Capitulo 2

822 Palavras
O ELOGIO QUE NÃO AQUECEU Maia ainda segurava os pedaços rasgados do boletim quando foi para o quarto. Sentou-se na cama estreita e alisou o papel como se pudesse consertá-lo. O r***o atravessava o nove e meio em ciências, partindo a nota ao meio, como se simbolizasse exatamente o que sentia por dentro. Ela não chorou. Chorar, naquela casa, sempre foi inútil. Minutos depois, ouviu passos no corredor. A porta se abriu devagar. Era a mãe. Vera parou na soleira, observando a filha em silêncio. Maia continuou sentada, com os olhos baixos, esperando a crítica que sempre vinha. Mas, dessa vez, a mãe parecia diferente. Cansada. Menos dura. Talvez culpada. — Seu irmão não devia ter rasgado — disse, finalmente. Não foi pedido de desculpas. Foi apenas constatação. Maia permaneceu calada. Vera entrou no quarto e sentou-se na beira da cama, rígida, como alguém que não sabia ocupar aquele espaço. Houve um silêncio estranho. Então, com esforço visível, ela falou: — A professora escreveu que você é dedicada. Maia ergueu os olhos, surpresa. O coração acelerou. Era raro ouvir algo que não fosse cobrança. — Você… é inteligente, sim. As palavras saíram duras, como se tivessem sido treinadas em uma língua estrangeira. Maia sentiu algo se mover dentro do peito. Não era alegria. Era esperança. Uma esperança frágil, quase dolorosa. — Mas não pense que isso muda as coisas — completou a mãe rapidamente. — O mundo não é gentil com gente como nós. Se se acomodar, vai acabar igual a mim. O elogio vinha sempre acompanhado de ameaça. Como se a ternura fosse perigosa demais para existir sozinha. Maia apertou o boletim contra o peito. — Eu só queria que a senhora ficasse orgulhosa… Vera desviou o olhar. Orgulho era um sentimento que ela não sabia demonstrar. Talvez nem soubesse sentir direito. — Orgulho não enche barriga — respondeu. — Nota boa é obrigação. E, ainda assim, antes de sair, disse: — Continue estudando. É a única coisa que ninguém pode tirar de você. Foi o mais próximo de carinho que Maia receberia naquele dia. A porta se fechou. Maia ficou sozinha. Confusa. Porque doeu menos que antes — mas ainda doeu. Ela entendeu algo importante naquela noite: Sua mãe não era incapaz de amar. Era incapaz de demonstrar. E isso criava um tipo específico de ferida: Não a da rejeição aberta, mas a da esperança sempre incompleta. Foi assim que Maia cresceu: Entre pequenas migalhas de afeto, e grandes desertos emocionais. Aprendendo que até o amor, naquela casa, vinha machucado. À MESA O jantar naquela casa nunca foi um momento de união. Era um ritual de silêncio e tensão. A mesa era pequena, de madeira gasta, com marcas de anos de uso. O cheiro de comida simples se espalhava pela cozinha — arroz, feijão e carne dura. Ninguém conversava. Maia sentou-se em seu lugar de sempre, com os ombros encolhidos. O pai já estava à mesa. Antônio comia como se estivesse sozinho no mundo. Mastigava alto, sem olhar para ninguém. A simples presença dele transformava o ar em algo pesado. Juninho sentou-se logo depois, jogando-se na cadeira. — Essa carne tá dura — reclamou. Ninguém respondeu. Maia mexia no prato sem fome. Ainda estava confusa com o elogio torto da mãe. Parte dela queria acreditar que algo estava mudando. Outra parte já sabia que não. Quebrou o silêncio. — Fiquei sabendo da nota. Maia ergueu os olhos rapidamente. O coração deu um salto. Talvez, só talvez, ele fosse dizer algo diferente daquela vez. — Nove e meio — continuou Antônio. — E errou por quê? A esperança morreu antes de nascer. — Foi uma questão de interpretação… — Sempre tem desculpa — cortou ele. — Médico não pode errar. Um erro mata gente. Maia abaixou a cabeça. Juninho riu de canto. — Daqui a pouco tá se achando doutora. Maia sentiu o rosto queimar. — Deixa a menina — disse a mãe, em tom baixo. — Ela foi bem. O pai lançou um olhar duro para Vera. — Tá defendendo demais. Vera se calou imediatamente. O medo ainda governava aquela casa. Antônio voltou-se para Maia. — Estudar é o mínimo que você pode fazer. Já que nasceu mulher, trate de compensar sendo útil. A frase caiu como um tapa invisível. Maia sentiu algo se partir dentro dela. Não era só crítica. Era desprezo pela sua existência. Juninho completou, rindo: — Mulher só se dá bem se casar direito. Maia permaneceu em silêncio. Sabia que qualquer resposta viraria contra ela. A mãe observava tudo sem intervir. Não por concordar totalmente, mas por estar cansada demais para lutar. Naquele jantar, Maia entendeu mais uma coisa: Aquela mesa não era lugar de afeto. Era tribunal. E ela estava sempre no banco dos réus. Enquanto os outros comiam, Maia fez um voto silencioso: Eu vou sair daqui, nem que seja sozinha, nem que doa. Mas não vou passar a vida inteira sentada nessa mesa
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