LOUISE BIANCHI
Eu tenho uma vida que, à primeira vista, pode parecer perfeitamente comum para quem observa de fora. Faço faculdade de literatura — mergulhando em romances clássicos, tragédias gregas e poesias que falam sobre escolhas e destinos — e frequento a academia regularmente para manter a forma e a mente sã. Contudo, nos momentos de maior lucidez, há um lembrete c***l que ecoa no fundo da minha mente: eu nasci dentro da máfia. Nós, as mulheres que nascemos nesse meio sombrio e implacável, vivemos sob regras que parecem ter saído diretamente da Idade Média, cercadas por um patriarcado sufocante e supermachista. Algumas mulheres ao meu redor parecem indiferentes ou anestesiadas a essa realidade, aceitando o jugo sem pestanejar; outras, por outro lado, detestam profundamente ter que viver sob correntes invisíveis, o que é totalmente compreensível. Afinal, ninguém merece a tirania desse povo arcaico.
Eu procuro seguir mais ou menos o padrão estético das russas: sou loira, meço um metro e sessenta e sete de altura, tenho olhos verdes expressivos e, quanto ao meu corpo, graças aos céus e à genética, fui agraciada com curvas generosas que aprendi a disfarçar ou exibir conforme o ambiente exige. No entanto, beleza e instrução não passam de enfeites em uma vitrine quando o seu destino já foi assinado em um pedaço de papel antes mesmo do seu primeiro suspiro.
Sempre ouço meu pai repetir o mesmo refrão desgastado: não foi ele quem fez as regras, ele apenas as segue. Geralmente, esse discurso defensivo vem acompanhado de um sermão moralizador sobre honra, tradição e o peso do sobrenome Bianchi. Fui criada minuciosamente para cumprir um único propósito: ser a esposa perfeita, submissa e impecável do Don da máfia italiana. Estudei nas melhores escolas particulares, aprendi etiqueta avançada, falo italiano fluentemente com o sotaque impecável da região e sou ótima na cozinha. Este último ponto, contudo, foi por escolha própria; a mamãe sempre gostou de cozinhar como uma forma de arte e me ensinou todos os segredos culinários desde que eu era pequena.
De acordo com o contrato irrevogável assinado entre as famílias, fui prometida ao temido Don Caio Santoro no exato momento em que nasci. Eu não sei absolutamente nada sobre ele, exceto por boatos sombrios: ele é o chefe absoluto da máfia italiana, um homem frio, implacável, e todos — absolutamente todos — têm pavor dele.
O meu aniversário de vinte anos está se aproximando rapidamente no calendário, e a cerimônia do meu noivado acontecerá exatamente no mesmo dia. Como eu deixei claro que não queria comemorações grandiosas ou festas vazias de significado, minha mãe decidiu organizar um jantar íntimo, mas refinado; assim, matamos dois coelhos com uma cajadada só, selando o contrato perpétuo e comemorando meu aniversário sob o mesmo teto. Confesso que, depois que completei dezessete anos, a magia dos aniversários se evaporou, substituída por um frio na espinha. A cada ano que passava, eu estava inexoravelmente mais próxima dos vinte e, consequentemente, mais perto de perder a minha tão preciosa "liberdade", o que sempre me deixou profundamente aflita e sufocada.
Passei tanto tempo da noite anterior acordada, pensando no meu futuro incerto e analisando cada detalhe da minha prisão dourada, que acabei pegando no sono de madrugada. Acordo pela manhã sentindo o peso do dia sobre meus ombros. Faço minhas higienes matinais com calma, tentando desacelerar o ritmo dos meus pensamentos. Visto uma calça jeans confortável, um tênis prático e uma blusa de tecido leve. Pego minha bolsa de couro e desço as escadas da mansão em direção à cozinha para tomar café com meus pais, torcendo para que a atmosfera esteja suportável.
— Bom dia, tempestadezinha. Dormiu bem? — meu pai pergunta, erguendo os olhos de sua xícara de café fumegante, com um sorriso enigmático nos lábios.
— Sim, papai. E o senhor? Dormiu bem? — respondo com um suspiro discreto, puxando a cadeira para me sentar à mesa farta.
— Na medida do possível, minha filha. Os negócios exigem muito da nossa atenção ultimamente — responde ele, voltando a atenção para os jornais do dia.
Nesse instante, meu irmão mais velho adentra a cozinha, arrastando os sapatos e com o semblante ainda meio sonolento.
— Bom dia, família. Cadê a mamãe? Achei que a encontraria aqui preparando o café — diz Lucca, bocejando levemente e puxando uma cadeira ao meu lado.
— Ela saiu bem cedo para resolver alguns preparativos do jantar de sábado. Não sei exatamente para onde foi — explica meu pai, sem erguer os olhos das manchetes.
— Hum, que estranho... Ela costuma avisar quando sai tão cedo — comento, franzindo o cenho em sinal de dúvida.
— Lou, vai querer carona para a faculdade ou vai dirigindo o seu próprio carro hoje? — pergunta Lucca, piscando de leve para mim enquanto pega um pedaço de pão.
— Vou querer carona com você, Lucca. — Um pequeno sorriso astuto brota nos cantos dos meus lábios. — Agora é um ótimo momento para tentar tirar informações sobre meu futuro marido do meu querido irmãozinho. — Tchau, papai, tenha um dia produtivo!
Dou um beijo afetuoso na bochecha do meu pai e saio apressada com meu irmão, rumo à garagem onde o carro dele nos espera. Assim que entramos no veículo e Lucca engata a marcha, decido atacar com as perguntas que estão me sufocando.
— Lucca, preciso que você me diga a verdade... Como ele é de verdade? Quero detalhes, não resumos.
Lucca engole em seco, mantendo os olhos firmemente fixos no trânsito à nossa frente, fingindo uma concentração exagerada na pista.
— Ah, Lou... Ele é um homem bonito, sabe? Tem boa postura, presença forte.
— Eu não estou perguntando sobre a aparência física dele, Lucca! Se fosse só questão de beleza, eu não estaria preocupada. Estou perguntando sobre o temperamento dele, sobre o jeito implacável dele de lidar com as pessoas e com os negócios. Quero saber com quem vou passar o resto da minha vida.
Lucca solta um suspiro pesado, claramente desconfortável com o rumo que a conversa tomou.
— Ah, Lou... ele é legal... na medida do possível, é claro. Sabe como é o mundo em que vivemos.
Lucca está visivelmente evitando a resposta direta, gaguejando levemente nas palavras; e isso, para quem o conhece tão bem quanto eu, não é nada bom. Nada bom mesmo... Se até o meu próprio irmão tem receio de descrever o caráter do meu futuro noivo, o abismo que me aguarda no altar deve ser muito mais profundo e aterrorizante do que ouso imaginar.