LOUISE SANTORO
Chegamos à Rússia bem cedo e, só de pisar por aqui, sinto um misto de emoções; a saudade é a principal delas. Não quis ficar na casa do Caio; preferi ficar na casa dos meus pais, estou morrendo de saudade deles. Não demora muito e o Caio me deixa lá sem questionar. Acho que, no fundo, ele já está saturado de me ver chorar.
— Toc, toc, posso entrar? — Lucca pergunta.
— Claro que pode. E aí, está ansioso para a sua cerimônia de posse?
— Não, Lou. Eu já sou o Capo da Máfia Russa, agora só vamos oficializar isso diante desses velhos chatos e burocráticos.
— Sabe que agora eles vão pegar no seu pé com a questão do casamento, né?
— Sei. Estou tentando não pensar muito nisso para não me estressar; detesto me sentir pressionado. — Ele solta o ar, e nem percebi que estava segurando. Sei a pressão que o papai está fazendo nele desde o meu casamento; agora que se tornará o Capo oficial, não terá mais como adiar.
O dia parece que durou uma eternidade. Saí com a mamãe e a Beatrice para comprar um vestido para a cerimônia do meu irmão. Sei que elas estão tentando me animar a todo custo. Tento não lembrar da Helena a cada loja que entramos nesse shopping, mas é basicamente impossível, já que estive em todas elas com a Lena.
— Olha, Lou, o que você acha? — Beatrice se vira para mim com um vestido azul lindo. Ela é belíssima, e o vestido ressaltou seus olhos.
— Está lindo, Bea, mas acho que gostei mais do outro. Afinal de contas, a gente nunca erra com cetim. — Dou um meio sorriso para ela, que me abre outro de volta.
— Meu amor, tenta se animar um pouco — diz mamãe. — Você não pode ficar assim para sempre. Sei que a situação é delicada e está sendo difícil para todos nós, mas entenda, minha querida, não há nada que possamos fazer.
— Tudo bem, mamãe. Tentarei, pode deixar.
— Lou, não é para fazer por mim e pela Hel...
— Mamãe, eu já entendi! Não adianta, vocês ficam o tempo todo me mandando superar e entender. Mas não me entendam m*l, eu entendo, só que nunca, mamãe, nunca vou aceitar o que está acontecendo com a minha melhor amiga. Não adianta... Me desculpa, não quero parecer rude, sei que estão apenas tentando me ajudar, mas eu realmente só quero ficar sozinha. Terminem as compras, eu estou voltando para casa. E, Bea, o vestido de cetim vermelho te deixou deslumbrante...
Saio da loja e um dos seguranças me leva para casa. Durante o caminho, paramos no sinal; bem em frente há um pub que eu e Helena amávamos frequentar depois da faculdade.
LEMBRANÇA ON
— Eu estou passada que vou ficar de recuperação! Está bom que eu não estudei, mas eu sabia um pouco da matéria, poxa! — Entro em uma crise de risos por causa da cara que ela faz.
— Não ri, não, Lou! Você vai ter que me ajudar a recuperar essa nota. Já pensou se eu não passo? Que decepção!
— Ai, Lena, com você não dá para ter dias tristes. Eu te ajudo, mas se você passar a prestar atenção na aula e não no professor, já ajuda bastante.
— E você tem razão! Mas, poxa, ele é um absurdo de gostoso. Pena que tenho que casar virgem, se não, faria ele me dar um dez rapidinho, e nem estou falando das provas! — Caímos na gargalhada de novo.
LEMBRANÇA OFF
O sinal abre, me tirando do meu mar de lembranças. Limpo uma lágrima insistente que cai sobre a minha bochecha.
— Tempestadezinha, vem aqui. — Meu pai me abraça tão forte que sinto que aqui é o meu maior abrigo. Então desabo e choro como se não houvesse amanhã.
— Vamos dar um jeito, meu anjo. A Helena está bem, não se preocupe, ela está bem.
— Obrigado pelo abraço, nem sabia o quanto estava precisando dele. Te amo, papai. — Meu pai beija o topo da minha cabeça e eu subo para o meu quarto.
Acordo hoje com uma sensação de calmaria. O quarto está mergulhado na escuridão e não sei se ainda é noite ou se já é dia; depois de conversar com o Caio, tomei um remédio para dormir e nem sei quando apaguei. Me levanto e vou até a janela, abrindo a cortina. O sol invade meu quarto, fazendo minhas pálpebras se fecharem no automático com a invasão da luz.
Pego meu celular e já são mais de duas da tarde. Dormi demais. Saio da cama e faço minha rotina da manhã. Minha cara está inchada e estou com bastante olheiras; passo um pouco de corretivo nelas para esconder. Desço para comer alguma coisa, estou com bastante fome.
— Bom diaaaa! Achei que iria dormir até amanhã. Vamos almoçar e, depois, se você quiser, vamos a um spa fazer uma massagem. Acho que te faria bem, o que acha?
— Acho uma ideia excelente, mas por que não almoçou ainda?
— Estava esperando por você, assim almoçamos juntas e depois já partimos para o spa. — A energia da Bea é muito igual à da Helena; as duas são bastante alegres e, mesmo tristes e com problemas, não deixam essa alegria morrer. Admiro bastante isso nelas, porque eu estou bem longe de ser assim.
Passamos o dia no spa; meu corpo está tão leve, eu estava realmente precisando de uma massagem. Agora estamos no meu quarto, enquanto nos arrumamos.
— Nossa, Lou, você está linda! Por isso meu irmão fica te olhando como se fosse o doce mais gostoso do mundo. — Acabo rindo do que ela fala.
— Uau, você está gatíssima! Esse vestido vermelho foi a cereja do bolo; com certeza, se você já não fosse prometida, sairia daqui com várias propostas.
— Pena que o homem que eu quero que me veja assim só me vê como uma menina mimada e fútil. — Vejo uma tristeza nos olhos dela, mas logo some. — Mas deixa isso para lá, vamos beber bastante hoje, porque, nessas festas da máfia, a única coisa que presta é a bebida.
Descemos as escadas e Caio e Enzo já estavam esperando a gente. Não passa despercebido pelos meus olhos o olhar de satisfação do Enzo para a Bea.
— Está linda, Lou.
— Obrigada, você também não está nada m*l.
— Ah, para, Lou! Meu irmão está gatíssimo! Você tem muita sorte de ter se casado com um homem lindo desses, queria essa sorte para mim. — Ela me dá uma piscadela e sai na frente rebolando. Sei que ela disse isso só para alfinetar o Enzo.
Chegamos ao local onde vai ser a cerimônia; está bem cheio já, e meus pais e os pais do Caio já estão aqui. Cumprimentamos várias pessoas. Essa é uma das maravilhas de ser esposa do Don: temos que ficar sorrindo para esses bajuladores chatos que ficam puxando o saco do meu querido marido.
— Lou, vamos nos sentar, meus pés já não aguentam mais. — Fomos até a nossa mesa e ficamos conversando e bebendo. Minha cabeça já está girando.
— Lou, sua mãe está te chamando, ela foi por ali. — Ela aponta para um corredor que dá para os banheiros. Me levanto e caminho até lá. Estou perto de entrar no banheiro feminino quando ouço uma voz que faz o meu coração disparar.
— Oi, Lou. — Meus olhos de imediato se enchem de lágrimas e o meu coração parece que vai sair pela boca.
— Helena... — O nome da minha amiga sai como um sussurro dolorido dos meus lábios.
— Estava morrendo de saudade de você...