CINCO

1873 Palavras
SILVIE Não consigo parar de pensar no encontro com aquele estranho e principalmente o que sua proximidade causou em mim. Ele é tão bonito, intenso e seguro de si. Exala poder e arrogância, não pude deixar de perceber. Confesso que fiquei curiosa com sua abordagem um tanto direta, mas não poderia deixar minha curiosidade falar mais alto. Sinais de alertas piscaram em minha mente, e agindo por instinto simplesmente fugi sem olhar para trás. Sei que nossos caminhos não se cruzaram, Tyler e eu somos de mundos diferentes. Voltando para a minha realidade e feliz por ter um dia raro de folga, planejo levar Olivia para um passeio no parque. Ando até a cozinha para preparar uma pequena cesta de piquenique quando percebo que as contas do mês estão ainda empilhadas em cima da ilha da cozinha, intactas, recolho todas e as guardo disposta a ignorá-las pelo menos por hoje. Olívia merece um dia feliz, e eu darei isso a ela. Após terminar de preparar tudo, subo para o quarto encontrando minha pequena já acordada. Ela esboça um pequeno sorrisinho, aquecendo o meu coração. A pego nos braços espalhando beijos estalados em suas bochechas rosadas. — Vamos fazer um piquenique, meu amor. — Cantarolo, trocando sua fralda e em seguida colocando um vestido vermelho com bolinhas brancas. Lembro que Hanna adorava ele. Solto um suspiro nostálgico, acariciando seus fios castanhos. Olivia totalmente alheia, brinca com sua pequena escova de cabelos. Dou graças a Deus que seja ainda tão pequena e não consiga entender e nem assimilar a perda que tivemos. Coloco Olívia no carrinho e sigo para o parque a dois quarteirões de casa. Caminhar vai me fazer bem. Sentir a brisa pura soprar em meu rosto, os raios de sol brilhando sobre a pele alva da minha menina. Quando estamos nos aproximando sinto que estou sendo observada, olho de um lado para o outro e respiro fundo balançando a cabeça. — Eu só posso estar enlouquecendo… — Resmungo baixinho, pegando Olivia nos braços e retirando-a do carrinho. Ela solta gritinhos agudos olhando fixamente a movimentação do parque. Crianças correndo, gritando, se divertindo com uma enorme bola vermelha. Estavam em pequenos grupos e os sorrisos estampados nas suas faces travessas foram o suficiente para me fazer sorrir espontaneamente. — Logo será você, meu amor. Correndo por todos os lados — Sussurro beijando o topo da sua cabeça. Alcanço a cesta de piquenique e procuro por um lugar tranquilo onde possa forrar uma toalha e me sentar com minha pequena. Após encontrar e arrumar tudo, deixo Olívia à vontade. Ela rola, engatinha e fica de barriga para baixo, observando, sorrindo para tudo ao nosso redor agitando suas perninhas roliças. Pego algumas frutas que amassei em casa e começo a dar para ela. Olívia sorri entre uma colherada e outra e faz uma verdadeira bagunça quando alcança o pote em minhas mãos. Seus olhinhos meigos brilham, o que faz meu coração transbordar. Após a perda de Hanna, é um verdadeiro presente ver nossa pequena tão feliz. As horas passam como um borrão enquanto estamos deitadas sobre a grama fresca do parque e tenho uma pequena rechonchuda deitada sobre o meu peito. Nós duas fitando o céu ensolarado. Aponto para algumas nuvens com formatos incríveis, sussurrando palavras doces no topo da sua cabecinha perfumada. Oli finalmente dorme e aproveito para colocá-la no carrinho e arrumar novamente as coisas para voltarmos para casa. Exausta, só de pensar que amanhã o trabalho espera por mim e voltaremos a nossa rotina normal. Na manhã seguinte deixo Olívia na casa de Joana e sigo para o trabalho. No café o movimento era intenso e com