A festa seguiu leve, cheia de risadas e música. Por algumas horas, a fazenda parecia um lugar diferente — mais humano, mais vivo.
Sol aproveitou cada instante. Dançou, conversou, riu alto… era, sem dúvida, o centro de tudo naquela noite.
Aos poucos, os convidados começaram a se despedir. Um a um, foram indo embora, deixando para trás o eco da alegria que tinham trazido.
Quando tudo já estava mais calmo, Sol puxou Jamila e Afonso.
— Vamos dar uma volta no jardim?
Os três caminharam juntos sob a luz suave da noite. O ar estava fresco, e o silêncio agora era tranquilo.
— Jamila… — disse Sol, sorrindo — o vestido ficou lindo em você.
Jamila abaixou o olhar, tímida.
— Foi você que escolheu…
— E você vai ficar com ele — completou Sol.
Jamila arregalou levemente os olhos.
— Não, Sol… eu não posso—
— Pode sim — insistiu ela, firme, mas sorrindo.
Afonso riu de leve.
— Eu concordo.
Jamila olhou para ele… e os dois se encararam por um instante mais longo do que deveriam.
Havia ali uma vontade clara, quase impossível de esconder.
Mas Sol estava entre eles.
E isso bastava para conter qualquer impulso.
Jamila respirou fundo.
— Obrigada… de verdade.
Sol segurou a mão dela, feliz.
Depois de mais alguns minutos de conversa, resolveram entrar. O cansaço começava a pesar, e o dia tinha sido longo.
Sol se despediu dos dois e foi descansar.
Afonso ainda lançou um último olhar para Jamila antes de subir… um olhar cheio de intenção, mas também de cuidado.
E então foi embora.
Jamila ficou do lado de fora, organizando algumas coisas da festa. Recolhia objetos, ajeitava o que podia, tentando ocupar a mente.
Foi quando ouviu passos.
Ela se virou rapidamente, assustada.
— Calma… — disse o feitor, levantando levemente as mãos. — Tá tudo bem.
Jamila respirou fundo, tentando se acalmar.
— O senhor me assustou…
— Não era a intenção.
Ele se aproximou devagar… e, dessa vez, sem tensão, começou a ajudar a arrumar.
— A festa ficou bonita — comentou.
— Ficou sim… Sol merecia.
Ele assentiu.
O silêncio veio por alguns segundos, mas não era desconfortável.
Então ele olhou para ela, com um ar mais sério.
— Posso te perguntar uma coisa?
Jamila hesitou.
— Pode…
— Sua família… — ele disse, com cuidado. — Você ainda pensa neles?
O corpo dela ficou rígido na hora.
Seus olhos baixaram.
Por um momento, ela não respondeu.
— Se não quiser falar… — ele começou, percebendo—
— Eu lembro… — interrompeu ela, com a voz baixa.
O feitor ficou em silêncio, esperando.
Jamila respirou fundo.
— Meu pai morreu… ainda lá. — Sua voz era calma, mas carregada de dor. — Minha mãe… morreu no navio.
O feitor engoliu seco, sem interromper.
— E meus irmãos… — ela continuou — quando chegamos aqui… foram vendidos.
A palavra saiu pesada.
— Eu nunca mais vi eles.
O silêncio tomou conta.
O feitor olhava para ela com atenção… mas, dessa vez, sem dureza.
— Você lembra deles? — perguntou, mais baixo.
Jamila assentiu levemente.
— Lembro… cada um. — Um pequeno sorriso triste surgiu. — Eu queria… queria muito encontrar eles um dia.
O vento passou suave, como se carregasse aquela dor silenciosa.
O feitor desviou o olhar por um instante, pensativo.
— Talvez… ainda exista uma chance — disse, sem muita convicção, mas tentando confortar.
Jamila não respondeu.
Mas seus olhos mostravam que aquele desejo ainda vivia forte dentro dela.
E, naquele momento, pela primeira vez…
O feitor não a via apenas com desejo.
Via também a dor que ela carregava.
E isso mudava alguma coisa dentro dele.
Jamila permaneceu em silêncio por alguns segundos, olhando para o chão. As palavras ainda pesavam dentro dela, como se cada lembrança abrisse uma ferida antiga.
— O Brasil é tão grande… — disse, por fim, com a voz fraca. — Como é que eu vou achar eles?
Ela respirou fundo, tentando se controlar, mas a dor veio mais forte.
— Antes de morrer… minha mãe me fez prometer que eu ia cuidar deles… — sua voz falhou — que eu nunca ia deixar eles sozinhos…
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Jamila.
— E eu falhei…
O feitor observou aquilo em silêncio. Algo no jeito dela mexia com ele de um modo diferente do que antes — não era só desejo… havia algo mais ali, ainda confuso.
— Ei… — disse, mais baixo, tentando acalmá-la — não fala assim.
Ele deu um passo mais próximo, mas sem invadir o espaço dela.
— Você não teve escolha.
Jamila enxugou o rosto, mas as lágrimas continuavam vindo.
— Eu prometi…
Ele pensou por um instante… e então falou:
— Eu posso tentar ajudar você.
Ela levantou o olhar, surpresa.
— Como?
Ele hesitou, mas manteve a firmeza.
— Ainda não sei direito… mas eu conheço muita gente. Outros feitores, homens que trabalham em outras fazendas… gente que circula por aí.
Jamila o olhava com atenção, como se estivesse ouvindo algo que nunca imaginou possível.
— Posso perguntar… ver se alguém já ouviu falar deles — continuou ele. — Não é garantia… mas é alguma coisa.
O silêncio veio… mas, dessa vez, diferente.
Jamila sentiu algo novo surgir dentro dela.
Esperança.
Mesmo entre lágrimas… um pequeno sorriso apareceu.
— Obrigada… — disse, emocionada.
O feitor assentiu de leve.
— Eu vou pensar em alguma forma.
Pela primeira vez, Jamila o olhava de um jeito menos defensivo… menos assustado.
E isso não passou despercebido por ele.
Depois de terminarem de organizar o que faltava, os dois se despediram.
— Boa noite — disse ele.
— Boa noite…
Cada um seguiu para seu lado.
Mais tarde, já no quarto, Jamila contou tudo para Chinara.
Falou da conversa, das lembranças… e da promessa de ajuda.
Chinara ouviu em silêncio, com os braços cruzados, o olhar atento.
— E ele disse que vai te ajudar a encontrar seus irmãos? — perguntou, séria.
— Disse… — respondeu Jamila. — Ele conhece pessoas… pode tentar descobrir alguma coisa.
Chinara ficou em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Observando cada detalhe.
— Jamila… — disse, por fim, com cuidado — abre o olho.
Jamila franziu a testa.
— Como assim?
Chinara suspirou.
— Eu posso estar errada… mas esse homem… — ela fez uma pausa — ele tá mudando o jeito com você por um motivo.
Jamila ficou confusa.
— Que motivo?
Chinara a encarou diretamente.
— Ele tá começando a gostar de você… ou pelo menos acha que tá.
Jamila não respondeu.
— E homem assim… — continuou Chinara — pode usar qualquer coisa pra chegar perto. Até a sua dor.
O silêncio caiu pesado no quarto.
Jamila abaixou o olhar.
A esperança que tinha surgido… agora vinha acompanhada de dúvida.
— Você acha que ele tá mentindo? — perguntou, baixa.
Chinara deu de ombros.
— Não sei. Mas eu não confio.
Jamila ficou em silêncio.
Dividida mais uma vez.
Entre o medo… e a esperança de, finalmente, ter alguma notícia de sua família..