CAIXA DE MÚSICA (CREPPYPASTA)
"Artur era um bom homem. Tinha seu emprego e se esforçava nele. Levantava-se todas as manhãs às sete horas para preparar seu café, antes do trabalho. E, enquanto sentia o cheiro exalar da cafeteira, planejava seu dia, sentado na poltrona vermelha em sua sala de estar. Mesmo que seus dias fossem quase todos iguais, ele seguia com seu ritual diário parecendo não se importar. Consciente disso ou não.
Artur tinha uma casa em que morava com seu filho, Emílio, e seus dois cachorros, Rico e Penny. Os dois haviam sido resgatados de um canil municipal, perto de sua casa. Artur tinha orgulho de seus cães, que se comportavam como os mais bem adestrados puros-sangues. Ele também fazia o possível para ensinar seu filho a ser, em sua concepção, uma boa pessoa. Aos sábados, Ele enchia o peito de orgulho por levar Emílio ao parque da cidade para ajudá-lo a plantar mudas de árvores, e, com carinho, mostrava o florescer daquelas que lá já estavam. Artur sentia-se um bom homem e gostava desse sentimento.
Quase todas as noites, Artur sentava-se à cama de seu filho e preparava-se para ler uma história para ele. E como esse era um dia como qualquer outro, ali estava ele.
“Papai, você pode me contar uma história de terror?” Disse a criança, já deitada, puxando o cobertor para junto de si.
“Que tipo de história de terror?” Artur deu alguns passos até a estante de livros ao lado da cama, divertindo-se com o pedido inesperado do filho, e como não houve resposta, permitiu-se continuar:
“Era uma vez uma criança que gostava de brincar no bosque, além de sua casa. Um dia, em uma manhã de sol, ela deixou-se levar pela brisa para um pouco mais adiante. A criança gostava de caminhar e de observar o canto dos pássaros, que o seguiam por seu caminho. E, em sua trilha sem rumo, encontrou-se em uma pequena clareira em que nunca estivera antes. Ela viu uma cerca de madeira com o portão aberto, e permitiu-se passar pela entrada, levando-a até uma simpática casa de tijolos vermelhos. Um senhor, rodeado de pássaros, e com um grande sorriso no rosto, estava parado à porta, de maneira tranquila e de semblante acolhedor. Ele virou-se amavelmente para a criança, apontando para os animais voando em torno de si ‘Boa tarde, minha jovem, gostaria de tomar uma xícara de chá comigo e meus amigos? ’. A criança prontamente respondeu que sim, e caminhou para o interior da casa, junta de seus novos amigos. O velho preparou rapidamente as bebidas, e, logo, os dois estavam sentados à mesa. Não tardou para que o senhor fizesse a pergunta de estrutura simples, mas de grande força, capaz de maravilhar instantaneamente o pequeno ser a sua frente. ‘Você gostaria de ser um pássaro como eles? ’. ‘Claro’ respondeu a criança sem demora ‘Mas como poderia? ’. O Velho endireitou as costas na cadeira em que sentava e disse com a voz atraente ‘Traga-me a caixa de música com o tom mais suave que encontrar, e a pena mais bonita, do pássaro que deseja compartilhar asas. A criança, em uma excitação maior do que poderia conter dentro de si, despediu-se do velho e partiu para casa, guardando, com todo cuidado, o caminho de volta para a simpática casa de tijolos vermelhos. A criança, ao chegar onde morava, exclamou para sua mãe, que costurava tranquila, sentada na varanda de frente para o bosque ‘Mamãe, nada me faria mais feliz do que ter uma bela caixinha de músicas! ’. Surpresa com o pedido, a mãe foi até seu quarto e, depois de um curto tempo, voltou com um pequeno embrulho em suas mãos ‘Esse foi um presente de sua avó para mim, e agora é um presente para você. Cuide bem dela’, a mãe disse com entusiasmo. A criança esperou pacientemente até o dia seguinte, e, na primeira oportunidade, adentrou o
bosque para voltar ao encontro do velho e de sua promessa. Ela, enquanto caminhava, convidava os pássaros para perto de si, mas se entristeceu, ao ver que nenhum deles respondia seu chamado. E, ao chegar a seu destino, olhou de longe para o velho, antes de se aproximar, sabendo que não havia conseguido tudo que o velho pedira. ‘Não encontrei nenhuma pena’, a criança exclamou com o tom de voz quase triste, mas ao mesmo tempo indagador. O velho sorriu, observando a criança chegar cada vez mais perto ‘Certo que podemos conseguir alguma para você, aqui
dentro’. Os dois entraram na casa, e, enquanto a criança esperava pacientemente sentada à mesa, o senhor abria algumas gavetas dos móveis da sala. ‘Aqui está.
