Capítulo 4

1339 Palavras
Galego Narrando O dia tinha tudo pra ser tranquilo. Acordei cedo, cabeça leve, aquela sensação rara de que talvez, só talvez, as coisas fossem andar sem dor de cabeça. Lara ainda tava jogada na cama, resmungando, reclamando do calor, do barulho da rua, da vida. A gente se provoca, se alfineta, mas no fundo é parceria. Do jeito torto que dá pra ser nesse mundo. Levantei, fiz minhas higienes e já peguei o celular. Bandido não acorda em paz, não. Sempre tem mensagem, ligação perdida, cobrança, problema que não é seu, mas vira. Ainda mais quando você está à frente de um morro sozinho há anos, segurando ponta que nem sempre era pra ser sua. Às vezes eu paro e fico pensando que eu podia muito bem ter escolhido outro caminho. Não tenho história triste pra contar, não cresci passando fome, não vi ninguém morrer no meu colo quando era moleque. Eu entrei pro crime por adrenalina mesmo. Pela sensação de poder, pelo respeito rápido, pelo dinheiro fácil. Foi escolha minha. E talvez por isso pese mais às vezes. Meu pai era amigo do pai do Pesadelo. Cresci vendo os dois conversarem, rirem, fazerem planos. Quando o velho dele morreu e o Pesadelo assumiu, eu não pensei duas vezes. Fiquei do lado dele. Não por obrigação, mas por lealdade. Desde então tô aqui, no corre, segurando um morro inteiro nas costas enquanto meu parceiro tá preso. E vou te falar… é só p**a atrás de c****e, mano. Todo dia é um problema novo. É polícia querendo aparecer, é inimigo querendo crescer o olho, é morador reclamando, é soldado vacilando. Tudo passa pelo o Pesadelo. O homem sabe de tudo, tem olho em todo canto. Nada é feito sem o seu aval. E quando dá merda, sou eu que tenho que resolver. Hoje era pra ser diferente. Eu tinha planejado resolver umas paradas cedo pra poder surpreender a minha surtada. A Lara. A gente tá junto tem mais de dez anos, mas relacionamento sério mesmo vai fazer cinco. Foi depois da prisão do Pesadelo. E se eu ainda não fiquei maluco de vez, é por causa dela. Ela me fortaleceu quando tudo virou bagunça. Me ajudou a segurar o morro, me ajudou a segurar a cabeça, me ajudou a segurar a minha própria mão quando eu mesmo queria meter bala em meio mundo. A Lara não foge de nada. Vai onde precisa ir, fala com quem tem que falar, encara o que tiver que encarar. Ela foi até a delegacia antes dele descer pro Bangu com advogado, para falar com o Pesadelo. Não porque eles sejam próximos, não são, mas porque ela sabe o quanto isso é importante pra mim… e pra mãe dele. A tia não pode pisar lá, mas a Lara meteu as cara e foi. E isso não é pouca coisa. Aqui no morro ela ajuda em tudo. Até recolhe ela já fez, sem reclamar. Pouca mulher aguenta esse tipo de vida. E olha que eu já vacilei muito com ela. Não vou pagar de santo, não. No começo eu pintei o sete várias vezes. Mas ela também não ficava atrás, não. Enquanto eu pintava o sete, ela pintava quatorze, vinte e um, e o vinte e oito… e por aí vai. A gente se machucou, se afastou, se perdeu e se achou de novo. Hoje tá firme. Hoje é uma parceria de verdade. Já falei pra ela que tá na hora de meter uma cria no mundo. Não por pressão, mas porque eu sinto que é o próximo passo. Talvez seja minha forma de tentar construir algo que não seja só corre, arma e tensão. Mas aí vem a realidade e dá aquele tapa na cara. A mensagem do advogado piscando no celular. Eu fiquei encarando aquilo uns segundos antes de abrir. Porque quando advogado manda mensagem fora de hora… vem bomba. E veio. A regra da visita mudou. Agora só entra esposa registrada. O cara não teve nem a coragem de falar isso direto pro Pesadelo. Jogou a bomba