quase duas horas de trabalho meus pés já clamavam por descanso. Meio-dia tive a minha pequena pausa para o almoço, às cinco da tarde meu celular vibrava intensamente no bolso frontal do meu uniforme. Alcanço ele visualizando o número de Joana e um tremor percorre todo o meu corpo. Quando atendi sua ligação a notícia não poderia ser a pior possível. Ela tinha acabado de levar Olívia para o hospital que estava com febre alta e chorava muito. Em pânico vou até o senhor Careless e explico o que aconteceu e no mesmo instante ele me libera. Saio apressadamente para fora do café avistando um táxi se aproximando, faço sinal para ele que para e dou o endereço do hospital. Tento segurar as minhas lágrimas de descerem copiosamente, e respiro fundo. Olívia precisa de mim, não posso quebrar agora. Meu pequeno anjinho já perdeu muito, e não posso simplesmente sentar e chorar enquanto aquele ser frágil precisa de mim ao seu lado. Quando o taxista anuncia que chegamos ao hospital, pago a corrida e corro para dentro. Vou até a recepção para pedir informações quando ouço alguém chamar por mim. Joana corre em minha direção e me abraça, seus olhos castanhos vermelhos de chorar. — O- que aconteceu, Joana? Olívia estava bem quando a deixei essa manhã. — Indago com a voz embargada. Ela balança a cabeça negando. — Eu não sei, senhora. A menina Olívia começou a chorar de repente, se contorcia e quando fui medir sua temperatura, ela estava com trinta e nove de febre e seus lábios estavam ficando roxos. E-u… fiquei apavorada. Achei melhor trazê-la para cá. Concordo passando as mãos em minha face, cansada demais para pensar. — Qual quarto ela está, Joana? — Pergunto seguindo o corredor, olhando para todas as portas no meu campo de visão. — Ela está no quatorze, mas o médico pediu para esperar aqui na sala de espera até examiná-la. Puxo uma longa respiração e pego o meu celular dentro da minha bolsa e tento ligar para Apolo, mas como sempre minha ligação vai direto para a caixa postal. Merda! Ele escolheu a pior hora para desaparecer. Tento mais três vezes e desisto, jogando-me contra uma dura cadeira, esperando ansiosamente o médico nos dar notícias. — Senhorita Blossom? — Ergo minha cabeça visualizando o mesmo médico que atendeu Olívia quando ela estava com febre. Levanto-me em um pulo e ando até ele. — Sim, doutor. Por favor, o que houve com minha sobrinha? Ele coça o queixo e olha atentamente para sua prancheta. Sua expressão é cansada tanto quanto a minha. — De acordo com exames feitos na pequena Olívia e por último uma radiografia, o diagnóstico é pneumonia. Precisamos agir o quanto antes. Por se tratar de um bebê, o tratamento precisa ser iniciado agora mesmo. Balanço a cabeça piscando lentamente. Pneumonia? Não, não pode ser. Olho para o médico enxugando uma lágrima solitária do rosto. — Mas ela estava tão bem… Doutor… C-como isso é possível? — Minha voz é um mero sussurro. — Nem sempre os sintomas são notados, senhorita Blossom. No caso de Olívia é uma pneumonia bacteriana atípica. Os sintomas apareceram de repente. Esfrego as palmas das minhas mãos suadas contra o meu uniforme sentindo meu coração acelerar rapidamente. — Ela… ficará bem? — Ouso a perguntar, sentindo um nó na garganta. Olívia era a coisa mais preciosa para Hanna e eu não fui capaz de protegê-la. O médico solta um meio sorriso e pousa uma mão em meus ombros. — Sim. Por sorte, Olívia foi diagnosticada ainda no início, e isso será de grande ajuda para a sua recuperação. Ela ficará internada e assim que apresentar melhoras no seu quadro receberá alta. Aquiesço exalando uma forte respiração. — Obrigada, doutor. Por