Acordei com a luz da manhã atravessando as cortinas finas do quarto dele. Ainda era cedo — talvez umas sete. A cidade lá fora parecia suspensa em silêncio. E aqui dentro, o mundo estava calmo demais.
Jace dormia ao meu lado, virado de lado, os cabelos bagunçados e o rosto sereno como poucas vezes eu tinha visto. Tinha algo de bonito em vê-lo assim: vulnerável. Sem a armadura, sem a tensão no maxilar, sem o peso constante nos ombros.
Sorri sozinha. E por alguns segundos, só fiquei ali, observando o vai e vem da respiração dele, o calor do corpo perto do meu, a tranquilidade que eu vinha buscando há semanas e que, finalmente, parecia real.
Até o celular dele vibrar.
Uma vez.
Duas.
Estava em cima da cômoda, a tela virada pra cima. Eu não ia olhar. Não era esse tipo de pessoa. Mas quando o nome apareceu brilhando na tela por três segundos, meu corpo reagiu antes da minha cabeça.
KAYLA.
As letras me atingiram como gelo na garganta. E mesmo antes de tocar no aparelho, meu estômago já sabia que não era coisa boa.
Me levantei devagar, tentando não acordá-lo. Caminhei até o celular e olhei de relance.
Kayla: "A noite passada me fez lembrar por que éramos tão bons juntos. Não precisa dizer nada. Só queria que você soubesse."
O chão pareceu tremer sob meus pés.
Por um segundo, fiquei parada, celular ainda na mão, o coração descompassado, o peito queimando. Li de novo. Depois mais uma vez. Aquilo não podia ser verdade. Não podia.
Me virei lentamente. Ele ainda dormia. Como se nada tivesse acontecido. Como se a mensagem que acabava de destruir meu equilíbrio não tivesse sido enviada por alguém que já tinha feito isso antes.
Meu primeiro impulso foi jogar o celular contra a parede. O segundo foi acordá-lo aos gritos. Mas eu não fiz nenhuma das duas coisas.
Fui pro banheiro.
Tranquei a porta.
E respirei.
Longo, fundo, tentando impedir as lágrimas de caírem.
Mas elas vieram mesmo assim.
⸻
Demorei alguns minutos pra sair. Quando voltei pro quarto, ele ainda estava sonolento, agora com o braço jogado por cima do travesseiro onde meu corpo tinha estado minutos antes.
Abriu os olhos devagar e sorriu quando me viu.
— Bom dia.
— Recebeu mensagem da Kayla — eu disse, seca, direta.
O sorriso dele sumiu.
— O quê?
— Tava na tela. Eu vi. "A noite passada me fez lembrar por que éramos tão bons juntos." Quer que eu repita?
Ele se sentou de imediato, os olhos arregalados, a expressão carregada de pânico e confusão.
— Ellie, eu juro por tudo que eu tenho: eu não vi ela ontem. Eu não falei com ela. Não toquei nela.
— Então por que ela mandaria isso?
— Porque é ela! Porque ela vive nessa ilusão de que ainda tem alguma coisa. Porque ela não sabe perder, e porque ela odeia o fato de que você me tirou do controle dela.
— Isso não explica o tom da mensagem.
— Eu não fiz nada! Você tava comigo ontem. Você dormiu aqui. Eu nem saí!
— E antes disso? O dia inteiro em que você sumiu?
— Eu tava com a minha irmã! Ela teve uma crise com o ex-namorado. Eu passei a tarde toda tentando impedir que ela fosse até a casa dele com uma garrafa de tequila e uma faca de cozinha!
Ele passou as mãos no cabelo, andando pelo quarto como se tentasse conter a própria cabeça de explodir.
— Você pode ligar pra ela. Falar com a Sofia. Ela vai confirmar tudo.
— E por que não disse isso antes?
— Porque você chegou falando da Kayla como se... como se eu tivesse traído você. Como se eu fosse tudo aquilo que tentei deixar pra trás.
— E como eu deveria reagir, Jace? Você viu o tipo de mensagem que ela mandou. Você tem ideia de como é acordar e ver isso no celular do cara que você tá começando a confiar?
Ele parou de andar. Veio até mim. E dessa vez, se ajoelhou na minha frente. Os olhos cheios de dor.
— Eu entendo. Juro. Mas você tem que acreditar em mim. Eu não toquei nela. Eu não dei a******a. Eu não quero ela. Eu quero você.
— Então me mostra. Resolve isso. De vez.
— Eu vou.
Ele pegou o celular, discou rápido, colocou no viva-voz.
— Kayla.
— Hm? — a voz dela, sonolenta, entrou na linha.
— Por que você mandou aquela mensagem?
Silêncio. Depois, uma risadinha baixa.
— Sabia que ela ia ver.
— Você fez de propósito?
— Ela precisa entender que você não é do tipo que se mantém. Que você pode gostar por um tempo, mas no fim... volta pro que é confortável.
— Eu nunca mais vou voltar pra você.
— Veremos.
Ele encerrou a chamada sem dizer mais nada.
Os olhos dele estavam em mim. Arrependidos. Cansados.
— Eu não posso controlar o que ela faz. Mas posso escolher o que eu faço com isso. E hoje, eu escolhi te mostrar. Sem esconder. Sem fugir.
Eu respirei fundo. A dor ainda estava lá. Mas junto com ela, algo diferente: a sensação de que ele, pela primeira vez, tinha me deixado ver o caos — inteiro — sem tentar disfarçar.
— Só tem uma coisa que me magoa mais do que o que ela fez — eu disse. — É o fato de que eu sabia, lá no fundo, que alguma hora o passado ia tentar me arrancar de você.
— E eu vou te segurar — ele respondeu. — Mesmo que o mundo tente te puxar pra longe. Eu vou segurar.
Ficamos em silêncio. E dessa vez, eu deixei ele me abraçar.
Não porque o perdão era fácil.
Mas porque, às vezes, amar alguém quebrado também significa ver de perto quem ainda tenta colar os pedaços com as próprias mãos.