LOUISE BIANCHI
Acordo com alguém fazendo carinho na minha cabeça. Pelo perfume e pelo toque, sei que é o papai, e também sei o que ele veio fazer aqui.
FREDERICO: Bom dia, minha tempestadezinha. Como foi a exposição de ontem?
— Bom dia, papai. Foi maravilhosa. Acabei comprando um quadro; acho que ele ficaria incrível no seu escritório. Levaria-o com maior prazer para a Itália, mas acho que ele combinaria mais com a nossa casa.
Meu pai me olha com atenção.
— Bom, não foi para me dar "bom dia" que o senhor está aqui pela manhã tão cedo, né, papai?
FREDERICO: Também, Louise, mas você tem razão: temos que conversar.
— Tudo bem, vou só lavar o rosto e escovar os dentes e já volto.
Entro no banheiro e demoro o máximo que posso. Estou fugindo dessa conversa há tempos, mas não posso continuar evitando o assunto. Não mais.
— Pronto, papai.
Ele me olha e solta um suspiro cansado. Noto algumas olheiras, o que indica noites m*l dormidas.
FREDERICO: Nada do que eu te disser justificará o que você viu, mas quero que saiba que, como pai, eu nunca falhei. Estive aqui para tudo o que envolvesse você ou o seu irmão, e não por obrigação, mas porque eu fazia questão de estar presente em todos os momentos. Eu sei, minha tempestadezinha, que eu e sua mãe erramos ao te esconder tudo, mas tínhamos medo de que você não olhasse mais para nós como a sua "família perfeita". Agora sei que errei; sei que você sempre foi perfeitamente capaz de entender qualquer situação. Você é incrivelmente inteligente, e eu te peço perdão, minha filha, por ter escondido isso de você por tanto tempo. Eu amo você e o seu irmão mais do que tudo, e nada neste mundo vai mudar isso.
Fico sem pronunciar uma palavra. Eu já o perdoei há tempos. Talvez ainda esteja um pouco magoada, mas eu o amo e, se a minha mãe não se importa, quem sou eu para criticá-los?
— Eu também te amo, papai. E, é claro, eu te perdoo. Saiba que nada neste mundo vai mudar o amor que sinto pelo senhor e pela mamãe; vocês sempre serão, para mim, a melhor referência de pais do mundo.
Estamos abraçados, chorando juntos. Como eu vou sentir falta deles...
FREDERICO: Agora vamos descer para almoçar. Sua mãe faz questão que almoçemos todos juntos hoje. E, antes que pergunte, sim, você dormiu demais; já passa das onze.
— Vou trocar de roupa e já desço. Papai, obrigada por sempre ser esse pai incrível. Te amo.
Corro para o banheiro, tomo um banho rápido, visto um vestido soltinho e desço para almoçar.
— Bom dia, mamãe. Bom dia, Lucca.
LUCCA: Bom dia, maninha.
CECÍLIA: Bom dia, minha querida. Vamos começar a arrumar suas coisas hoje. Creio que não precise levar tanta coisa para a Itália; itens pessoais e algumas roupas, talvez, pois o clima lá é diferente e você precisará de um guarda-roupa novo. Infelizmente não serei eu a te ajudar nessa missão, mas acredito que sua sogra seja capaz de cuidar disso...
Passamos o almoço conversando. Como sentirei falta da minha família! Subo para o meu quarto e começo os trabalhos. Pego duas malas no closet e as coloco na cama. Fico horas olhando para as roupas sem saber o que levar, até que levo um susto com a mamãe parada na porta.
— Que susto, mamãe! Não vi a senhora aí.
CECÍLIA: Percebi. Hoje você está bem aérea, minha filha.
— É... eu sei, mamãe. Com tudo o que está acontecendo, digamos que eu esteja ansiosa demais, o que me deixa bem distraída. Só isso.
Forço um sorriso e ela retribui.
CECÍLIA: Tem certeza de que é só isso?
— Sim, mamãe. Agora me ajude aqui, não sei o que levar.
Não quero preocupá-la; sei que, assim como eu, ela está triste com a partida. Como nada podemos fazer, é melhor não viver nos martirizando. Mamãe me ajuda e, em pouco tempo, três malas grandes estão prontas. Tirei algumas coisas para doação e outras deixarei no closet; afinal, este nunca deixará de ser o meu quarto. Aproveito para ligar para a Helena; quero aproveitar minha amiga ao máximo.
LIGAÇÃO
HELENA: Oee, gata! E aí, já fez as malas?
— Sim, mamãe me ajudou hoje à tarde. Mas te liguei para saber a programação desses nossos últimos dias juntinhas.
HELENA: Uhull! Se anima, gata, você não vai se livrar de mim tão fácil. Eu vou te visitar na Itália, vez ou outra.
— Eu conto com isso, dona Helena.
HELENA: Ótimo! Hoje vamos sair para dançar.
— Combinado. Te vejo mais tarde em frente à Black Night. Hoje a noite é nossa!
Passo o restante do dia agilizando a mudança. À noite, escolho um vestido tubinho preto, botas de cano alto com salto quinze, bolsa a tiracolo e deixo os cabelos soltos. Desço e encontro papai lendo na sala. Passo por trás dele e tampo seus olhos.
— Está cheirosa, tempestadezinha. Se divirta bastante, meu amor, e cuidado com as bebidas.
Dou um beijo no rosto dele e vou para a boate.
HELENA: AAAAA, gata, você está lindíssima! Vamos, que hoje a gente vai pegar um camarote.
A boate está lotada. Como gostamos de dançar, ficamos pela pista mesmo. Já perdi as contas de quantos drinks tomei e minha visão começa a ficar turva.
— Helena, vamos, amiga? Já não aguento mais esse salto.
HELENA: Vamos, também estou morta.
Saímos, entramos no carro e os seguranças deixam Helena em casa antes de me levarem. Chego tão cansada que me jogo no chão do quarto e apago.
O despertador toca, minha cabeça explode e a claridade que entra pela cortina aberta é c***l. Levanto, tomo banho e me arrumo para meu último dia de faculdade. Chego lá e Helena está com a cara igual à minha.
HELENA: Nossa, amiga, você está destruída, hein! Hahaha.
— Olha quem fala! Sua cara parece que não dorme há meses, Helena.
HELENA: Nem me fale, nem muita maquiagem esconde essas olheiras.
Caímos na gargalhada. Assistimos às aulas e passo na secretaria para providenciar a transferência. Agora, falta apenas ver qual é a instituição mais próxima para mim na Itália. Faltam apenas dois dias para a mudança; a ansiedade está me matando, não durmo direito e os pesadelos só pioram.
Chego em casa, tomo um banho e desço para almoçar, mas não há ninguém na sala. Sigo para a cozinha e...
— SURPRESAAAAAA!!
— Não acredito! O que é isso tudo?
LUCCA: Sua festa de despedida, maninha! Aproveita bastante, a Maria caprichou na sua sobremesa favorita.
Tem balões, docinhos e um bolo escrito "Até logo". Estou tão emotiva que os olhos se enchem de lágrimas. Passamos a tarde na piscina e, no final do dia, recebo uma mensagem.
NOTIFICAÇÃO
BEATRICE: Olá, Louise! É a Beatrice. Estou na Itália, na verdade, acabei de chegar. Convenci o meu pai de que seria r**m você sair daí sozinha, então ele me deixou vir para voltar com você. Assim te faço companhia e fujo um pouquinho dos meus problemas, rs. Espero que não se importe! Tem alguma coisa para fazer hoje? Podíamos sair, o que acha?