4 CAPITULO

1614 Palavras
Por Hanna Desde que Marcela havia ido embora há cinco anos eu conheci o verdadeiro significado da palavra sofrimento. Não teve um só dia em que eu não me arrependesse amargamente de ter sido tão estúpida a ponto de não assumir para o mundo o quanto eu amava aquela mulher. Vivi dias difíceis tentando uma reaproximação, mas ela sempre foi muito clara dizendo que não queria nada comigo, nem ao menos queria saber nada sobre mim, inclusive proibiu nossas amigas de falar meu nome para ela, então resolvi respeita-la e sofrer em silêncio a falta que ela me fazia, afinal eu fui muito escrota com ela e jamais conseguiria me perdoar por tudo o que falei naquele dia sem saber que ela ouvia tudo. A partida de Marcela também me trouxe problemas com minha irmã que não conseguia me perdoar pelo o que eu tinha feito, mas sua partida me deu coragem para assumir o que eu era e tentar ser uma pessoa melhor. Assumi minha sexualidade não apenas para minha família, mas para todos aqueles que de alguma forma estavam presentes no meu dia a dia, inclusive para colegas de faculdade. Busquei dar o meu melhor na faculdade e consegui concluir o curso de direito no tempo certo e com as melhores notas da turma. Me relacionei com poucas mulheres, sempre na tentativa inútil de esquecer a Marcela, doía cada foto que eu via dela com alguma mulher em Portugal, mas eu sabia que ela estava seguindo a vida dela e tentei fazer o mesmo, porém sempre foi em vão, pois mulher alguma seria capaz de me fazer esquecê-la. Depois de um ano da partida de Marcela aconteceu o maior terror que já vivi na minha vida. Era uma noite fria quando eu saia da faculdade sozinha indo em direção a um ponto de táxi, quando passei por uma parte do campus onde estavam três garotos, dois deles eu não conhecia, mas um em especial sim, eu conhecia perfeitamente bem. Jefferson Morais estudava na mesma turma que eu, o garoto era um play boy que pouco se importava com os estudos, diziam que ele se drogava e só cursava direito porque era filho de um dos auxiliares do reitor. Ele sempre tentou uma aproximação mais íntima comigo, porém todas as investidas dele eu prontamente recusava. Quando me assumi como lésbica ele começou me tratar de forma baixa e preconceituosa, sempre me humilhando na frente de todos e eu o ignorava na esperança de vencê-lo pelo cansaço. Jefferson dizia que meu problema era falta de homem e que um dia ele iria resolver essa questão e todos apenas sorriam. Ao vê-lo naquela noite totalmente bêbado e drogado eu tremi de medo. Tudo aconteceu muito rápido e em poucos instantes eu estava ali sendo segurada pelos dois amigos do Jefferson enquanto ele abusava sexualmente de mim naquele lugar escuro e silencioso do campus universitário. Ele dizia que nunca mais eu iria querer uma mulher na vida, além de outras palavras humilhantes e dolorosas. Foram poucos minutos, mas o suficiente para me fazer sentir um lixo, eles foram embora me deixando largada e sem forças de gritar por ninguém, apenas disquei o número de Micaela e implorei para que ela fosse ao meu encontro. Foram os piores dias e meses da minha vida, minha família me fez denunciar o garoto que foi preso, julgado e condenado, agora ele estava em uma penitenciaria cumprindo sua sentença. Demorou alguns meses para que eu voltasse realmente a viver e quando finalmente eu estava conseguindo mais uma bomba caiu na minha vida, sim, eu estava grávida daquele que um dia abusou de mim. No inicio quando recebi a noticia eu quis morrer e me perguntava todo santo dia o porquê Deus estava me castigando daquela forma, mas com um tempo eu entendi que aquela criança não tinha culpa de como foi gerada, muitas mulheres no meu lugar poderiam não querer a criança e eu jamais as julgariam por isso, pois a dor de um estupro só quem passa conhece sua intensidade. No entanto, eu queria ser melhor do que fui um dia, eu queria ser melhor do que Jefferson e seus amigos criminosos. Eu não seria assassina, então resolvi que eu teria a criança, mesmo sem imaginar como conseguiria olhar nos olhos dela ou dele. O tempo passava e minha família e amigas me ajudavam com o que eu precisava. Cheguei a pensar que talvez fosse mais fácil passar tudo aquilo com Marcela por perto, mas eu tinha estragado minha chance de ser feliz. Quando peguei aquela criança pela primeira vez nos braços pude sentir algo que jamais havia sentido, era como se todo sofrimento estivesse acabado naquele instante, olhei aquele ser indefeso que precisava exclusivamente de mim para sobreviver e percebi que eu era a única que poderia