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988 Palavras
Acordei com a luz da manhã atravessando as cortinas finas do quarto dele. Ainda era cedo — talvez umas sete. A cidade lá fora parecia suspensa em silêncio. E aqui dentro, o mundo estava calmo demais. Jace dormia ao meu lado, virado de lado, os cabelos bagunçados e o rosto sereno como poucas vezes eu tinha visto. Tinha algo de bonito em vê-lo assim: vulnerável. Sem a armadura, sem a tensão no maxilar, sem o peso constante nos ombros. Sorri sozinha. E por alguns segundos, só fiquei ali, observando o vai e vem da respiração dele, o calor do corpo perto do meu, a tranquilidade que eu vinha buscando há semanas e que, finalmente, parecia real. Até o celular dele vibrar. Uma vez. Duas. Estava em cima da cômoda, a tela virada pra cima. Eu não ia olhar. Não era esse tipo de pessoa. Mas quando o nome apareceu brilhando na tela por três segundos, meu corpo reagiu antes da minha cabeça. KAYLA. As letras me atingiram como gelo na garganta. E mesmo antes de tocar no aparelho, meu estômago já sabia que não era coisa boa. Me levantei devagar, tentando não acordá-lo. Caminhei até o celular e olhei de relance. Kayla: "A noite passada me fez lembrar por que éramos tão bons juntos. Não precisa dizer nada. Só queria que você soubesse." O chão pareceu tremer sob meus pés. Por um segundo, fiquei parada, celular ainda na mão, o coração descompassado, o peito queimando. Li de novo. Depois mais uma vez. Aquilo não podia ser verdade. Não podia. Me virei lentamente. Ele ainda dormia. Como se nada tivesse acontecido. Como se a mensagem que acabava de destruir meu equilíbrio não tivesse sido enviada por alguém que já tinha feito isso antes. Meu primeiro impulso foi jogar o celular contra a parede. O segundo foi acordá-lo aos gritos. Mas eu não fiz nenhuma das duas coisas. Fui pro banheiro. Tranquei a porta. E respirei. Longo, fundo, tentando impedir as lágrimas de caírem. Mas elas vieram mesmo assim. ⸻ Demorei alguns minutos pra sair. Quando voltei pro quarto, ele ainda estava sonolento, agora com o braço jogado por cima do travesseiro onde meu corpo tinha estado minutos antes. Abriu os olhos devagar e sorriu quando me viu. — Bom dia. — Recebeu mensagem da Kayla — eu disse, seca, direta. O sorriso dele sumiu. — O quê? — Tava na tela. Eu vi. "A noite passada me fez lembrar por que éramos tão bons juntos." Quer que eu repita? Ele se sentou de imediato, os olhos arregalados, a expressão carregada de pânico e confusão. — Ellie, eu juro por tudo que eu tenho: eu não vi ela ontem. Eu não falei com ela. Não toquei nela. — Então por que ela mandaria isso? — Porque é ela! Porque ela vive nessa ilusão de que ainda tem alguma coisa. Porque ela não sabe perder, e porque ela odeia o fato de que você me tirou do controle dela. — Isso não explica o tom da mensagem. — Eu não fiz nada! Você tava comigo ontem. Você dormiu aqui. Eu nem saí! — E antes disso? O dia inteiro em que você sumiu? — Eu tava com a minha irmã! Ela teve uma crise com o ex-namorado. Eu passei a tarde toda tentando impedir que ela fosse até a casa dele com uma garrafa de tequila e uma faca de cozinha! Ele passou as mãos no cabelo, andando pelo quarto como se tentasse conter a própria cabeça de explodir. — Você pode ligar pra ela. Falar com a Sofia. Ela vai confirmar tudo. — E por que não disse isso antes? — Porque você chegou falando da Kayla como se... como se eu tivesse traído você. Como se eu fosse tudo aquilo que tentei deixar pra trás. — E como eu deveria reagir, Jace? Você viu o tipo de mensagem que ela mandou. Você tem ideia de como é acordar e ver isso no celular do cara que você tá começando a confiar? Ele parou de andar. Veio até mim. E dessa vez, se ajoelhou na minha frente. Os olhos cheios de dor. — Eu entendo. Juro. Mas você tem que acreditar em mim. Eu não toquei nela. Eu não dei a******a. Eu não quero ela. Eu quero você. — Então me mostra. Resolve isso. De vez. — Eu vou. Ele pegou o celular, discou rápido, colocou no viva-voz. — Kayla. — Hm? — a voz dela, sonolenta, entrou na linha. — Por que você mandou aquela mensagem? Silêncio. Depois, uma risadinha baixa. — Sabia que ela ia ver. — Você fez de propósito? — Ela precisa entender que você não é do tipo que se mantém. Que você pode gostar por um tempo, mas no fim... volta pro que é confortável. — Eu nunca mais vou voltar pra você. — Veremos. Ele encerrou a chamada sem dizer mais nada. Os olhos dele estavam em mim. Arrependidos. Cansados. — Eu não posso controlar o que ela faz. Mas posso escolher o que eu faço com isso. E hoje, eu escolhi te mostrar. Sem esconder. Sem fugir. Eu respirei fundo. A dor ainda estava lá. Mas junto com ela, algo diferente: a sensação de que ele, pela primeira vez, tinha me deixado ver o caos — inteiro — sem tentar disfarçar. — Só tem uma coisa que me magoa mais do que o que ela fez — eu disse. — É o fato de que eu sabia, lá no fundo, que alguma hora o passado ia tentar me arrancar de você. — E eu vou te segurar — ele respondeu. — Mesmo que o mundo tente te puxar pra longe. Eu vou segurar. Ficamos em silêncio. E dessa vez, eu deixei ele me abraçar. Não porque o perdão era fácil. Mas porque, às vezes, amar alguém quebrado também significa ver de perto quem ainda tenta colar os pedaços com as próprias mãos.
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