05 -- 20anos Narrando // continuação..
Os primeiros dias daquela garota na minha casa foram mais estranhos do que qualquer invasão de facção rival. Eu tava acostumado com barulho, com gente querendo me agradar, com mulher querendo meu favor e soldado esperando minha ordem. Mas o silêncio da Victória? Aquele silêncio pesava mais que um carregador cheio de fuzil.
Eu cheguei em casa tarde, o corpo moído de uma reunião tensa no Complexo. O cheiro de pólvora e cigarro ainda grudado na minha pele. Quando abri a porta, a luz da sala tava baixa, mas eu vi o vulto.
Ela tava lá. Mas não tava no sofá de couro que eu paguei uma fortuna, nem nas poltronas macias que as visitas adoravam. Victória tava sentada no chão, bem no canto, perto da porta da cozinha. As pernas abraçadas contra o peito, o queixo apoiado nos joelhos, os olhos abertos, fixos no nada. Ela parecia uma estátua de porcelana quebrada que alguém tentou colar.
A Cida, que cuidava das coisas pra mim, veio de mansinho e me puxou pelo braço até o corredor, falando baixo, quase num sussurro.
— 20 Anos, chefe... a menina não flui. Ela tá lá tem horas. Eu fiz um prato de comida que daria pra dois homens, botei na mesa, chamei, insisti... ela nem olhou. Ela não senta no sofá, não encosta nos móveis. Parece que tem medo de sujar as coisas ou de levar um tapa se tocar em algo. Ela só comeu um pedaço de pão que caiu no chão enquanto eu limpava a bancada. Pelo amor de Deus, patrão, a menina tá definhando com a despensa cheia.
Eu respirei fundo, sentindo o peso daquela responsabilidade. Tirei o fuzil do ombro, travei, encostei no canto da parede e fiz sinal pra Cida ir descansar.
Fiquei ali parado, observando a Victória de longe. Ela nem piscou quando eu entrei. A rua ensina a gente a ficar invisível, e ela tava tentando desaparecer dentro da minha própria sala.
Caminhei devagar. O som das minhas botas no piso parecia um trovão naquele silêncio. Parei na frente dela. Ela não levantou a cabeça, mas eu vi o corpo dela retesar. Ela tava esperando o golpe. O "o que você está fazendo aí?", o "sai daqui", o "não encosta nisso".
Em vez de falar, eu fiz o que ela não esperava. Eu me sentei no chão. Ali, do lado dela, com as costas na parede fria.
Ficamos assim por uns cinco minutos. Dois estranhos num castelo de concreto, sentados no piso.
— O chão tá frio, não tá, menor? — perguntei, sem olhar pra ela. Minha voz saiu grossa, mas sem raiva.
Ela deu de ombros, um movimento quase imperceptível.
— É melhor que o asfalto — ela sussurrou. Foi a primeira vez que ouvi a voz dela sem o barulho da chuva. Era uma voz de criança, mas com um cansaço de velho.
— É verdade. Mas o sofá ali é melhor que o chão. Por que tu tá aí no canto como se tivesse devendo algo?
Ela finalmente me olhou. Os olhos verdes, grandes demais pro rosto fininho, tavam carregados de uma dúvida que doía de ver.
— É muito limpo — ela disse, apontando pro sofá com o queixo. — Eu não quero estragar. Se eu estragar, o senhor me coloca pra fora. E lá fora tá chovendo de novo.
Aquilo me deu um soco no estômago. A lógica dela era pura sobrevivência: se eu não ocupar espaço, ninguém nota que eu existo. Se ninguém notar, ninguém me expulsa.
— Escuta aqui, Victória. Olha pra mim.
Ela virou o rosto. Eu apontei pra casa toda, pros móveis caros, pra televisão gigante, pra mesa de jantar.
— Tá vendo isso tudo aqui? Essa p***a toda é minha. Eu conquistei com sangue, com força e com nome. E se eu te trouxe pra cá, é porque agora isso aqui também é teu. Tu não é visita. Tu não é pedinte. Tu tá sob a minha proteção, e quem eu protejo não come resto e não senta no chão.
Eu me levantei e estendi a mão pra ela. Dessa vez, ela demorou mais pra pegar. Mas pegou. Eu a guiei até o sofá e fiz ela sentar. Ela encostou no tecido devagar, como se esperasse que ele queimasse a pele dela.
— Pode encostar. Pode pular nessa p***a se quiser. Pode quebrar um copo, pode manchar o tapete. Eu compro outro. O que eu não compro é a tua saúde se tu continuar sem comer.
Fui até a cozinha, peguei o prato que a Cida tinha deixado e uma lata de refrigerante. Voltei e coloquei no colo dela. O cheiro da carne assada subiu, e eu vi a pupila dela dilatar.
— Come tudo — ordenei. — Não é pra deixar um grão de arroz. Na minha casa, ninguém passa fome. Se tu não comer, aí sim eu vou ficar bolado contigo. E tu não quer me ver bolado, quer?
Ela negou com a cabeça, já pegando o garfo com a mão trêmula.
— Victória — chamei de novo, fazendo ela parar com o garfo no meio do caminho. — Daqui pra frente, o mundo vai tentar te dizer que tu não merece nada. Vão tentar te fazer sentir pequena, te fazer pedir licença pra respirar. Mas aqui dentro, e onde quer que tu vá comigo, tu anda de cabeça erguida. O que tem nessa casa, o que tem na geladeira, o que tem nesse morro... se tu precisar, é teu. Aprende isso logo, porque eu não vou repetir.
Ela deu a primeira garfada. Depois a segunda. E, pela primeira vez, eu vi os ombros dela relaxarem um pouco. Ela não tava mais em alerta total. Ela tava começando a entender que o abrigo não era só um teto contra a chuva, era uma fortaleza contra o mundo.
Eu fiquei ali, limpando meu fuzil enquanto ela comia, fingindo que não tava prestando atenção, mas de olho em cada detalhe. Eu sabia que estava amolecendo uma parte de mim que o crime exigia que fosse de pedra. Mas olhando praquela ruivinha limpando o prato e tomando a Coca-Cola como se fosse a última do mundo, eu soube que eu mataria qualquer um que tentasse tirar aquele prato da mão dela.
— 20 Anos? — ela chamou baixinho, quando terminou.
— Fala, menor.
— O senhor... o senhor nunca vai me mandar embora?
Eu parei de passar o pano no metal da arma. Olhei bem no fundo daqueles olhos verdes que agora tinham um brilho de esperança misturado com medo.
— Só se tu me trair. E eu acho que tu é inteligente demais pra fazer essa burrice.
Ela deu um sorrisinho de canto, o primeiro que eu vi de verdade.
— Eu não sou burra — ela disse, convicta.
— Eu sei que não é. Por isso que tu ainda vai ser a dona disso aqui tudo. Agora vai dormir, que amanhã eu vou te ensinar a diferença entre um revólver e uma pistola. Se tu vai morar comigo, tem que saber se defender.
Ela se levantou, deixou o prato na mesa — dessa vez sem medo de fazer barulho — e foi pro quarto. Antes de fechar a porta, ela parou e me olhou.
— Obrigada... Vitor.
Ela usou meu nome. Não o vulgo. Aquilo atravessou meu colete à prova de balas melhor que qualquer calibre .40. Eu não respondi, só balancei a cabeça. Mas naquela noite, eu dormi sabendo que a Nova Holanda tinha acabado de ganhar algo que valia mais que qualquer carregamento de droga: uma herdeira com sangue nos olhos e um motivo pra lutar.