CAIO SANTORO
Eu estava bebendo e conversando quando a Maresa chegou. Fazia tempo que eu não a via e fui pego de surpresa; o beijo que ela me deu foi uma emboscada, algo que eu jamais esperaria em um ambiente como aquele. Voltei à realidade quando a Beatrice entrou na sala como um furacão, me xingando de todos os nomes possíveis. Perguntei por Louise e, ao saber que ela tinha ido embora, corri até a entrada da boate. Cheguei a tempo de ver o táxi se afastar, levando-a embora. Mandei uma mensagem, mas minha mente já estava a mil, traçando o caminho de volta.
Ao chegar em casa, chamei por ela, mas não obtive resposta. Subi os degraus de dois em dois e, ao entrar no quarto, encontrei-a dormindo. Tomei um banho frio, troquei de roupa e me deitei ao seu lado. O desejo de dormir sentindo seu perfume era uma necessidade física, um vício que eu não queria admitir.
Acordei cedo e fui para a sede. Tínhamos certeza de quem estava nos traindo, mas eu precisava falar com a Louise antes de agir; infelizmente, a situação envolvia a família da melhor amiga dela, e eu sabia que ela já estava ciente do noivado da Helena.
ENZO: — Bom dia. Amanhã chegam as novas cargas, está tudo esquematizado. Vamos descobrir quem do Conselho está encobrindo a entrada da máfia alemã em nossos territórios, embora eu já tenha minhas suspeitas.
Passamos o dia resolvendo os últimos detalhes da missão. À noite, havia um baile beneficente na casa de um dos conselheiros. Eu não poderia buscá-la; ela iria com meu segurança. Preparei-me na própria sede e fui ao evento com o Enzo. Estávamos conversando com alguns membros do Conselho quando vi a Louise entrar, de braços dados com a Beatrice. E, nossa...
Quando penso que ela não pode ficar mais linda, ela vai lá e se supera. Ela estava deslumbrante em um vestido roxo sem alças, com uma f***a generosa na perna direita que revelava os saltos altíssimos. O cabelo preso em um coque perfeitamente elaborado destacava seu pescoço fino, adornado por um colar de pérolas que combinava com os brincos. Simplesmente perfeita. Ela me procurou no salão; quando nossos olhos se cruzaram, ela abriu um sorriso e caminhou em minha direção.
LOUISE: — Boa noite, senhores.
VARGAS: — Boa noite, senhora Santoro. É um ilustre prazer recebê-la em minha casa.
Vargas, o anfitrião, foi o primeiro a cumprimentá-la, todo cheio de galanteios. Louise manteve a elegância, tratando todos com educação e uma delicadeza que só ela tem.
— Quer dançar comigo?
LOUISE: — Por que não?
Ela se levantou e fomos para a pista. Decidi que era o momento de confrontar o que aconteceu na boate.
— Louise, sobre ontem... o que você viu, só posso te pedir desculpas. Fui pego desprevenido. Fazia tanto tempo que eu não via a Maresa que, na verdade, eu até tinha me esquecido da existência dela.
Ela me olhou com atenção, mas seus olhos não expressavam absolutamente nada. Era como se ela não se importasse minimamente com o que aconteceu.
LOUISE: — Você não me deve desculpas. Entrei nesse casamento sabendo que não éramos um casal de verdade. Essas coisas não me importam; ontem, achei melhor ir embora para evitar problemas, só isso.
Olhei no fundo dos seus olhos e encontrei um vazio absoluto. Ela falava de mim, seu marido, como se estivesse descrevendo um estranho qualquer. Aquela indiferença me atingiu como um soco e me deixou irritado — uma irritação que sei que transpareceu no meu olhar.
A indiferença dela com o nosso casamento é algo que me assusta. Quando a vi pela primeira vez, encantei-me; linda, inteligente, magnética. Mas eu não queria um relacionamento. Deixei isso bem claro para ela lá atrás, quando fui forçado a esse casamento por escolha do meu pai — uma decisão que me enfureceu, já que o título de Don já era meu, e eu não aceitava que tentassem controlar minha vida.
Naquela época, quando expliquei como seria nosso arranjo, vi a decepção nos seus olhos e previ que seria difícil fazê-la aceitar o acordo. Hoje, vejo o quanto fui e******o. Louise não liga para o que eu faço, para onde vou ou com quem estou. Essa distância dela me incomoda profundamente. Eu queria assim, era o que eu pregava, mas agora estou frustrado. Extremamente frustrado.
LOUISE: — Caio, está tudo bem?
Passei tanto tempo perdido em meus próprios pensamentos que nem notei que a música havia acabado.
— Sim. Vamos nos despedir para irmos para casa.
Saí da pista antes dela. Estou estressado, inquieto, e a pior parte é saber que, dentro dessa frieza que ela adotou, eu não tenho o menor controle sobre o que ela sente