18

1463 Palavras
Cap 18 — Victoria Narrando O baile começou a virar um borrão de luzes coloridas e batidas graves. O álcool já tinha feito o serviço de anestesiar qualquer vestígio de juízo que ainda restava em mim. Eu sentia o mundo girar, mas era um giro bom, leve, como se eu estivesse flutuando acima de toda a responsabilidade que o nome do meu pai carregava. Ri com as meninas, dancei até minhas pernas reclamarem e, em cada segundo, eu sentia o olhar do Luan me vigiando como um predador faminto. — Chega, ruiva... — o Luan sussurrou no meu ouvido, a voz rouca cortando o som do DJ. — O sol já quer aparecer e teu pai não para de monitorar o rádio. Se eu não te levar agora, ele manda o Bope me buscar. Eu tentei protestar, mas o corpo pesou. Ele me guiou pelo camarote, a mão firme na minha cintura, passando por cima da arma que agora parecia pesar toneladas. Descemos as escadarias sob os olhares de quem ainda tinha energia, mas para mim, a noite tinha atingido o limite. O trajeto até em casa foi um silêncio carregado. O vento frio do amanhecer batendo no meu rosto enquanto eu ia na garupa da moto dele, abraçada na sua cintura, sentindo o calor do corpo dele através da camisa. Eu não era mais a "General" do 20 Anos ali; eu era só uma garota de dezesseis anos querendo sentir algo que não fosse o cheiro de pólvora. Quando entramos na fortaleza, o silêncio da casa era ensurdecedor. A Cida já dormia. O Luan me ajudou a subir as escadas, segurando meu braço para eu não tropeçar no meu próprio desejo. Paramos na porta do meu quarto. — Entregue em segurança, Herdeira — ele disse, mas não se moveu. Eu olhei para ele. A luz fraca do corredor destacava aquele rosto de vagabundo que tinha tirado meu sono por anos. O perigo de estar ali com ele, o medo do meu pai, a adrenalina do baile... tudo se misturou numa vontade incontrolável de quebrar a última regra que me restava. — Você não vai entrar? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. O Luan travou. Ele sabia que entrar ali era cruzar um caminho sem volta. Ele sabia que o 20 Anos o enterraria vivo se soubesse. Mas o desejo foi maior que o instinto de sobrevivência. Ele fechou a porta atrás de nós e o clique da fechadura soou como um tiro de largada. Naquela madrugada, no silêncio do quarto que meu pai montou para me proteger do mundo, eu me entreguei ao único homem que ele me proibiu de ter. Foi a minha primeira vez. Entre o medo de ser descoberta e o calor da descoberta, eu deixei de ser a menina dele. Luan me tocava como se eu fosse um troféu proibido, e eu o recebi como se ele fosse a minha única liberdade. Não houve música, só o som da nossa respiração acelerada e o peso da traição pairando sobre a cama. Eu sabia que estava brincando com a morte, que o 20 Anos estava voltando e que o preço desse momento seria pago com sangue. Mas ali, nos braços do Luan, eu não queria ser a herdeira de nada. Eu só queria ser a Victória. E pela primeira vez, eu não me importei com as consequências. O fogo que meu pai tanto temia que me queimasse, finalmente tinha me consumido por inteira. O sol de onze da manhã não pede licença. Ele atravessava as frestas da cortina do meu quarto como facas de luz, queimando direto nos meus olhos. Tentei me virar para o lado, sentindo minha cabeça latejar com o eco do grave do baile que ainda parecia vibrar nos meus ossos, mas meu braço encontrou apenas o lençol frio. Abri os olhos devagar, tonta, com o gosto amargo do whisky ainda na boca. O quarto estava em silêncio absoluto. Aquele silêncio que precede a tempestade. Olhei para o lado. O lugar onde o Luan estava horas atrás estava vazio. O travesseiro ainda tinha um leve amassado, um fantasma da presença dele, mas ele não estava ali. Sentei na cama de uma vez, sentindo o mundo girar. Olhei para o relógio de cabeceira: 10:52. — Luan? — chamei baixinho, a voz rouca, quase um sussurro. Nada. Nem o som do chuveiro, nem o barulho dele se vestindo no