ensinar aquela criança que ela deveria ser melhor do que eu fui um dia. E sim, eu a amei desde o primeiro momento que a tive em meus braços, sem ao menos lembrar que ela era fruto de um abuso s****l. O tempo passou e agora Marcela estava de volta exatamente igual como sempre foi exceto pela sua personalidade fria e carrasca que até então era desconhecida por mim. Os dias na empresa estavam sendo os mais torturantes para mim, porque apesar de trabalharmos diretamente juntas, no nosso primeiro contato a sós ela fez questão de deixar claro que nosso contato seria extremamente profissional. Marcela fazia questão de me ignorar o máximo que fosse possível, sempre me encaminhando a Renata quando era algo que não fosse tão necessário sua participação, mas eu confesso que meu coração batia mais forte sempre que eu estava na presença dela ou ouvia sua voz, além de sentir uma dor no coração com o desprezo que recebia da Marcela. Infelizmente a minha Marcela doce e atenciosa não existia mais. Era sábado e fazia poucos dias que Marcela havia retornado. As meninas resolveram fazer uma social para comemorar sua volta e obviamente eu não iria participar, não queria estragar nada, então passei rapidamente na casa da minha irmã para deixar umas bebidas que ela me pediu para comprar já que o Robson que agora era seu marido não iria poder sair para fazer isso. Cheguei lá e encontrei todas no jardim de frente para piscina. Minha filha que agora tinha quase quatro anos de idade começou correr pelo o jardim da casa junto com meu cunhado que era louco pela criança, ele e meu pai dividiam o status e obrigações de pai da minha filha. – Olha sua folgada, só trouxe isso porque era para a Marcela, mas me deixa ir embora antes que ela chegue, eu não quero causar problemas. – Vocês não conseguiram evoluir nada na convivência? Já faz duas semanas que ela voltou! Daniela me perguntou e eu apenas acenei negativamente. – Mas eu a entendo, eu fui escrota com ela no passado. – Isso faz tempo, vocês precisam pelo menos conversar para conseguir conviver amigavelmente. – Minha irmã falava enquanto colocava as bebidas para gelar. – Gente não é tão simples assim, sem falar que ela não sabe nada sobre minha vida, então a imagem que ela tem é a da antiga Hanna que quebrou seu coração. – GABRIELA, CUIDADO COM O CARRO! Ouvi meu cunhado gritar e todas corremos em direção onde minha filha estava caída no chão. Vi Marcela descendo desesperada do carro correndo e se baixando ficando na altura da Gabriela que parecia estar em choque, ela estava com os olhinhos arregalados olhando em direção ao carro. – Meu Deus, você está bem? Se machucou? – Marcela perguntou desesperada para Gabriela. – Robson eu juro que não a vi na frente do carro. Pude ouvir a voz de Marcela enquanto me aproximava vendo-a fazendo um carinho em minha filha – Tudo bem Marcela, a culpa é minha que abri o portão para você e não segurei essa menina, ela deixa qualquer um doido. – Mamãe desculpa eu? Gabi correu em minha direção e Marcela se levantou assustada olhando para onde eu estava com as meninas. – Tudo bem Gabi, mas você precisa ter atenção meu amor, poderia ter acontecido algo muito sério com você. Como você está? Se machucou? – Beijei o rosto da minha filha que agora estava em meus braços. – Mãe? Você é mãe dessa criança, Hanna? Marcela atraiu meu olhar para ela quando pela primeira vez em dias ela falava comigo sem rispidez, o que me deixou incrédula. – Sim, a Gabriela é minha filha. – Falei sem saber qual reação esperar de Marcela. – Ela é tia de eu também mamãe? A pergunta inocente parecia ter pego todos nós de surpresa e percebendo que nenhuma de nós falamos nada Renata tomou a frente. – Gabi, que tal você vim com a tia Renata tomar um sorvetão de chocolate com bastante cobertura? Minha filha se animou jogando os bracinhos para que Renata a pegasse no colo. Ô garotinha vendida quando o assunto é sorvete! – Renata, por favor, eu vou embora você sabe disso! A criança fez cara de choro no colo de Renata e então veio à surpresa – Porque não fica? Ela parece que gostaria de ficar, você não vai estragar a diversão da criança, vai? – Fiquei paralisada com a forma calma que Marcela falava. – Fica Hanna... Digo, por ela. Marcela falou enquanto passava a mão na cabeça da Gabriela e a tirava dos braços de Renata levando-a para seu colo. De todas as reações possíveis aquela era a que jamais cogitei. Talvez eu precisasse de muito tempo para conseguir entender Marcela que a cada dia parecia se tornar um enigma indecifrável.
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