no meu colo. Como se fosse simples resolver um casamento para um homem preso, dono de morro, cheio de inimigo e alvo de tudo quanto é olho. Suspirei fundo, passei a mão no rosto e pensei: “Beleza… mais um problema pra lista.” Ser braço direito do Pesadelo nunca foi fácil. Mas agora… agora ia exigir algo que poderia mudar a vida de mais gente do que eu gostaria. E eu ainda nem imaginava quem. Depois que desliguei o telefone, fiquei alguns minutos parado, olhando pra tela apagada do computador como se ela fosse me dar alguma resposta. Não ia dar. Decisão grande nunca vem com manual. E essa, se desse errado, não respinga só em mim, respinga no morro inteiro. Pesadelo ficou puto, como eu já esperava. Xingou juiz, xingou sistema, xingou até santo. Mas quando eu falei o nome dela… ele ficou quieto. E o silêncio dele nunca é bom nem r**m é perigoso. É quando ele tá pensando. Marcela. Nunca pensei que esse nome fosse pesar tanto na minha cabeça. Eu não conheço ela direito, isso é verdade. Mas no morro a gente aprende a observar. E ela sempre foi diferente. Sempre com pressa, sempre discreta, sempre na dela. Nunca vi o nome dela na boca do povo, nunca vi em resenha, nunca vi com homem. Não porque ela se acha melhor que ninguém, não mas porque ela não pertence a esse mundo. E é exatamente por isso que dá esse aperto no peito. A Lara fala dela com carinho, que é trabalhadora, que cuida da mãe sozinha, que largou a faculdade por causa da doença. Lara ontem ela chegou arrasada em casa dizendo que ela perdeu o emprego, que o sonho dela se formar ta cada vez mais longe. Eu ainda lembro quando ela me mostrou aquele vídeo da Marcela chorando ao pagar a matrícula… eu senti um negócio estranho. Não é pena. Respeito. Porque quem chora de alegria assim é quem lutou pra c*****o pra chegar ali. E agora sou eu que tô prestes a puxar ela pra um acordo com o d***o. Passei a mão no rosto, respirei fundo. Isso aqui não é sobre romance, não é sobre maldade gratuita. É sobrevivência. É manter o Pesadelo estável, é manter o morro funcionando, é evitar que ele surte lá dentro e resolva sair pelo caminho errado. O Pesadelo trancado, sem mulher, sem visita… vira bomba-relógio. Eu sei do que ele é capaz quando perde o controle. Levantei da cadeira e fui até a janela. Lá fora o morro seguia do jeito de sempre. Criança correndo, som alto, moto subindo e descendo. Tudo funcionando porque alguém segura as pontas. E hoje, esse alguém sou eu. Peguei o celular de novo. Pensei em ligar pra Lara, contar tudo. Mas não. Não agora. Ela é coração demais pra esse tipo de decisão. E se ela se envolver emocionalmente, vira problema. Isso aqui tem que ser frio. Marcela precisa aceitar por necessidade, não por pressão. E eu preciso falar com ela do jeito certo. Não é ameaça. Não é ordem. É proposta. Uma proposta injusta pra c*****o, mas que pode salvar a mãe dela. E isso é o que mais me incomoda: eu sei que ela vai entender. Vai pesar tudo. Vai pensar na mãe antes de pensar nela mesma. Esse tipo de gente sempre faz isso. Olhei o relógio. Já estava quase na hora de descer no morro. Combinei com um dos meninos pra ficar de olho em tudo e peguei a moto. O vento batendo no rosto ajuda a pensar, mas também traz dúvida. Será que eu tô fazendo a coisa certa? No nosso mundo, certo e errado não existem. Existe o que funciona e o que mata. E eu tô tentando escolher o que mantém todo mundo vivo. Enquanto descia fechei os olhos por um segundo. Que Deus me perdoe se eu estiver errado. Porque a partir de agora, se ela aceitar… a vida dela nunca mais vai ser a mesma.
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