escuro. Ele tinha ido embora como um ladrão na noite, o que, de certa forma, era exatamente o que ele era. Ele tinha roubado a única coisa que meu pai ainda tentava preservar em mim: a minha inocência de criança. Levantei da cama, sentindo meu corpo estranho, diferente. Cada músculo parecia lembrar do que tinha acontecido naquelas poucas horas antes do amanhecer. Olhei para o chão e vi meu cropped preto jogado perto da poltrona. A saia estava em cima do tapete. E, brilhando ali, caída de lado, estava a minha pistola. A arma que o meu pai me deu para eu me defender. E eu a deixei no chão enquanto me entregava ao homem que ele mais me avisou para manter distância. Caminhei até o banheiro, tropeçando nos meus próprios pés. Quando fechei a porta e me encarei no espelho, eu não me reconheci. Meu cabelo ruivo estava um ninho, a maquiagem da noite anterior borrada de um jeito que me dava um ar sombrio, e os meus lábios... meus lábios estavam inchados. No meu pescoço, uma marca arroxeada denunciava o que o Luan tinha feito. — Droga, Luan... — murmurei, passando a mão na pele, tentando apagar o que era impossível esconder. Tomei o banho mais rápido da minha vida. A água batendo no meu corpo fazia cada músculo protestar; eu sentia uma sensibilidade nova, um incômodo que me lembrava a cada segundo que eu tinha deixado de ser a menina do papai. Saí do boxe, me enrolei na toalha e comecei a caçar uma roupa que me fizesse parecer a Victória de sempre. Escolhi um blusão largo, de gola alta — para esconder a marca no pescoço — e um short de moletom. Prendi o cabelo num coque firme, tentando passar um ar de "acabei de acordar e estou com preguiça", e não de "vivi a noite mais proibida da minha vida". Peguei a pistola no chão do quarto, conferi a trava com as mãos trêmulas e a guardei na gaveta da cabeceira. Eu não podia descer armada, ia parecer que eu estava esperando um confronto. E, de certa forma, eu estava. Saí do quarto e pisei no corredor. O silêncio da casa tinha acabado. Conforme eu me aproximava da escada, os sons lá de baixo ficavam mais nítidos. O som de botas pesadas batendo no piso, o chiado de um rádio comunicador e, então, a voz que fez meu sangue virar gelo. — Eu não quero saber de desculpa, Caveira. Eu mandei monitorar o rádio dele. Por que o Luan ficou em silêncio por três horas durante a madrugada? Era ele. O 20 Anos. A voz do meu pai não era a de quem estava chegando de uma viagem tranquila. Era a voz do carrasco. Eu parei no topo da escada, escondida pela sombra do corrimão. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguiria ouvir lá de baixo. — Chefe, o baile estava um caos, sinal de rádio naquela área é horrível... — a voz do Caveira tentava amenizar, mas dava para sentir o medo dele. — Sinal horrível o c****e! — Meu pai rugiu, e eu ouvi o som de algo pesado, provavelmente a coronha de um fuzil, batendo na mesa de madeira. — O Luan estava com a minha filha. Ele tinha uma missão. E se eu descobrir que ele se distraiu com qualquer outra coisa enquanto o meu sangue estava na pista... eu mesmo corto a cabeça dele. Cadê ele? Manda o Luan subir agora! Minhas pernas fraquejaram. O Luan estava lá fora, fingindo que nada aconteceu, e meu pai estava na sala, pronto para um interrogatório que nenhum de nós dois sobreviveria se a verdade aparecesse. Respirei fundo, contei até três e tentei controlar o tremor das minhas mãos. Eu precisava descer. Se eu demorasse mais, ia parecer que eu estava escondendo algo. Limpei o suor da palma das mãos no short e comecei a descer os degraus devagar, tentando manter a expressão de sono. Cada passo parecia um mergulho no escuro. Quando meus olhos encontraram os do meu pai, sentado no sofá com o fuzil atravessado no colo e os olhos vermelhos de quem não dormiu e de quem já sabia de metade da história, eu soube: a Nova Holanda ia ficar pequena para o que estava prestes a acontecer.
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