Uma bela pluma de martinet noir’, ele disse sentando-se ao lado da criança. ‘O quê eu preciso fazer?’, indagou a criança quase impaciente. O velho levantou-se em direção ao mesmo móvel em que
trouxera a pena, e disse calmamente com um sorriso no rosto ‘Cantarole, junto com a canção da caixinha de música, sete vezes, imaginando voar por esses bosques, e engula a pena, logo que terminar’, A criança, obediente, deu sete voltas na corda do objeto. E viu, ao mesmo tempo, o velho acender uma vela à sua frente, enquanto murmurava uma canção desconhecida, que, juntas, afagavam amplamente o lugar. A criança sentia-se mais e mais sonolenta, a cada vez em que completava cada ciclo, mas mesmo assim, se esforçou para engolir a pena no final, e, antes que percebesse, estava voando sobre o bosque acima da casa de tijolos vermelhos. Feliz, a pequena andorinha seguiu caminho até a curta sacada da janela. Ela preparou-se para descer e, com pouca dificuldade, pousou no parapeito. A pequena andorinha, ao por suas pequenas garras na sacada, viu o velho ao lado de seu antigo corpo sem movimentos, e ao tentar falar alguma coisa, emitiu apenas um breve canto sem força. O velho sorriu apontando para a caixinha de músicas fechada ‘Sua voz está aqui, dentro dessa caixa, pequena andorinha. Agora, seja boazinha e vá com os outros pássaros me trazer mais uma criança para ser sua amiga’. E assim, a pequena andorinha foi voando para o bosque, junta de seus novos amigos”.
Logo que terminou a pequena história, Artur ouviu seu filho desejar boa noite em tom alegre e aconchegar-se no cobertor, virando-se para o lado. E, antes que pudesse apagar as luzes do quarto, ouviu o pedido do pequeno, deitado à sua frente “Papai, você poderia me dar uma caixinha de músicas?”. Artur deu um breve sorriso, imaginando o pouco que a criança deveria
ter entendido da história e concordou, sem pensar muito, depois de por fim, apagar as luzes.
Artur acordou no dia seguinte, e esperou de sua poltrona vermelha, seu café ficar pronto. Ele despediu-se de seus cães e, em pouco tempo, estava levando seu filho ao colégio, em uma rotina
que o agradava e lhe dava forças para cumprir seu trabalho como editor de um jornal local. Ele passou a tarde analisando os conteúdos programados para as edições seguintes, e antes que fosse capaz de perceber, andava pela calçada, a caminho de buscar seu filho na escola.
Em seu caminho, podia-se ver o interior de uma loja através de uma vidraça, e a prateleira superior exibia os mais diversos objetos, expostos de maneira uniformemente espaçada. E, quase como por acaso, um deles chamou sua atenção. Artur achou uma grande coincidência ver aquele objeto saltar sua atençao, e, de imediato, resolveu atender ao pedido de seu filho.
Logo depois do jantar, naquela mesma noite, Artur subiu para o segundo andar, entrou no quarto de Emílio, entregou-lhe o presente, e o deixou sozinho com sua nova distração. Sentia-se contente por ver a felicidade de seu filho, e sentiu-se orgulhoso por ter mantido sua palavra. Sabia que aquela noite, a pequena caixa de música tomaria toda a atenção de sua criança,
e dessa maneira os dias se seguiram.
Exatamente uma semana após aquele dia, Emílio corria para seu quarto, após o jantar, para dar atenção à tão bem falada caixinha de música. Artur não entendia o fascínio que seu filho sentia pelo som vindo do interior do objeto, quando a única coisa que deveria fazer era dar algumas voltas na corda, através do fecho que ficava em um de seus lados. Artur abriu o livro que
descansava na mesa de canto, e relaxou seu corpo na poltrona, sabendo que rapidamente seu filho adormeceria mais uma vez por conta daquela doce música.
Emilio, já em seu quarto, girou varias vezes a corda da caixa, e ouvindo a música, perambulava de um lado para o outro, quando, por um momento, pensou sentir um cheiro h******l, que do mesmo modo que apareceu, desapareceu. Ele caminhou até a janela e a abriu, mesmo que não percebesse mais nenhum odor. O céu estava limpo e a lua brilhava fortemente ao lado das
estrelas, quando ouviu uma voz doce por detrás de seu corpo. “Gostaria de poder voar por esse céu, pequena andorinha?”. Emílio virou-se assustado para trás, pronto para gritar o mais forte que podia, mas, para sua maior surpresa, não havia ninguém. E o único som que se podia ouvir era o da caixinha de música se esvaindo em silêncio. Ele caminhou até ela, segurou-a nas mãos, e, mesmo sentindo um pouco de medo, deu algumas voltas, antes de voltar para poder ver o céu novamente. E assim que seus dedos terminaram o trabalho, a voz apareceu suavemente mais uma vez.
"Por que não me responde, pequena andorinha? Você não gostaria de poder voar por esse céu tão bonito essa noite?”.
Emílio hesitou por um momento, antes de responder de forma bruta “Eu não quero virar um passarinho para sempre, e também não quero perder minha voz”. Ele encarou a caixinha em suas mãos, esperando pacientemente que ela o respondesse.
“Você não vai perder nenhuma voz, e logo que quiser poderá voltar a ser um menino novamente”. A voz, mais uma vez, disse as palavras em tom doce e cessou.
“Então, eu quero!” exclamou a criança “Então, eu quero!”. Mas a caixinha não emitia mais nenhum som.
Emílio sacudiu a caixa com energia, como se para acordá-la. “Eu quero caixinha, desse jeito eu quero!”, mas a caixa de música permanecia em silêncio, até que, para surpresa da criança a caixinha disse-lhe. “Pode voar, pequena andorinha. Pode voar que em breve nos encontraremos novamente”.
Artur, sentado de sua poltrona, ouviu o baque seco de algo que parecia ter vindo de bem ao lado de fora de sua casa. Ele, preocupado, levantou-se, energeticamente aflito com o quê poderia ter sido. Quando, ao segurar a maçaneta, ouviu o som da caixinha de música logo atrás da porta."
fonte: morra de medo.