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2360 Palavras
Dulce A primeira coisa que senti quando acordei foi uma dor aguda em minha cabeça. Era como se alguém estivesse tentando enfiar um prego em meu cérebro.  Quando pensei em me espreguiçar, senti minha mão sendo segurada por alguém e quando olhei para o lado, meus olhos encontraram o rosto de Daniel, que estava sentado no chão e com a cabeça encostada na cama dormindo.  Ele passou a noite toda ao meu lado, segurando a minha mão e pensar nisso me fez sorrir. Mas quando lembrei de como se encontrava a nossa situação atual, esse sorriso morreu e eu fui tomada por um sentimento de tristeza.  Lembrei-me do que falei na noite anterior e logo me arrependi. Como eu tive a coragem de oferecer-me para ele depois de tudo? Sim, eu o amava, mas custava aceitar que isso nunca daria certo? Por que o meu amor por ele tinha que ser maior do que a mágoa que eu sentia?  Ergui minha mão até seu rosto e o toquei com as pontas dos meus dedos por sua face, passando por sua testa, bochecha e finalmente, os seus lábios. Eu poderia olhar para ele o dia inteiro.  Daniel começou a resmungar e finalmente abriu os olhos, ainda um pouco atordoado e sem entender onde estava. Quando ele parou seu olhar em mim, seu rosto se tranquilizou e ele sorriu de lado.  — Olá. — falou.  — Bom dia. — respondi.  — Dia? — ficou sério e olhou pela janela onde o sol entrava. — Não era para eu ter dormido! — colocou a mão sobre a testa.  — Mesmo assim, agradeço por ter ficado ao meu lado. — ao sentar, eu senti o meu estômago embrulhar e coloquei a mão sobre a boca.  — Aqui. — ele me entregou um balde, mas eu neguei com a mão, sentindo o enjôo cessar. — Sua mãe deve estar preocupada.  — Nem imagino as coisas que irei ouvir quando chegar em casa. — revirei os olhos.  — Eu preciso voltar ao castelo, tenho que trabalhar. — ficou de pé.  — Vocês acordaram! — Angelique disse, entrando pela porta da frente e carregando uma cesta de pães. — Acabei de passar na padaria. Vocês querem café?  — Eu adoraria, Angelique, mas preciso ir. — Daniel falou. Ouvimos algumas batidas na porta e quando Angelique atendeu, era o Edgar.  — Como vai, raio de sol? — Edgar perguntou para ela e logo em seguida, lhe deu um beijo.  — Vou muito bem. — ela sorriu.  — Vim chamar o Daniel. Tem uma pessoa que está furiosa por você ter passado a noite fora. — ele até tentou esconder, mas eu sabia que estava falando da noiva de Daniel e foi impossível esconder o meu desconforto.  — Eu já estava de saída. — Daniel falou. — Tenham um bom dia, garotas. E Dulce, não faz bem beber tanto. — sorriu gentilmente e eu retribuí o sorriso. Eles se retiraram e Angelique veio até mim, oferecendo-me um dos pães que havia comprado. Eu neguei com a cabeça rejeitando a ideia de ingerir qualquer coisa sólida.  — Precisa alimentar-se. — ela disse.  — Se eu comer, vou vomitar.  — Talvez o seu corpo precise livrar-se de tudo o que bebeu ontem. — fiz uma careta. — Come. — colocou o pão em minha mão. — No que estava pensando quando resolveu beber tanto?  — Faz pouquíssimo tempo que experimentei cerveja pela primeira vez, ainda não conheço os meus limites.  — E você estava bebendo com quem?  — Com o Ronald. — Ronald? Ele não fez nada a você, fez? — perguntou preocupada.  — Não, mas nós nos beijamos. — Angelique ficou boquiaberta. — Foi uma péssima ideia, eu não irei mais fazer isso. — eu ri.  — Agora ele vai achar que você gosta dele! — repreendeu-me.  — Não vai, acalme-se. — E o Daniel? Vocês não conversaram?  — Foi uma conversa bem desconfortável, eu prefiro não lembrar.  — Não pode me esconder nada. — cruzou os braços.  — Eu falei muitas besteiras ontem. — desviei o olhar. — Me joguei para cima dele sem nenhum pudor.  — Dulce! — arregalou os olhos. — O que o álcool fez com você?  — A pergunta é: o que o Daniel fez comigo? — suspirei. — Eu queria poder odia-lo, sabe? Desejar estar o mais longe possível dele. Mas eu o amo e não aguento ficar afastada.  — Dulce, ele irá se casar com outra.  — Eu sei! Repito isso para mim mesma todos os dias. Devo estar perdendo a minha razão. — coloquei a mão sobre a testa.  — Para de dar tanta atenção para alguém que te fez tão m*l. Ele a usou, despertou sentimentos em você que ele sabia que não poderiam ser correspondidos. Daniel não é um bom homem e você precisa aceitar isso, por mais apaixonada que esteja. — eu assenti devagar. Retornei para casa quando já estava sentindo-me bem o suficiente para ficar de pé. Quando entrei, chamei por minha mãe, mas notei que ela já não estava lá. Provavelmente, teria levantado cedo para ir até a venda.  Quando cheguei lá, a vi varrendo a entrada e assim que me viu aproximar-se, colocou as mãos na cintura e me olhou séria.  — Eu sei, você quer me matar. — eu disse erguendo as mãos em rendição.  — Ronald me disse que você estava com ele ontem à noite. E depois? Para onde você foi, Dulce? — cruzou os braços.  — Eu dormi na casa da Angelique. Era mais perto, foi melhor ter ficado por lá. — eu disse um pouco temerosa.  — Custava ter voltado mais cedo? Eu não sabia onde você estava, morri de preocupação! — repreendeu-me.  — Eu sei, perdoe-me. Prometo que isso não acontecerá mais.  — O que eu faço com você? Não deveria ficar por isso mesmo!  — Mamãe, não precisa fazer nada, eu estou arrependida.  — Bom dia! — Maitê aproximou-se com um sorriso. — Dulce, está com uma cara péssima! — riu.  — Pois é... — cocei a nuca.  — Sente-se bem? — ela segurou minha mão.  — Sim, não se preocupe.  — E como vai a senhora, dona Blanca? — ela perguntou para a minha mãe.  — Estou bem, querida. — minha mãe sorriu. — O que são esses papéis que você traz em mãos?  — São algumas autorizações para entrar no território real durante a cerimônia de casamento. Eu vou precisar de mais alguns ajudantes na cozinha, então estou procurando por pessoas. — explicou.  — Qualquer um pode ir? — minha mãe perguntou.  — Sim.  — Dulce pode fazer isso.  — Eu? Mas é o casamento real, provavelmente a cozinha vai estar cheia e ninguém vai parar o dia inteiro! — reclamei. — Eu nem iria poder ver a cerimônia de qualquer jeito!  — Considere como o seu castigo por ter deixado a sua mãe tão preocupada ontem à noite.  — Dona Blanca, eu não sei se isso é uma boa ideia. — Maitê pareceu desconfortável. — A Dulce nunca trabalhou numa cozinha antes, eu preciso de pessoas experientes.  — Você disse que qualquer um poderia ir. Eu não vejo nenhuma dificuldade em apenas obedecer ordens. Dulce sabe trabalhar bem.  — É que... — Maitê olhava para o céu, como se esperasse que uma resposta divina fosse enviada. — Eu acho que não há nada que eu possa dizer em negação à essa ideia. — suspirou. — Tudo bem, a Dulce pode ir, mas tem que me prometer que não irá sair da cozinha!  — Por que eu faria isso? — franzi a testa.  — Para tentar ver a cerimônia, talvez? — arqueou a sobrancelha.  — E você não irá ver?  — Eu sou a chefe na cozinha, sou amiga do príncipe. Eu terei que estar presente.  — Então, você pode fazer com que eu também assista! — me animei.  — Nada disso, querida! — minha mãe disse. — É para ser um castigo, não uma diversão!  — Mas é a primeira coroação que eu poderei presenciar e a única forma de assistir seria assim, já que o príncipe proibiu a presença de aldeões. Inclusive, acho essa atitude extremamente preconceituosa.  — Ele tem os motivos dele. — Maitê deu de ombros. — Mas se a sua mãe não permite que você assista ao casamento, eu não vou te ajudar a desacata-la.  — Fico agradecida, Maitê. — minha mãe sorriu. — Vou até os fundos cuidar da costura e você, mocinha, se despeça de sua amiga e vá para trás do balcão! — ordenou e eu assenti uma única vez antes que ela desse as costas e entrasse.  — Não estava falando sério, não é? Vai me levar para ver a coração. — eu disse para a Maitê.  — Não vou não.  — Mas... — fui interrompida.  — Dulce, é para o seu bem!  — Eu não sou mais uma criança!  — Mas ainda deve respeito à sua mãe! Se ela não quer que você faça algo, não deve fazer!  — Então, vai ser só mais um dia de trabalho muito chato. — bufei.  — E você irá ganhar três saquinhos de moedas de ouro por esse trabalho.  — Agora eu gostei. — sorri.  ••• No dia do casamento real, eu ganhei um vestido muito formal, que era idêntico aos vestidos usados pelos outros serviçais que trabalhariam na cerimônia.  