O dia amanheceu cedo na fazenda, como sempre. Antes mesmo do sol aparecer por completo no horizonte, o som dos galos já ecoava, misturado com o movimento dos trabalhadores se levantando para mais uma jornada pesada.
O ar ainda estava fresco, mas já carregava a promessa de um dia longo.
Os escravos começaram a se organizar, cada um seguindo para sua função. Alguns iam para a lavoura, outros para os serviços da casa grande. Era uma rotina dura, repetitiva… mas inevitável.
Jamila acordou com os primeiros chamados. Ainda sonolenta, sentiu o corpo cansado, mas havia algo diferente naquele dia — seus pensamentos não estavam apenas no trabalho… mas também na noite anterior. No beijo. Em Afonso.
Ela respirou fundo, tentando afastar aquilo da mente.
Não podia se distrair.
Pouco tempo depois, ela já estava ao lado de Sol. A menina, diferente dos outros, tinha um destino raro ali: começava a aprender a ler e escrever. Era levada para uma pequena sala improvisada, onde recebia lições básicas.
Jamila a acompanhava sempre que podia.
Naquele dia, não foi diferente.
As duas caminharam juntas até o local da aula. Sol parecia animada, enquanto Jamila observava tudo em silêncio, com um brilho discreto nos olhos.
Ela nunca tinha tido aquela oportunidade.
Nunca tinha segurado um lápis de verdade… nunca tinha entendido aquelas letras que, para ela, pareciam desenhos misteriosos.
Mas queria.
Queria muito.
Durante a aula, Jamila ficou em um canto, quieta, prestando atenção em cada palavra, em cada explicação. Observava os movimentos, os sons, tentando guardar tudo na memória.
Sol, vez ou outra, olhava para trás e sorria para ela, como se soubesse o quanto aquilo significava.
— Isso aqui é a letra “A”… — dizia o professor.
Jamila repetia baixinho, quase sem som:
— A…
Era como descobrir um novo mundo.
Um mundo que sempre esteve ali… mas que nunca lhe foi permitido.
Quando a aula terminou, as duas voltaram juntas.
O sol já estava mais alto, e o calor começava a pesar. O trabalho ainda continuava, e a realidade logo voltava a se impor.
Mas, para Jamila, algo havia mudado, mesmo que fosse pequeno.
Enquanto caminhava, ela olhava para o chão, pensativa.
— Um dia… — murmurou para si mesma. — Um dia eu aprendo também.
Era um sonho simples.
Mas, naquele lugar… era quase impossível.
E ainda assim, ela guardava esse desejo com força dentro de si, como guardava também seus sentimentos proibidos.
Sem saber que, ao mesmo tempo que começava a sonhar com conhecimento…
Outros ao seu redor planejavam coisas que poderiam tirar tudo dela.
O tempo foi passando na fazenda, dia após dia, sempre com a mesma rotina pesada — trabalho duro, sol forte e poucas mudanças. Mas, por dentro, muita coisa estava longe de ser calma.
O feitor, por exemplo, já não tinha mais a mesma paciência.
Desde a conversa com Santiago, ele aguardava uma resposta… mas ela nunca vinha. O assunto parecia ter sido deixado de lado, como se não tivesse importância. E isso o incomodava profundamente.
A cada dia que passava, sua inquietação aumentava.
Ele continuava cumprindo o que havia sido ordenado — não se aproximava de Jamila, não falava com ela, não a tocava. Pelo menos, não diretamente.
Mas isso não significava que ela saía de seus pensamentos.
Pelo contrário.
Agora, ele a observava de longe, em silêncio, sempre atento aos seus movimentos. Era um olhar constante, escondido, que acompanhava Jamila sem que ela percebesse.
Certo dia, ao passar próximo ao rio, ele a viu entre outras mulheres, lavando-se depois de mais uma manhã de trabalho. O tecido simples que vestia ficava pesado com a água, marcando sua silhueta de forma natural.
Ele desviou o olhar por um instante, como se lutasse contra si mesmo… mas logo voltou a olhar.
Apertou o maxilar.
Aquilo só aumentava o conflito dentro dele.
— Até quando… — murmurou, irritado.
O desejo que sentia não diminuía — pelo contrário, crescia junto com a frustração de não ter uma resposta de Santiago. Para ele, aquilo já deveria ter sido resolvido.
Mas, mesmo assim, estava se controlando.
Porque sabia que, se desobedecesse, poderia perder muito mais do que ganhar.
Ainda assim… havia algo mudando.
A paciência dele estava chegando ao limite.
Sem saber de nada disso, Jamila seguia sua rotina, tentando se manter firme. Entre o trabalho e os poucos momentos de aprendizado com Sol, ela encontrava pequenas razões para continuar.
Mas também carregava seus próprios segredos.
E enquanto Afonso a olhava com carinho…
O feitor a observava com uma intensidade cada vez mais perigosa.
E esse silêncio… não ia durar para sempre.
Afonso já não conseguia mais negar o que sentia.
A cada dia que passava, aquele sentimento crescia dentro dele de forma intensa, ocupando seus pensamentos, tirando sua paz e, ao mesmo tempo, dando um sentido novo para tudo ao seu redor.
Jamila não saía de sua mente.
Durante o dia, ele a observava de longe, tentando disfarçar. À noite… era ainda pior.
O silêncio da casa grande trazia uma coragem que ele não tinha durante o dia.
E foi assim que, em várias noites, ele se aproximou do quarto dela.
Devagar, sem fazer barulho, ele abria a porta apenas o suficiente para entrar. Ficava ali, parado por alguns instantes, como se estivesse ultrapassando um limite invisível.
Jamila dormia, alheia a tudo.
A luz fraca da lua entrava pela pequena janela, iluminando parcialmente o rosto dela. A expressão tranquila contrastava com tudo o que viviam durante o dia.
Afonso se aproximava em silêncio, o coração batendo forte.
Sentava-se às vezes em um canto… outras vezes apenas ficava de pé, observando.
Não havia maldade naquele momento.
Era como se ele quisesse guardar cada detalhe — o jeito dela respirar, a calma no rosto, a simplicidade que o encantava.
— Por que você… — ele sussurrava, sem completar a frase.
Ele sabia que aquilo era errado.
Sabia que estava invadindo o espaço dela.
Mas, ao mesmo tempo, sentia uma necessidade quase impossível de controlar… de estar perto, mesmo que em silêncio.
De viver aquele sentimento que crescia dentro dele.
Em uma das noites, ele chegou a se aproximar mais.
Parou ao lado da cama, hesitou… e estendeu a mão, como se fosse tocar o rosto dela.
Mas parou no meio do caminho.
Recuou.
Passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Não assim… — murmurou para si mesmo.
Ele não queria que aquilo fosse escondido, roubado.
Queria poder olhar para ela à luz do dia… sem medo, sem culpa.
Mas sabia que isso parecia impossível.
Então, mais uma vez, ele apenas a observou por alguns instantes… e foi embora em silêncio, como sempre.
Sem perceber que, a cada noite que passava…
Ele se envolvia mais.
E que aquele amor proibido estava ficando cada vez mais difícil de controlar.