tudo. Ele sorri e acena gentilmente. — Vá à recepção e preencha os papéis para a internação. Em seguida pode ir vê-la. Agradeço-o mais uma vez e ando para a recepção, chegando lá recebi a pior notícia que poderia receber nesse momento. O plano que Hanna havia feito para Olívia tinha sido cancelado antes mesmo do seu falecimento. Jesus! Da última vez não precisei usá-lo, então não percebi. O que vou fazer agora? Olívia precisa ficar internada, não posso levá-la para casa nesse estado. Mordo o lábio inferior quando uma onda de lágrimas invadem o meu rosto e deslizam intensamente. Sinto uma mão quente acariciar minhas costas e a voz de Joana sussurrando palavras de fé. — Eu estou perdida, Joana. Meu salário m*l dá para pagar as contas, e agora isso? O plano de saúde de Olívia… Eu sou um desastre. Ofego reprimindo um soluço. A recepcionista do hospital me olha com pesar, o que me deixa ainda pior. — Eu tenho algumas economias, menina. Posso ajudá-la — Murmura ternamente — Tem o pessoal da igreja da minha rua, eles também podem ajudar. Nego, com um suspiro. Me afasto para longe, precisando de ar para respirar. Se ao menos aquele doador de esperma se importasse com a filha. Que droga de pai Olívia foi arranjar. Murmuro mentalmente. Enfio a mão no bolso para alcançar o meu celular. Não tenho ninguém para pedir ajuda além do senhor Careless. Quando alcanço o aparelho sinto meus dedos esbarrarem em algo. Um cartão cinza… Abro e fecho a boca visualizando o que tem escrito em alto relevo. Tyler Rigoni. E um número de celular. De repente ouço sua voz grave ecoar na minha mente. — Ficaremos casados por um ano. Você ficará muito bem resguardada e me encarregarei de assumir todas as suas dívidas. Também terá direito a uma soma mensal para gastar como quiser e o mais importante, sairá no final do casamento com uma quantia razoável, não precisará trabalhar por um bom tempo. Seco minhas lágrimas balançando o cartão entre os meus dedos. — Se eu aceitar sua proposta, Olívia teria um plano de saúde decente. Eu não precisaria me preocupar sobre ela adoecer e eu não ter condições de pagar. Além disso, poderia trabalhar e juntar mais grana para não ser pega desprevenida. — Fecho os olhos com força. — Um ano… Deve passar rápido, não é? — Divago sozinha. Sem pensar nas consequências disco o seu número e no segundo toque sua voz preencher o viva-voz do meu celular. Ligação on: — Tyler falando. — É rápido com o cumprimento. Respiro fundo. — Tyler, aqui é Silvie. — Digo baixinho. — Não sei se ainda lembra de mim e… — Silvie… Claro — Interrompe-me e sinto um riso em sua voz. — Eu não devia ter ligado, mas é sobre a proposta. Se ainda estiver de pé eu… aceito — Solto me arrependendo logo em seguida. Houve uma longa pausa e o som da sua respiração profunda até a voz potente estalar outra vez. — Hum… certo! — Ele diz, parecendo não acreditar. — Como havia dito antes, não tenho muito tempo, Silvie. Se não tiver objeções, seria ótimo nos encontrarmos agora para acertar os detalhes. Solto um suspiro suave antes de prosseguir com a conversa. Me sinto uma aproveitadora, mas é a saúde de Olívia que está em jogo. — Não tenho. Inclusive preciso vê-lo agora, eu tenho algo para pedir antes do casamento. É um caso de extrema importância, Tyler. Não tenho a quem recorrer no momento, até tenho, mas já abusei muito da sua boa vontade e… — Silvie? Ele interrompe-me do meu surto. Eu tinha me esquecido que falo pelos cotovelos quando estou nervosa. — Onde posso encontrá-la? — Questiona com uma voz perigosamente controlada. Mordo o lábio inferior. — No hospital.
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