Capítulo 20

1101 Palavras
O resto do dia seguiu pesado, mas o clima na fazenda já não era o mesmo. A notícia do castigo “aliviado” ainda corria entre todos, como um sussurro carregado de surpresa. Alguns viam aquilo como sorte… outros, como um sinal estranho de mudança. Mas nem todos estavam tranquilos. Afonso não conseguiu ignorar o que viu. De longe, enquanto fingia cuidar de outros assuntos, seus olhos voltavam sempre para o mesmo lugar. Jamila. E, não muito distante dela… O feitor. O jeito que ele olhava. O jeito que ela já não se afastava com o mesmo medo. Aquilo incomodava. Mais do que Afonso queria admitir. Ele apertou o maxilar, passando a mão pelos cabelos, claramente inquieto. — O que tá acontecendo… — murmurou. Ele não gostava daquilo. Não confiava naquele homem. E, no fundo… sentia que estava começando a perder espaço. Jamila tentava focar no trabalho, mas sentia os olhares. Sentia a tensão no ar. E, principalmente, sentia que algo estava mudando ao seu redor. Quando o dia começou a cair, ela foi até a cozinha ajudar nos últimos afazeres. Foi quando Afonso apareceu. — Jamila. Ela se virou, surpresa. — Afonso… Ele se aproximou, olhando ao redor para garantir que estavam sozinhos. — A gente precisa conversar. Ela ficou tensa. — Sobre o quê? Ele respirou fundo. — Sobre ele. Jamila já sabia de quem ele estava falando. — Não precisa— — Precisa, sim — interrompeu ele, firme. — Eu vi hoje. O silêncio caiu entre os dois. — Ele não é alguém em quem você possa confiar — continuou Afonso. — Você sabe disso. Jamila abaixou o olhar. — Ele me ajudou… — disse, mais baixa. — Hoje… e ontem também. Afonso franziu a testa. — E você acha que isso muda quem ele é? Ela não respondeu. — Jamila… — ele se aproximou mais — homens como ele não fazem nada sem querer algo em troca. As palavras pesaram. Porque, no fundo… ela já tinha pensado nisso. — E você? — ela perguntou de repente, levantando o olhar. — Você não quer nada em troca? Afonso ficou em silêncio por um segundo, surpreso. — Eu quero você — respondeu, sincero. — Mas não desse jeito. O coração dela acelerou. — Eu não quero te prender… nem te usar. Eu só… — ele hesitou — eu gosto de você. O silêncio entre eles ficou carregado. Jamila sentia tudo se misturar dentro dela. Medo. Esperança. Confusão. — Isso não é simples… — ela disse. — Eu sei — respondeu ele. — Mas também sei que não vou ficar parado vendo outro homem se aproximar de você desse jeito. Ela respirou fundo. — Eu não pertenço a ninguém. Ele a olhou, sério. — Eu sei. Mas o olhar dele dizia outra coisa. Dizia que ele não estava disposto a desistir. Do lado de fora, encostado em uma das colunas, o feitor observava. Não ouvia tudo. Mas via o suficiente. A proximidade. O jeito que Afonso falava com ela. Seu olhar escureceu. Agora não era só desejo. Era disputa. E, naquele momento… Ele decidiu que não ia ficar para trás. O feitor se deitou naquela noite, mas, mais uma vez, o sono não vinha. Ficou encarando o teto, com os pensamentos agitados, voltando repetidamente para a mesma cena. Afonso. O filho de Santiago. Tão próximo de Jamila. O jeito que olhava para ela… não era comum. Não era como os outros homens da casa. Havia algo ali que incomodava profundamente. — Apaixonado… — murmurou, incrédulo. Aquilo não fazia sentido para ele. Um homem como Afonso… envolvido daquele jeito com uma escrava? Ele virou o rosto, irritado. O ciúme crescia dentro dele, pesado, difícil de controlar. Mas, ao mesmo tempo, sua mente tentava justificar. — Isso não vai pra frente… — disse, tentando se convencer. — Nunca vão aceitar isso. Ele conhecia bem as regras daquele lugar. Sabia que Santiago jamais permitiria algo assim. No máximo… Afonso poderia estar se deixando levar por um desejo passageiro. — Ele só quer se aproveitar… — concluiu, apertando o maxilar. Mas, mesmo dizendo isso, algo o incomodava. Porque ele também via Jamila. Sabia que ela não era como as outras. Havia algo nela… uma força, uma beleza, um jeito que prendia o olhar de qualquer um. — Ela é diferente… — admitiu, mais baixo. E talvez fosse exatamente por isso que Afonso estivesse tão envolvido. O feitor fechou os olhos por um instante… e então uma decisão começou a se formar. Se aquilo era uma disputa… Ele não ficaria parado. — Eu preciso ficar de olho… — pensou. — Nos dois. E mais do que isso. Precisava agir. Não podia deixar que Afonso se aproximasse mais. Não podia perder espaço. A ideia de ver Jamila nos braços de outro homem… ainda mais dele… o incomodava mais do que deveria. Abriu os olhos novamente, decidido. — Não vou deixar isso acontecer. Naquela noite, enquanto todos dormiam… Uma nova tensão nascia. Silenciosa. Mas cada vez mais perigosa. Enquanto isso, em outro quarto da casa grande, Afonso também não conseguia dormir. Andava de um lado para o outro, inquieto, passando as mãos pelos cabelos, como se tentasse organizar os próprios pensamentos… mas tudo parecia ainda mais confuso. Jamila. Tudo sempre voltava para ela. Ele parou perto da janela, olhando para a escuridão da fazenda, respirando fundo. — Eu quero ela… — murmurou. Mas, dessa vez, não era só desejo. Era mais profundo. Mais sério. A ideia começou a se formar com mais força dentro dele… algo que antes parecia distante, impossível. Casar com ela. Ele fechou os olhos por um instante, como se sentisse o peso daquilo. Sabia exatamente o que isso significava. Não era só uma escolha. Era um confronto. Com sua família. Com seu pai. Com tudo o que aquele lugar representava. Ele soltou um suspiro pesado. — Eles nunca vão aceitar… — disse, em voz baixa. E não era exagero. A sociedade ao redor, as regras impostas, os costumes… tudo estava contra aquilo. Mas, ainda assim… Ele não conseguia desistir. Porque, pela primeira vez na vida, sentia algo que não queria perder. — Eu não posso deixar ela… — completou, mais firme. Afonso encostou a mão na janela, olhando para o escuro, como se pudesse vê-la dali. Sabia que não seria fácil. Sabia que poderia perder tudo. Mas também sabia que, se não lutasse… Ia se arrepender para sempre. E, naquela noite, uma decisão começava a nascer dentro dele. Uma decisão que podia mudar não só a vida dele… Mas a de Jamila também. Sem que ela sequer imaginasse o que estava por vir.
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