Assim que entrei no território da realeza, Maitê arrastou-me até a cozinha e repetiu novamente que eu não sairia dali até a hora de irmos embora. Era um pouco deprimente saber que um casamento real e uma coroação estariam acontecendo num salão de festas bem ao lado e eu não poderia ver.  Eu estava muito sonolenta, já que saímos de casa antes do nascer do sol. Toda a realeza ainda dormia e só seriam acordados na hora de vestirem-se para a iniciação da cerimônia.  Maitê me deixou cortando alguns legumes numa mesa enorme, com vários outros serviçais ao meu lado que faziam diversas coisas diferentes. O lugar estava cheio e barulhento, todos andavam de um lado para o outro com pressa e uma ansiedade cravada em suas expressões.  — Que clima tenso. — eu disse entregando os primeiros legumes picados para que Maitê jogasse na panela.  — Hoje é um dia muito importante, todos querem que tudo seja perfeito. — ela disse.  — Não tenho dúvidas de que será um dia esplêndido. — eu sorri.  — Maitê, eu estou morto de fome e preciso de... — Edgar disse entrando na cozinha e parou de falar quando me viu. — Dulce? — franziu a testa.  — Oi, Edgar! — o cumprimentei.  — O que você está fazendo aqui? — perguntou com estranheza.  — Maitê precisava de mais ajudantes e eu me ofereci. Bem, a minha mãe me ofereceu. — dei de ombros.  — E a Maitê aceitou que você viesse para o casamento real? — dessa vez ele estava olhando para a Maitê quase como se estivesse a repreendendo.  — Eu não pude lembrar de nenhum motivo para a Dulce não vir. — ela disse séria. — Mas ela não irá sair da cozinha, não é? — abraçou-me de lado.  — É. — revirei os olhos. — Até que eu queria assistir à cerimônia.  — Não será possível. Apenas os serviçais convidados pessoalmente pelo príncipe poderão estar presentes. — Edgar disse.  — Isso não é justo! — resmunguei.  — Muitas coisas não são justas, minha querida. — Maitê disse.  — Eu preciso falar com o príncipe. — Edgar disse. — Tenham um bom trabalho. — nós duas assentimos e ele se retirou. — Por que pareceu que ele não gostou de me ver aqui? — perguntei.  — Foi só impressão sua. — Maitê disse. — Agora, ao trabalho.  Christopher  Estava em um sono profundo quando senti alguém me sacudir para que eu acordasse. Abri meus olhos e vi Edgar me encarando com um semblante preocupado.  — Eu pretendia dormir bastante antes desse dia horrível começar. — falei esfregando meus olhos.  — A Dulce está aqui. — foi direto.  — O que? — sentei na cama imediatamente. — Por que ela está aqui? — isso não era nada bom.  — Está na cozinha trabalhando com a Maitê.  — Por que a Maitê a trouxe aqui? — me irritei.  — Não foi culpa dela, é uma longa história. Enfim, só queria deixá-lo avisado, mas não tem que se preocupar. Maitê não vai deixar que ela saia da cozinha e eu não vou permitir que ela entre no salão de festas caso tente.  — Eu quero falar com ela. — fiquei de pé e comecei a procurar uma roupa mais simples dentro do armário. Algo que de assemelhasse ao que os guardas utilizavam.  — Christopher, não comece com isso! — reclamou.  — Eu não pretendia fazer isso, mas já que ela está aqui, vou aproveitar para me despedir antes de entrar na minha deprimente prisão com Eliza.  — Deixe a Dulce em paz, Christopher. — respirou fundo.  — Eu vou deixar, agora mesmo. Só quero vê-la pela última vez, tudo bem? Pode levá-la até um corredor vazio?  — Não gosto nada disso. — negou com a cabeça.  — Edgar, eu nunca mais a verei, quero que isso tenha um final digno!  — Isso não era nem para ter um início!   — Por favor. — supliquei.  — Promete que será a última vez que a verá?  — Eu prometo.  — Deixe tudo bem claro, não a faça acreditar que estão se reconciliando ou algo do tipo.  — Não farei isso. Eu quero mesmo que ela saiba que não iremos ter mais nada um com o outro.  — Tudo bem, eu vou buscá-la na cozinha e depois que deixá-la num corredor vazio, eu venho buscá-lo.  — Obrigado, você é um grande amigo. — dei dois tapinhas em suas costas.  Agora era a hora de colocar um ponto final em toda a história de amor que eu e Dulce construímos. Seria doloroso, a junção de todas as dores que eu vinha sentindo desde que nos afastamos. Mas além disso, era uma forma de nos conformar, um motivo para seguir em frente sem olhar para trás.
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