đŸŸ„ CapĂ­tulo 18 – Depois do Grito

717 Palavras
A imagem de Leonardo algemado dominava as telas. Jornais. Portais. Telejornais. Redes sociais. đŸ—žïž “Cai o Ășltimo impĂ©rio da corrupção invisĂ­vel.” đŸ—žïž “A mulher de vermelho que derrubou os intocĂĄveis.” đŸ—žïž “Vozes que nĂŁo se calaram: a justiça de Atena Montez.” --- No apartamento de LetĂ­cia, ninguĂ©m falava. A TV estava ligada, mas o som era secundĂĄrio. O grupo inteiro assistia com a mesma expressĂŁo de quem nĂŁo sabe se chora
 ou respira aliviado. Matheus foi o primeiro a quebrar o silĂȘncio: — EntĂŁo... Ă© isso? LetĂ­cia se recostou no sofĂĄ. — NĂŁo. É o fim da guerra, mas o inĂ­cio do que vem depois dela. --- O celular de Atena vibrava sem parar. Convites. Entrevistas. Artigos. ConvocaçÔes. Mas uma mensagem se destacou. đŸ“© "Senhora Montez, gostarĂ­amos de convidĂĄ-la para ser a principal palestrante da ConferĂȘncia Internacional de Justiça Social e p******o Ă  Verdade, sediada este ano em Genebra. Sua histĂłria precisa ser ouvida pelo mundo." Atena leu. Fechou os olhos. Sorriu — um sorriso discreto, quase triste. — Eu nunca quis ser sĂ­mbolo. — Mas agora... talvez eu precise ser. --- Camila observava pela janela. — VocĂȘ vai aceitar? — Sim. Mas nĂŁo para falar de mim. Pra falar do que nunca deveria ter sido silenciado. --- Noah caminhou atĂ© ela. — E vocĂȘ? Vai ficar lĂĄ fora agora? Virar representante global? — Eu vou... atĂ© onde for necessĂĄrio. Mas meu lugar ainda Ă© aqui. Com vocĂȘs. Ele assentiu. — Com a gente. --- Na mesma noite, LetĂ­cia convocou uma Ășltima reuniĂŁo no apartamento. — Precisamos decidir o que fazer com os materiais que ainda nĂŁo usamos. Tem nomes que nĂŁo chegaram a ser julgados, mas que estavam nas camadas mais baixas da rede. — E se a gente usar esses documentos pra criar um observatĂłrio permanente de justiça? — sugeriu Matheus. — Algo que impeça o sistema de fechar os olhos de novo. — Uma rede civil de fiscalização — completou Hex. — Podemos construir algo duradouro. Um braço vigilante da verdade. Atena olhou para cada um. — EntĂŁo Ă© isso. A revolução nĂŁo vai acabar com um grito. Ela vai continuar... com vigilĂąncia. Com presença. Com memĂłria. --- E pela primeira vez, depois de muito tempo
 Eles respiraram. Juntos. Mas sabiam: > Mesmo livres
 Ainda carregariam o eco da dor por algum tempo. --- Os dias que se seguiram Ă  prisĂŁo de Leonardo foram como um turbilhĂŁo calmo. Convites internacionais. Notas diplomĂĄticas. Reportagens especiais em inglĂȘs, francĂȘs, alemĂŁo. đŸ“ș “A voz que atravessou sistemas.” đŸ“ș “Atena Montez: justice from the shadows.” A organização da conferĂȘncia em Genebra disponibilizou assessoria, tradutores, hospedagem. LetĂ­cia cuidava da logĂ­stica. Hex criava uma linha do tempo visual para ilustrar a fala. Matheus preparava uma rede de apoio para denĂșncias paralelas que jĂĄ chegavam de outras cidades. Atena, no entanto, demorava a se acostumar com o novo lugar que ocupava. — Eu nunca quis um pĂłdio. — VocĂȘ construiu ele porque ninguĂ©m mais teve coragem — disse Camila. — E agora, vocĂȘ pode usĂĄ-lo para que ninguĂ©m mais precise sangrar sozinha. --- Numa noite em que todos jĂĄ tinham ido dormir, Atena ficou sentada sozinha na sala, o notebook sobre o colo, a apresentação aberta, mas vazia. Noah apareceu na porta, discreto. — Posso? Ela fez que sim. Ele se sentou ao lado, sem dizer nada por alguns minutos. O silĂȘncio era confortĂĄvel. Denso. Cheio do que ainda nĂŁo havia sido dito. — EstĂĄ com medo? — ele perguntou. Ela respirou fundo. — NĂŁo do palco. Do depois. — Depois da fala? — Depois do sĂ­mbolo. Ela olhou para ele. — E se as pessoas esperarem mais de mim do que eu sou? Noah respondeu com a calma de quem nunca precisou gritar para ser ouvido: — VocĂȘ nĂŁo Ă© sĂ­mbolo. VocĂȘ Ă© consequĂȘncia. VocĂȘ sĂł mostrou a dor que jĂĄ existia. Ela desviou o olhar, os olhos marejando. — E vocĂȘ? Ainda vai estar aqui quando tudo isso acabar? Ele sorriu, leve. Sem promessas vazias. — Eu nunca estive por causa disso tudo. Eu estou por sua causa. SilĂȘncio. Ela encostou a cabeça em seu ombro. E ali ficou. Sem armaduras. Sem slogans. Sem defesa. Apenas Atena. E o primeiro momento de paz que ela havia sentido em anos.
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