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2262 Palavras
Christopher  A repentina melhora de meu pai foi apenas passageira. Após um dia de calmaria, ele voltou à sua tormenta anterior, com gritos ainda mais agudos do que antes. Os médicos já começavam a desistir, apenas seguindo o tratamento original, mesmo sabendo que ele não faria nenhuma diferença. Apenas uma ajuda divina seria capaz de salvar a vida dele. Num domingo de manhã, o sol m*l havia começado a nascer e eu fui chamado às pressas em meus aposentos. Corri pelos corredores do castelo em direção aos aposentos de meu pai e quando entrei, me deparei com o médico analisando a sua pulsação, com o rosto nada feliz.  — Alteza, sinto informar, mas nós perdemos o rei. — ele disse olhando para mim.  Eu fiquei estático, sem ter noção dos meus sentidos. O mundo parecia ter entrado em pausa e nada ao meu redor poderia ser ouvido, além de um zunido que se estendeu por longos segundos no interior dos meus ouvidos.  Os conselheiros, ao lado do corpo falecido de meu pai, lamentavam com palavras religiosas, desejando que a alma dele fosse bem recebida no reino de Deus.  Do lado de fora, ouviu-se um grito desesperado, sendo seguido de um choro exagerado, que parecia querer explodir a garganta da minha irmã. Certamente, as suas serviçais haviam acabado de lhe contar sobre o que aconteceu.  Não demorou até que minha irmã entrasse correndo, indo em direção até a cama, jogando-se sobre o nosso pai, derramando todas as lágrimas que podia, em gritos de agonia.  Ela levantou, correu até mim e começou a dar socos em meu peito, ainda chorando.  — Você não me deixou vê-lo! — gritou. — Eu não pude despedir-me do meu pai! — eu não dizia nada, nem emitia qualquer reação. — Eu te odeio! — ela continuou a bater-me, então eu segurei seus braços, a forçando a parar e a abracei, prendendo-a em meus braços.  Anahi continuou chorando compulsivamente, agora aceitando o meu abraço, enterrando seu rosto em meu peito.  Eu me mantive firme, talvez por ainda não estar conseguindo processar que eu o havia perdido e o que a sua morte iria fazer com o meu futuro e o futuro do reino.  Logo, padres e demais sacerdotes foram até o castelo realizar uma oração, afim de guiar o meu pai até o céu. Durante toda a cerimônia, que acontecia em seus aposentos, eu fiquei olhando fixamente para o corpo dele, pedindo em pensamento para que aquilo não fosse real, para que ele abrisse os olhos e dissesse que estava bem.  — Alteza? — Faustos aproximou-se de mim assim que saímos do quarto. — O bispo gostaria de saber se a cerimônia de falecimento será aberta ao povo.  — Não quero que a morte do meu pai vire um espetáculo. Ele será enterrado imediatamente, numa cerimônia apenas com a realeza e alguns serviçais.  — Como quiser, vossa alteza. — retirou-se logo depois de se curvar.  — Vossa alteza? — outro sacerdote abordou-me. — Gostaríamos de saber se a morte do rei deve ser anunciada pelo reino agora.  — Eu não sei, façam o que quiserem. — passei a mão por meus cabelos, impaciente.  — Mas vossa alteza agora é a autoridade máxima aqui, deve tomar as mais importantes decisões. — era isso que eu temia, eu não estava pronto para essa liderança.  — Então, anunciem. — dei de ombros. Ele se curvou e saiu para longe de mim. Antes que mais alguém me parasse para pedir mais alguma informação, eu fui às pressas até o haras. Queria pegar o meu cavalo e sair dali. Aquele clima não estava me fazendo bem e eu queria lidar com a minha dor sozinho e sem interrupções.  Assim que preparei a sela em Salazar e o montei, vi Edgar correr em minha direção enquanto acenava.  — O procurei por todo o castelo. — ele disse ao aproximar-se. — Queria saber como você está, não pode ficar sozinho num momento tão difícil.  — Eu agradeço a sua preocupação meu amigo, mas eu prefiro lidar com isso sozinho.  — Onde está indo?  — Eu não sei, só vou sair por aí. — suspirei.  — Eles querem que você dê algumas opiniões sobre a cerimônia de falecimento.  — Te dou toda a autoridade para tomar decisões em meu lugar enquanto eu estiver fora.  — Tem certeza?  — Confio em você, Edgar. Preciso que faça isso por mim. — ele assentiu. — Volto antes do meio dia. E assim que eu estiver aqui, iremos enterrar o meu pai.  Comecei a cavalgar o mais depressa possível em direção ao bosque. A medida que me afastava do castelo, sentia meus olhos queimarem. Deixei que as lágrimas me consumissem e chorei com direito a soluços altos que eu deixava para trás enquanto o meu rosto cortava o vento.  Cheguei até o rio, deixei Salazar preso em uma árvore e sentei em uma das rochas após tirar minhas botas e subir minhas calças até os joelhos para colocar meus pés dentro da água.  Com as mãos, eu peguei um punhado de água e joguei em meu rosto, tentando me fazer parar de chorar, mas parecia impossível. Agora que eu estava só, tudo vinha de uma vez e os pensamentos negativos me consumiam.  Meu pai não estava mais aqui para me amparar, rir comigo e me dar conselhos sobre a vida. Eu teria que assumir o trono mesmo não me sentindo preparado para aquilo, ao lado de uma mulher que eu não amava e correndo o risco de nunca mais ter o verdadeiro amor da minha vida em meus braços novamente.  Essa dor parecia querer abrir um buraco em meu peito e doía mais do que qualquer ferimento que eu já havia sentido na vida, seja ele emocional ou físico.  — Daniel? — ouvi a voz de Dulce me chamar e quando olhei em sua direção, ela estava segurando uma cesta de roupas e me olhava preocupada. — O que aconteceu? — Dulce largou sua cesta no chão, correu até mim e ajoelhou-se ao meu lado.  — O meu pai morreu. — fechei meus olhos, o mais forte possível e tornei a chorar.  — O que? — ela arregalou os olhos. — Meu Deus! — Dulce me ofereceu um abraço e eu encostei minha cabeça em seu ombro. — Eu sinto muito, meu amor.  Ela me abraçou e no calor de seus braços, eu continuei a chorar até me sentir aliviado o suficiente. Quando já estava em silêncio, ela continuou abraçada a mim, acariciando minha cabeça com carinho e me dando alguns beijos por minha testa. Sentir aquele toque delicado vindo dela me trazia uma paz indescritível.  — Obrigado, eu me sinto melhor. — falei me soltando do abraço dela. — O que aconteceu com o seu pai? Você não disse que ele estava doente. — me olhou com estranheza.  — O meu pai? — eu nem percebi que havia falado que o meu pai era quem tinha morrido. Seria difícil explicar isso. — Eu não queria falar sobre isso, eu achava que ele ficaria bem e que não tinha porquê me preocupar. Foi por isso que eu não disse nada.  — Ele está num bom lugar agora, eu tenho certeza. Se o filho que ele criou é tão bom, ele deveria ser um homem de ouro. — sorriu de lado e eu sorri também.  — O meu pai era o melhor. Ninguém nunca será tão bom quanto ele. — eu me referia ao reinado. — Não acredito que ele se foi. — desviei o olhar.  — Eu estou aqui para o que você precisar. — ela levou sua mão até o meu rosto.  — Eu preciso de você. Não quero perdê-la. — eu disse a olhando fixamente. — Você não vai me perder. — pobre Dulce, m*l sabia o inferno que eu teria que enfrentar para não perdê-la.  Nós ficamos juntos por algumas horas, onde ela me amparou, trazendo-me uma força que eu não achava que tinha. Seria difícil superar a morte do meu pai e ter a Dulce por perto fazia-me lidar com isso da melhor forma possível.  Como prometido, voltei ao castelo antes do meio dia e logo todos foram guiados até o cemitério real que ficava nos fundos do castelo. Toda a minha família tinha o seu descanso eterno naquele lugar.  Ao lado da cova de minha mãe, o meu pai foi enterrado. Uma lápide seria providenciada no dia seguinte com os dizeres "Vossa majestade rei Victor de Seráfia. Um rei bondoso e um pai cheio de amor".  Todos que fizeram parte da cerimônia jogaram flores sobre o caixão antes que a terra o cobrisse por completo. Olhar aquela cena sabendo que o homem que estava sendo enterrado era o meu pai, era a coisa mais dolorosa pela qual eu tive que passar desde o falecimento de minha mãe.  — Vossa alteza príncipe Christopher, gostaria de dizer algumas palavras? — o bispo perguntou-me após finalizar a leitura da bíblia.  — Bem... — respirei fundo. — Eu nunca achei que isso iria acontecer tão cedo. Você dizia que eu estava pronto para tudo, mas isso não é verdade. Só eu sei o quanto estou em pânico agora que você se foi. Não apenas porque eu tomarei o seu lugar, mas também porque não terei você aqui para me acalmar e me ensinar da melhor forma possível como ser um bom líder. A sua ausência vai ser sentida por muitos anos, meu pai. — senti meus olhos encherem-se de lágrimas. — Eu sempre vou amar você. Dê um beijo na mamãe por mim.  — Vossa alteza princesa Anahi, deseja dizer algo? — ele perguntou para a minha irmã.  Eu não ouvi muito bem o que Anahi disse, minha cabeça estava barulhenta agora, cheia de preocupações e lamentos que gritavam ao mesmo tempo em mim.  Depois que tudo terminou, Faustus me levou até o salão de reuniões para que eles dissessem quais seriam os próximos passos. Eu não estava gostando nada daquilo. O corpo de meu pai m*l esfriou e eles já queriam organizar a coroação do próximo rei.  — Entendemos que o clima no castelo não está muito agradável no momento, mas os senhores precisam entender que não podemos passar longos períodos de tempo sem um governante. — Faustus disse. — Por sorte, o príncipe já tem uma noiva. — eu ouvia tudo calado.  — E quando teremos o casamento real? — outro conselheiro perguntou. — Para tudo ocorrer rápido, a cerimônia de coroação pode ser realizada no mesmo dia. — eu ficava cada vez mais incomodado com aquela história.  Maitê entrou na sala e começou a servir chá para todos os onze homens sentados à mesa. Consequentemente, ela acabou ouvindo do que se tratava aquela reunião e me olhou com uma expressão de pânico.  — Dá para resolvermos isso depois? — falei alto, interrompendo o assunto deles. — Meu pai acabou de morrer e eu acho uma falta de respeito quererem substituí-lo tão rápido.  — Vossa alteza, precisa entender que... — Faustus começou a falar, mas eu o interrompi.  — Eu entendo muito bem, Faustus. Vocês são homens preparados para tratarem da organização do reino e preocupam-se com isso acima de tudo. Eu não. O rei que vocês querem substituir era o meu pai e eu não estou pronto para esquecê-lo.  — Nós não esquecemos nenhum de nossos reis, alteza. — Faustus disse, apontando para as paredes com as pinturas dos meus antepassados. — O nosso dever é evitar que haja uma anarquia, garantindo que sempre tenhamos um líder.  — E eu estou aqui, Faustus. Tomarei conta do reino mesmo não sendo um rei de fato. Não tenho pressa para ser coroado e muito menos para me casar.  — Deve imaginar que o rei de Augustus de Atenas irá cobrar o casamento assim que souber do falecimento de seu pai.  — Marcarei o meu casamento quando eu achar necessário. — fiquei de pé. — Por hora, vou me manter de luto e não pensarei nessas questões.  Todos eles se curvaram diante de mim e eu os deixei. Quando atravessei a porta, Maitê estava lá, me aguardando.  — Você vai se casar, não vai? — ela perguntou.  — Sim, mas não agora.  — Tem mesmo que fazer isso?  — Meu pai fez um pacto real. Se eu não cumprir, estarei arriscando o meu reino a ter que lidar com uma falência ou pior, uma guerra. O máximo que eu posso fazer é tentar adiar esse casamento.  — E a Dulce?  — Maitê, você sabe que eu não quero machucá-la. — Mas você vai, sabe que vai! Não tem escapatória. Você disse que ia pensar em algo para mantê-la bem, mas dá para ver em seus olhos o quanto está perdido.  — Eu não consigo pensar com racionalidade, eu sinto muito. Deixar a Dulce é uma ideia que eu não quero seguir sob hipótese nenhuma.  — Não importa o que escolha fazer, se vai dizer a verdade ou continuar mentido. Dulce acabará machucada, cabe a você decidir como quer destruir o coração dela.  — Eu não quero fazer isso. — olhei para o chão.  — Então, parece que vai escolher continuar mentindo. — me olhou com repreensão. — Na primeira vez em que a viu, você deveria tê-la ignorado e seguido com a sua vida. — ela deu as costas e se retirou.  Por mais difícil que fosse para mim aceitar, Maitê estava certa. Eu nunca deveria ter dado o primeiro "oi" para a Dulce. Se eu tivesse simplesmente a deixado em paz, jamais estaria no meio desse labirinto sem saída.
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