— Queime, então — sussurrei, enquanto guardava o celular dentro da bolsa com os dedos trêmulos.
Cassie me olhou de lado, erguendo uma sobrancelha.
— Você acabou de fazer o quê?
— Liguei pro Theo. Pedi pra ele me buscar.
— O Theo do laboratório de redes? — ela arregalou os olhos e depois soltou um sorriso malicioso. — Você é mais má do que parece, garota.
— Eu só... cansei. — Dei de ombros, tentando parecer firme, mas meu coração ainda batia rápido, ainda doía. — Ele é gentil. Gosta de mim. Vai me tratar como se eu importasse.
Cassie não respondeu, apenas segurou minha mão por um instante. Nós duas sabíamos que aquilo não era exatamente justo — nem com ele, nem comigo. Mas hoje não era noite de ser justa. Era noite de sobreviver ao que Jace tinha feito.
— Falando nele... — Cassie inclinou a cabeça discretamente.
Segui o olhar dela e lá estava ele.
Jace.
No canto oposto do pub, encostado na parede, com os braços cruzados e uma expressão ilegível. A loira de antes ainda falava alguma coisa no ouvido dele, rindo alto, jogando o cabelo pra trás como se estivesse em um comercial de shampoo. Mas ele... ele não estava ouvindo.
Ele estava olhando.
Para mim.
Nossos olhos se encontraram por um segundo. Um segundo que queimou. Um segundo onde tudo o que ele não disse estava ali, estampado na raiva contida dos seus olhos âmbar.
Mas ele não se moveu. Nem um passo.
— Covarde — murmurei para mim mesma.
Cassie não disse nada, mas ficou ao meu lado, como uma muralha.
O tempo passou devagar. As músicas mudavam, as pessoas riam, e eu só contava os minutos até Theo chegar. Eu estava inquieta, e por dentro, ainda mais confusa. Parte de mim queria que Jace viesse. Que gritasse. Que explodisse. Qualquer coisa menos essa indiferença.
— Lá está ele — avisou Cassie de repente, tocando meu braço.
Olhei para a entrada.
Theo.
Ele estava parado logo após passar pelos seguranças, com aquele jeito deslocado, quase perdido. Cabelos castanhos um pouco bagunçados, uma blusa simples de moletom escuro, calça jeans e tênis limpo demais para aquele pub. Segurava o celular na mão e olhava ao redor, tentando me encontrar.
Era completamente fora do ambiente. E ainda assim, me fez sorrir.
Levantei a mão e acenei. Ele me viu. Sorriu — tímido, doce — e veio até mim, desviando das pessoas com cuidado, pedindo licença.
— Oi — disse ele, assim que chegou.
— Você veio — falei, como se fosse surpresa. Mas eu sabia que ele viria. Sempre vinha.
— Claro. Você... tá bem?
Cassie respondeu antes de mim:
— Ela vai ficar ótima. Agora que você chegou.
Theo corou levemente.
— Eu só vim pra te levar pra casa.
— Mas já que está aqui... — Cassie lançou aquele olhar que só ela sabia fazer. — Fica um pouco. Senta com a gente. Pelo menos um copo d'água antes de ir embora, vai.
Ele olhou pra mim, meio indeciso.
— Só um pouco — falei, tocando o braço dele. — Fica.
Ele assentiu.
Cassie fez sinal para o barman.
— Uma água com gás pro cavaleiro tímido e mais um shot pra mim.
Theo riu, nervoso, enquanto se sentava. E eu, com o canto do olho, vi.
Jace ainda estava lá.
E agora ele observava descaradamente.
Vi quando ele mudou de posição, descruzando os braços. Vi quando seus dedos se apertaram contra o copo. Vi quando ele olhou para Theo como se pudesse esmagá-lo com os olhos.
Mas não fez nada.
Nem um passo.
Cassie aproveitou a deixa e se inclinou para o Theo.
— Você sabia que tem um b****a lá no fundo do pub surtando agora mesmo porque perdeu a chance com ela?
Theo olhou brevemente e depois voltou o olhar pra mim.
— Ele teve a chance?
Cassie arqueou uma sobrancelha.
— Teve. Jogou fora. E agora tá vendo o prejuízo.
Senti o olhar de Jace arder em minha pele, mas me recusei a virar. Me recusei a entregar o que ele queria: a certeza de que ainda me afetava.
— Eu gosto do jeito como você me olha — falei, encarando Theo.
— Como eu te olho?
— Como se eu não fosse um fardo.
Theo sorriu, pequeno, sincero.
— Você não é. Nunca seria.
Meu peito doeu. Porque parte de mim queria acreditar nisso. Parte de mim queria que ele fosse o certo. Mas o problema era... que o errado ainda me fazia tremer por dentro.
Cassie se afastou, indo ao banheiro, deixando-nos a sós por alguns minutos. Theo ficou em silêncio, respeitando o meu, e eu... me perdi nos pensamentos.
No fundo do pub, Jace virou de costas.
E foi embora.
E mesmo com Theo ao meu lado, mesmo com toda a provocação que eu tinha armado...
...doeu.
Doeu ver ele indo embora sem dizer nada.
Sem lutar.
Sem mim.