Sir Eduard Devron...
Sir Devron conteve um bocejo. Fora uma noite entediante, como sempre acontecia no Palácio de Buckingham, que é a residência oficial da família real britânica desde 1837.
Ele surpreendia-se por certas pessoas conseguirem apreciar aqueles longos e cansativos cerimoniais. Achava que a sua Majestade poderia considerá-los interessantes. Eram raros os momentos em que a sua atenção era dada a alguém.
A rainha Cristina ergueu-se e ofereceu a mão ao Príncipe Consorte Henry. Apesar de ser o seu marido, ele não possui direito automático ao trono, porque a sucessão veio pelo lado feminino.
A rainha sorria ao iniciar a sua vagarosa e digna caminhada pela sala do trono. Ouvia-se o farfalhar das sedas, dos cetins e tules, quando as senhoras presentes curvaram-se até o chão, em respeitosa reverência a sua Majestade. Os homens inclinavam-se com grandes expectativas durante a passagem da soberana, devido às condecorações que ostentavam, havia uma certa provocação entre eles.
Sir Eduard Devron ansiava por ar fresco. Não via a hora da cerimonia acabar. Pensava que em poucos minutos tudo estaria acabado e ele poderia sair do ambiente sufocante de ostentação e respirar o ar fresco da noite em Londres.
Para seu desespero a rainha não estava com pressa. Ela parou para falar com alguns cavalheiros. Entre eles estavam o Primeiro Ministro, O Secretário de Estado em assuntos de Guerra e outros que compareceram devido ao seu status familiar.
O cortejo pôs-se a caminho outra vez, Sir Devron preparava-se para reverenciar e saudar a rainha, inesperadamente ela dirigiu-lhe a palavra.
Sir Eduard teve que baixar a cabeça para olhá-la nos olhos. Era extraordinário constatar que, mesmo de pequena estatura, a soberana podia transpirar uma aura de tanta dignidade. Não havia como não admirá-la. Em especial nesta noite ela estava com os olhos brilhantes e transmitia felicidade. Contudo, em outras ocasiões nos mesmos lábios que hoje sorriam, haviam rugas de obstinação e teimosia e nos olhos uma expressão de ira.
_ É bom ver o senhor, Sir Eduard! ... Disse a rainha Cristina com a sua voz clara e bem pausada, num tom firme, não era o esperado de uma pessoa miúda.
_ Obrigado Majestade!... Murmurou Sir Eduard. Sentindo um pouco de apreensão pelo que poderia vir, após o cumprimento. Não deixou transparecer, manteve a sua postura fria, arrogante e indiferente.
_ Quando vier aqui novamente, espero ter a honra de cumprimentar a sua acompanhante, uma mulher ao seu lado, uma esposa, é claro! ... Pronunciou a rainha dando continuidade as suas falas.
Sir Eduard não soube o que falar. Ficou estático e perplexo, acreditando que não havia escutado direito. Antes mesmo da sua resposta pela honra que lhe foi concedida, Sua Majestade saiu, continuou os cumprimentos das senhoras e dos homens que estavam no salão.
Sir Eduard não se mexeu. Sentia-se entorpecido, como se o seu cérebro houvesse paralisado, não conseguia assimilar o que havia escutado da rainha. Achou que os seus ouvidos haviam-lhe pregado uma peça. Ele não conseguia analisar direito o que lhe fora dito.
Ele só voltou a realidade quando um murmúrio de vozes ao seu redor começou após as portas do salão serem abertas de par em par pelos lacaios de libré vermelha com os seus desenhos dourados, e a rainha com o seu cortejo sair e sumir virando à esquerda do corredor do palácio.
O silêncio que reinava no salão por quase três horas, agora era um vozerio que ensurdecia qualquer um. O que segurava o silêncio da multidão, desapareceu automaticamente após a saída do cortejo real.
Sir Eduard se recuperou do choque inicial e resolveu sair, escapar antes que pessoas começassem a interrogá-lo acerca do que lhe dissera a soberana. Teria a rainha o prometido a alguma mulher? Quem seria esta mulher? Não seria necessário esperar muito até o primeiro curioso lhe dirigir a palavra. Ele não conseguia pensar qual o propósito das falas da rainha. Quais seriam os seus planos a seu respeito?
Essas eram algumas perguntas que Sir Eduard não tinha a intenção de ouvir de ninguém. A expressão facial afastava dele os que se aproximavam, com certeza para questioná-lo sobre as palavras da rainha.
Sir Eduard atravessou a sala do trono, evitou passar pelo salão onde estavam servindo os refrescos e os bolos. Enquanto descia as escadarias acarpetadas de vermelho, ouviu o seu nome ser chamado algumas vezes, mas, em momento algum olhou para trás. Sentiu o seu ombro ser tocado, alguns amigos tentaram interceptar o seu caminho, mas ele estava tão cego e indiferente a tudo, sem contar o desejo urgente de fugir daquele ambiente sufocante, estava se sentindo asfixiado, precisava respirar urgentemente o ar da noite. Isto tornara-se de repente numa necessidade primordial.
