respondi. O medo ainda tava fresco na minha memória. — Aqui dentro, ninguém tem o luxo de ser fraco. Nem tu. Principalmente tu. Ele pegou a arma com uma agilidade que parecia mágica. Os dedos dele se moviam com uma precisão que dava medo. — Olha bem. Isso aqui é o retém. Isso aqui é o ferrolho. Ele começou a desmontar a peça na minha frente. O som do metal batendo no metal — click, clack, thud — ecoava na sala silenciosa. Em segundos, o que era uma ferramenta de morte virou um monte de molas e peças espalhadas em cima da mesa. — Vê de novo. Ele montou tudo. Rápido. Desmontou de novo. Três vezes ele repetiu o processo, sem dizer uma palavra, apenas deixando o som das peças gravarem na minha mente. Eu não piscava. Eu sentia que se eu perdesse um movimento, eu estaria perdendo a minha chance de nunca mais sentir a mão de ninguém no meu rosto. — Agora tu — ele disse, empurrando as peças pro meu lado. — Monta. Minhas mãos tremeram quando eu toquei no metal pela primeira vez. Era frio. Era pesado. Era real. — Tá sem bala, Victória. Não morde — ele ironizou, mas os olhos dele tavam fixos nos meus movimentos. Eu tentei. Encaixei a mola errado, o ferrolho travou. Tentei de novo, o suor descendo pela minha nuca. Eu olhava pra ele, esperando uma bronca, mas o Vitor só ficava ali, como uma estátua de gelo, esperando. Na terceira tentativa, eu ouvi o estalo perfeito. O som da arma se tornando uma só peça de novo. — Puxa o ferrolho — ele ordenou. Eu puxei. O peso exigiu força dos meus braços magros, mas eu fiz. Clack-back. — A partir de hoje — ele disse, se inclinando pra frente, segurando meu queixo com aquela mão pesada e me obrigando a encarar o fundo dos olhos dele — essa aqui é a tua melhor amiga. Eu tô te ensinando isso pra tu aprender a se defender. Porque se eu não tiver aqui, ou se alguém ousar tocar um dedo em ti de novo... não importa quem seja, não importa se é mulher de bandido, se é morador ou se é quem for. Quem encostar em ti pra te diminuir, tu não chora. Tu não corre. Tu dispara. Aquelas palavras entraram na minha mente como um ferro quente. O Vitor não tava me criando para ser uma princesa protegida num castelo de tijolo ecológico. Ele tava me criando para ser uma sobrevivente. — Entendeu, Herdeira? — ele perguntou. — Entendi — eu respondi, e pela primeira vez, a minha voz não tremeu. — Ótimo. Agora desmonta de novo. Tu vai fazer isso até conseguir fazer de olho fechado. Passei o resto da manhã ali. Meus dedos ficaram com cheiro de óleo e metal. Minhas unhas ficaram sujas de graxa. Mas cada vez que eu ouvia o barulho da arma montando, eu me sentia mais alta. Mais forte. Naquela tarde, eu não era mais a menina que fugiu do internato. Eu não era mais a ruivinha que dormia no papelão. Eu era a protegida do 20 Anos, e agora eu tinha dentes. Lembro que depois de horas, ele pegou a arma da minha mão, conferiu o mecanismo e deu um sorrisinho de lado. Aquele sorriso que ele raramente dava, mas que significava que eu tinha passado no teste. — Vai almoçar — ele disse. — E limpa essa mão. Amanhã a gente vai pro stand lá no fundo do morro. Tu precisa aprender o que acontece quando o gatilho é puxado de verdade. Eu saí da sala sentindo um peso diferente no corpo. Não era o peso do medo. Era o peso da responsabilidade. O Vitor tinha me dado a chave do reino, mas também tinha me dado a espada pra defender ele. E eu sabia, ali mesmo, que eu nunca ia decepcionar o homem que me ensinou que o meu cabelo ruivo não era "cor do pecado", era cor de fogo. E fogo, se você triscar, você se queima. Daquele dia em diante, eu nunca mais olhei para uma mão levantada com medo. Eu olhava procurando o alvo. E o 20 Anos... ele sabia exatamente o monstro que tava criando. Ele só não sabia que o monstro seria a única coisa capaz de manter o legado dele vivo quando o sangue começasse a correr de verdade.
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