No salão da realeza despertara o interesse nos homens e nas mulheres que aguardavam, grandes filas, por um olhar que fosse da rainha.
Resolveu caminhar e dispensou a sua carruagem que o aguardava. Saiu a pé rapidamente, passando pela guarda do pátio do Palácio. Estava ansioso para escapar da multidão, por isso, caminhava a passos largos pela rua, onde se erguiam muitas árvores majestosas.
Com as suas roupas de gala, calções justos até os joelhos, meias de seda, capa forrada de roxo esvoaçando e deixando à vista as suas condecorações, ele era sem sombras de dúvidas uma pessoa de destaque. Sendo assim, chamava a atenção daqueles que cruzavam o seu caminho. Mas, não só as roupas de Sir Eduard chamavam a atenção; muitas outras qualidades dele eram apreciadas, principalmente pelas mulheres. Por onde quer que passasse ouviam-se observações sobre os seus preciosos atributos.
Ele com os seus 1,90 m de altura, ombros largos, cintura fina, pernas longas, com músculos bem definidos, feições perfeitas, cabelos negros e olhos de um azul profundo, iguais ao mar revolto em dias de tempestades. Porém, o seu olhar era o que mais se destacava, por isso, atraía os olhares de todos. Eram poucas as pessoas que deixavam de apreciar Sir Eduard após conhecê-lo. Não obstante, a frieza da sua expressão, seu orgulhoso desdém, afastava o mais cordial gesto de aproximação daqueles que sempre tinham no seu ser uma expectativa de conseguir quebrar o gelo e transpor a barreira invisível que ele mantinha.
Sir Eduard era respeitado no mundo dos negócios. Havia nele uma arrogância agressiva no modo como se portava, no jeito como emitia as suas opiniões ou quando era contra os seus opositores. Mantinha sempre um sorriso irônico. Este sorriso irônico ficaria melhor em homens de meia-idade, do que nele, ainda no auge da sua juventude.
Nunca ninguém viu um sorriso afetuoso vindo dele, nem mesmo as mulheres que tiveram o privilégio de dividir a cama com ele. Dizem também, que, nenhuma mulher foi levada para a sua casa, as que ele teve ou tem são apenas amantes. A sua atração é inegável.
Duas mulheres que passavam por ele na rua naquele instante, ficaram admiradas com tamanha presença e aura magnífica que exalava daquele homem. Uma cutucou a outra e disse de maneira coquete: - "Esse é o tipo de homem com quem eu gostaria de ir para a cama, minha amiga. Um homem cem por cento!!!" Mas, pelas suas feições, algo o aborrece. Sinto um toque de d***o no rosto dele!
Ela não estava longe da verdade, pois Sir Eduard, andando pelas sombras da noite, mostrava-se profundamente contrariado. As palavras da Rainha voltavam para a sua mente, fazendo com que a sua garganta se fechasse e o ar custasse a passar. Tinha a sensação que desmaiaria na rua caso não chegasse logo em casa.
Os que haviam estado ao seu lado na sala do trono no Palácio, com certeza, estavam em cólicas de tamanha curiosidade para saber o sentido do que a rainha lhe dissera. Foi uma ordem ou uma advertência?
Foi totalmente inesperado, não havia como cogitar que algo assim acontecesse. Este incidente serviria para alertá-lo de como havia sido imprudente e ingênuo, por não desconfiar que era vigiado na sua vida privada. Nada fugia aos ouvidos da Sua Majestade. Ela possuía os seus meios de descobrir os segredos mais ocultos da vida de um cidadão que era do seu interesse.
Ele achou-se muito esperto. Isso prova que quando se trata da rainha, não adianta limpar os rastros, ela descobre da mesma forma.
A sensação que ele tinha, era que havia sido desmascarado publicamente. Melhor dizendo, ele não ignorava ter recebido uma ordem direta da rainha e que não poderia ser desobedecida.
Ele se repreendia em pensamentos, de como havia sido t**o em pensar que o seu romance com Genevive passaria despercebido pela rainha, que não chegaria ao conhecimento da Corte!
Um mês, dois, três, talvez desde o começo, há exatos sete meses. Há quanto tempo a soberana saberia de tudo? Não... não... não podia ser isso! Quanto mais pensava, mais sombria suas feições ficavam. Quem passava por ele, sentia uma energia maléfica vindo deste homem tão bonito, mas que era sombrio, fazendo uma corrente elétrica passar pelo corpo de quem o olhava.
Sir Evans que é o Primeiro Ministro, lhe dissera que assim que o Lorde Russel deixasse o cargo de Ministro do Exterior, ele seria designado para o cargo.
CONTINUA!...